Doença celíaca: sintomas, exames e dieta

No inverno de 1944 para 1945, a parte ocidental da Holanda, ocupada pelos nazistas, passou fome. Foi o chamado Inverno da Fome: faltava quase tudo, inclusive pão. O pediatra holandês Willem Karel Dicke acompanhava crianças com uma doença intestinal grave, que causava diarreia, barriga inchada e atraso no crescimento. E reparou numa coisa estranha: com o pão sumindo das mesas, algumas dessas crianças pioravam menos ou até melhoravam.
Os historiadores contam que Dicke já desconfiava do trigo havia anos, ouvindo as famílias dos pacientes, e que a guerra foi só mais uma pista. Depois dela, ele testou dietas sem trigo com cuidado e, com colegas, mediu a gordura que os pacientes perdiam nas fezes. Em 1950 apresentou a tese, na Universidade de Utrecht, que ligou a doença aos cereais. Estava aberta a porta para entender a doença celíaca.
Mais de setenta anos depois, o tratamento continua sendo o que Dicke descobriu: tirar o glúten da comida. Mas há um detalhe que muita gente não sabe e que faz toda a diferença: o glúten só deve sair do prato depois dos exames. A seguir, você entende por quê.
Resposta rápida: a doença celíaca é uma doença crônica e autoimune do intestino delgado, provocada pelo glúten em pessoas com predisposição genética. O diagnóstico usa exame de sangue e biópsia do intestino, feitos enquanto a pessoa ainda come glúten. O tratamento é uma dieta sem glúten por toda a vida.
O que é a doença celíaca?
O glúten é a principal proteína do trigo, do centeio e da cevada. Na pessoa celíaca, o sistema de defesa do corpo reage contra ele e inflama a parede do intestino delgado. Com o tempo, as vilosidades, pequenas dobras que absorvem os nutrientes, ficam achatadas. O intestino passa a absorver mal ferro, cálcio, vitaminas e outros nutrientes, mesmo quando a pessoa come bem.
Não se trata de alergia nem de uma simples "intolerância". É uma doença autoimune, e a maioria das pessoas afetadas tem certos genes, chamados HLA-DQ2 ou DQ8. Ter esses genes, porém, não basta: muita gente os tem e nunca desenvolve a doença.
Ela é mais comum do que parece. Segundo o Ministério da Saúde, os exames de sangue indicam a doença em cerca de 1,4% da população mundial. No Brasil, estudos encontraram de 1 caso a cada 214 pessoas, em São Paulo, a 1 a cada 681, em Brasília. E o protocolo do Ministério estima que, para cada caso descoberto pelos sintomas, existem de três a sete pessoas com poucos ou nenhum sintoma e sem diagnóstico.
Quais são os sintomas da doença celíaca?
A doença pode aparecer em qualquer idade, e os sinais variam muito de uma pessoa para outra. Na forma chamada clássica, que é mais vista em crianças, predominam os sintomas do intestino:
- diarreia crônica ou, às vezes, intestino preso;
- barriga inchada, dor e gases;
- perda de peso, falta de apetite e, nas crianças, atraso no crescimento;
- irritabilidade ou desânimo.
Em muitos adultos o intestino quase não dá sinais, e a doença se mostra em outras partes do corpo. O protocolo do Ministério da Saúde cita anemia por falta de ferro, osteoporose, baixa estatura, manchas no esmalte dos dentes, dor nas articulações, cansaço, alterações no fígado, queda de cabelo, problemas na gravidez e até sintomas neurológicos, como formigamento e falta de equilíbrio. Há também a dermatite herpetiforme, uma erupção com bolhinhas que coçam muito, considerada a forma da doença celíaca na pele.
E existe quem não sinta nada. Mesmo assim, o intestino pode estar inflamado, e a doença sem tratamento pode trazer complicações com os anos.
Quem tem mais chance de ser celíaco?
O Ministério da Saúde recomenda investigar, mesmo sem sintomas, as pessoas dos grupos de risco:
- pais, irmãos e filhos de quem tem doença celíaca;
- quem tem outras doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, síndrome de Sjögren ou deficiência seletiva de IgA;
- pessoas com síndrome de Down, de Turner ou de Williams.
Como é feito o diagnóstico?
O primeiro passo costuma ser um exame de sangue que mede o anticorpo antitransglutaminase tecidual da classe IgA (o "tTG-IgA"), junto com a dosagem da IgA total. Quando o resultado sugere a doença, o médico indica uma endoscopia para retirar pequenos pedaços do intestino delgado, a biópsia, que mostra se as vilosidades foram danificadas. Em quem tem a erupção típica na pele, a biópsia pode ser feita na própria pele.
Existe ainda um exame genético para HLA-DQ2 e DQ8. Ele serve mais para descartar: segundo o instituto de saúde americano NIDDK, quem não tem essas variantes muito dificilmente é celíaco. Ter as variantes, por outro lado, não confirma nada.
Por que não tirar o glúten antes dos exames?
Este é o ponto que mais atrapalha o diagnóstico. Muita gente desconfia do glúten, corta pão e massa por conta própria, se sente melhor e só depois vai ao médico. O problema é que, sem glúten, os anticorpos baixam e o intestino começa a se recuperar. Aí o exame de sangue e a biópsia podem vir normais mesmo em quem tem a doença.
Por isso o NIDDK não recomenda começar a dieta sem glúten antes dos exames, e o protocolo brasileiro só confirma o diagnóstico com exames colhidos enquanto a pessoa ainda comia glúten. Se você já cortou o glúten, conte isso ao médico: ele vai orientar o que fazer antes de pedir os testes.
O Ministério da Saúde também lembra que não há comprovação de que o glúten faça mal a quem não tem doença celíaca ou outra condição ligada a ele. Tirar o glúten "por precaução", sem diagnóstico, não é uma recomendação.
Como vive a pessoa celíaca?
Até hoje, o único tratamento comprovado é a dieta sem glúten, para sempre. Isso quer dizer deixar de lado tudo o que leva trigo, centeio ou cevada, e também tomar cuidado com a contaminação: farinha na mesma bancada, a mesma torradeira, o óleo da fritura. O protocolo brasileiro orienta usar utensílios separados. A aveia pura, sem contaminação, costuma ser segura, mas uma pequena parte dos celíacos reage a ela e ela pode ser contaminada com trigo durante a produção, assim como o milho.
O rótulo ajuda. Desde 2003, a Lei 10.674 obriga todo alimento industrializado a trazer a frase "contém glúten" ou "não contém glúten". Vale ler sempre, porque a receita de um produto pode mudar.
A dieta é trabalhosa e mexe com a rotina da família inteira, por isso o acompanhamento com médico e nutricionista faz diferença. Associações de pacientes, como as ligadas à Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (FENACELBRA), também trocam informações práticas sobre o dia a dia.
Quando procurar um médico
Procure atendimento se você tem diarreia ou barriga inchada que não passam, anemia sem causa explicada, perda de peso sem motivo, osteoporose precoce ou uma erupção na pele que coça muito. Pais devem levar ao pediatra a criança que não cresce ou não ganha peso como esperado. Quem tem parente de primeiro grau celíaco ou está em outro grupo de risco também deve conversar com o médico sobre fazer os exames. O clínico geral ou o pediatra podem começar a investigação, e o médico indica os exames e a endoscopia quando forem necessários.
Conclusão: a lição de Dicke continua valendo
Dicke precisou de anos de observação paciente para provar que o trigo estava por trás do sofrimento das crianças que tratava. Hoje, um exame de sangue e uma biópsia fazem esse trabalho em semanas, desde que a pessoa não tenha tirado o glúten antes da hora.
O recado é este: se você desconfia de doença celíaca, não corte o glúten por conta própria. Primeiro os exames, depois a dieta. Com o diagnóstico certo e a dieta bem feita, a pessoa celíaca leva uma vida normal.
Perguntas frequentes
Doença celíaca tem cura?
Não. É uma condição para a vida toda, mas a dieta sem glúten controla a inflamação e permite que o intestino se recupere.
Doença celíaca é o mesmo que intolerância à lactose?
Não. Mas o intestino danificado pode produzir menos lactase, a enzima que digere o açúcar do leite. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, essa intolerância costuma ser temporária e melhora em cerca de dois meses de dieta sem glúten, quando o intestino se recupera.
Comer só um pouco de glúten faz mal?
Para o celíaco, sim. Pequenas quantidades já podem manter a inflamação, mesmo sem sintomas. Por isso a dieta precisa ser rigorosa.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 1º de julho de 2025: aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. gov.br/conitec
- Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca: relatório de recomendação, 2023. gov.br/conitec
- Brasil. Lei nº 10.674, de 16 de maio de 2003. planalto.gov.br
- World Gastroenterology Organisation. Global Guidelines: Celiac Disease. worldgastroenterology.org
- NIDDK (National Institutes of Health). Diagnosis of Celiac Disease. niddk.nih.gov
- Yan D, Holt PR. Willem Dicke: brilliant clinical observer and translational investigator. Clinical and Translational Science, 2009. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.
Comentários2
Carlos Alberto Guimarães de Sá
Não entendo a razão pela qual a medicina faz vistas grosas quando o assunto envolve a possibilidade do paciente está com a doença celíaca. Como se usa o termo síndrome do colón irritável, dores articulares e fator reumatóide negativo? Perguntar não ofende, assim como desconfiar. Se o paciente deixar totalmente o glúten - certamente- vai ficar bom, para esse caso comprovado, mas por que não pesquisar? O óbvio é pesquisar, pois pode ser tarde mais adiante, devido às complicações graves que poderá trazer tal doença. É bom que fique claro que não sou médico, mas pesquisador e muito curioso, uma vez que pesquiso por que posso até ter isso, uma vez que já faz alguns anos que tenho dores articulares sem que o fator reumatóide acuse positivo, nem a hemossedimentação elevada.
Responder❤️ 0Rais
Muito interessante seu ponto de vista Carlos. Na minha visão é que não é nem questão de vistas grossas. Infelizmente, tudo que se diz respeito a pesquisa no país e no mundo precisa de recursos, e muitas vezes isso é um ponto mais político do que social. O direcionamento de recursos não é feito atualmente estrategicamente de acordo com a necessidade da sociedade, mas sim seguindo alguns interesses (seja por afinidade dos pesquisadores, seja por política, ou até mesmo direcionamentos indevidos como desvios por corrupção)... O fato é que não temos uma gestão estratégica de recursos de pesquisa na saúde, por isso algumas doenças não são estudadas ou demoram mais para ter resultados. Eu sinceramente acredito muito que nos próximos 10 anos teremos muitas descobertas, basicamente por causa da evolução da tecnologia, que irá tornar mais fácil e barata as pesquisas e entendimento do nosso corpo. Enquanto isso, precisamos de mais pessoas como você que questionam e pedem por respostas das autoridades para que algo seja feito, pois somente assim promoveremos as mudanças. Um Abraço. Fabiano CEO Rais.
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