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Artigo · Notícias · 14 min de leitura

Guia do câncer: prevenção e diagnóstico precoce

RaiRaisLife6 de fevereiro de 2018 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Legumes, tênis de corrida e um calendário sobre a mesa

Em 1928, numa conferência médica em Battle Creek, nos Estados Unidos, um pesquisador grego chamado George Papanicolaou contou uma observação: olhando ao microscópio células raspadas do colo do útero, era possível enxergar sinais de câncer antes de qualquer sintoma. A plateia recebeu a ideia com ceticismo.

Só em 1943, quando ele publicou com o patologista Herbert Traut o trabalho sobre o diagnóstico do câncer do útero pelo esfregaço vaginal, o método começou a ganhar o mundo. Foi assim que nasceu o exame que até hoje leva o apelido dele, o "Papanicolau".

A história de Papanicolaou resume a ideia central deste guia: boa parte dos cânceres pode ser evitada, e muitos podem ser encontrados cedo, quando o tratamento tem mais chance de dar certo. Mas o que realmente aumenta o risco, quais exames valem a pena e em que idade? E o que é mito?

Resposta rápida: segundo a OMS, cerca de 38% dos cânceres podem ser prevenidos evitando fatores de risco como cigarro, álcool, excesso de peso e algumas infecções. No Brasil, o SUS recomenda rastreamento para três tipos: mama (mamografia a cada dois anos dos 50 aos 74), colo do útero (teste de DNA-HPV a cada cinco anos dos 25 aos 64) e intestino (teste de sangue oculto nas fezes a cada dois anos dos 50 aos 75).

Quantas pessoas têm câncer no Brasil?

A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), lançada em fevereiro de 2026, prevê cerca de 781 mil casos novos por ano entre 2026 e 2028. Se tirarmos da conta o câncer de pele não melanoma, que é muito frequente e quase sempre de bom prognóstico, são 518 mil casos por ano.

Sem contar a pele não melanoma, o câncer de mama é o mais comum, com cerca de 78,6 mil casos anuais, seguido de perto pelo de próstata, com 77,9 mil. Entre os homens, depois da próstata vêm intestino (cólon e reto), pulmão, estômago e boca. Entre as mulheres, depois da mama aparecem intestino, colo do útero, pulmão e tireoide. O câncer de intestino chama a atenção: são cerca de 53,8 mil casos por ano, somando homens e mulheres.

Os números mudam com o tempo. O próprio INCA explica que as estimativas refletem o envelhecimento da população e que edições diferentes não devem ser comparadas diretamente, porque as fontes de dados e os métodos melhoram a cada triênio.

Crianças e adolescentes também entram nessa conta, embora em número bem menor. O INCA estima cerca de 7.560 casos novos por ano entre 0 e 19 anos. Mesmo raro, segundo o INCA o câncer é a primeira causa de morte por doença entre 1 e 19 anos. Quando o diagnóstico é feito cedo, a chance de cura chega a cerca de 80%, segundo estimativa do instituto. É essa a mensagem da campanha Setembro Dourado.

O que aumenta o risco de câncer?

Câncer não tem uma causa única. Ele surge de alterações no DNA das células que se acumulam ao longo da vida, e alguns fatores aceleram esse processo. Os principais, segundo a OMS e o INCA:

  • Cigarro: continua sendo o maior fator evitável. Está ligado a câncer de pulmão, boca, garganta, esôfago, bexiga e vários outros.
  • Álcool: não existe dose totalmente segura quando o assunto é câncer. Ele aumenta o risco de câncer de boca, esôfago, fígado, intestino e mama.
  • Excesso de peso e sedentarismo: associados a câncer de mama após a menopausa, intestino, endométrio, rim e outros.
  • Infecções: cerca de 10% dos cânceres diagnosticados no mundo em 2022 foram atribuídos a infecções como HPV, hepatites B e C e a bactéria Helicobacter pylori. Algumas delas têm vacina.
  • Sol em excesso: a radiação ultravioleta é a principal causa do câncer de pele.
  • Poluição e exposições no trabalho: como amianto, benzeno e radiação sem proteção.

Hereditariedade conta, mas menos do que muita gente imagina. No câncer de mama, por exemplo, os casos ligados a alterações genéticas herdadas giram em torno de 5% a 10% do total. Quem tem vários parentes próximos com câncer, ou casos em idade jovem, deve contar isso ao médico, porque a orientação de exames pode mudar.

Por que o peso pesa no câncer de mama?

O tecido gorduroso produz estrogênio, e o excesso desse hormônio está ligado a câncer de mama, endométrio e ovário, explica o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI). Por isso o INCA põe sobrepeso e obesidade entre os fatores de risco do câncer de mama. A lista do INCA também inclui o que aumenta a exposição ao estrogênio ao longo da vida, como primeira menstruação antes dos 12 anos, menopausa depois dos 55 e terapia de reposição hormonal após a menopausa.

Na parte genética, as alterações mais conhecidas estão nos genes BRCA1 e BRCA2. Existem exames que procuram essas mutações, mas eles têm critérios próprios e quem indica é o especialista, a partir da história da família.

Alimentação causa ou previne câncer?

A alimentação influencia o risco, mas nenhum alimento sozinho causa ou impede um câncer. Vale olhar com calma o que os estudos mostram, porque este é o tema em que mais circulam exageros.

Carne processada e carne vermelha

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS, classificou a carne processada (bacon, linguiça, salsicha, presunto) no Grupo 1, o de evidência suficiente de que causa câncer, principalmente de intestino. A carne vermelha ficou no Grupo 2A, "provavelmente cancerígena".

Isso não quer dizer que um cachorro-quente seja tão perigoso quanto um cigarro. A própria OMS explica que a classificação mede a força da evidência, e não o tamanho do risco. O recado é de moderação, não de pânico.

Carne bem passada e churrasco

O jeito de preparar também conta. Carne grelhada em temperatura muito alta, frita na chapa ou exposta à fumaça forma substâncias como as aminas heterocíclicas e os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, entre eles o benzopireno. Nos estudos com pessoas, segundo o NCI, o consumo alto de carne muito passada ou de churrasco se associou a mais câncer de intestino, pâncreas e próstata, mas outros estudos não acharam essa ligação. Na prática: evitar a parte queimada e não deixar a carne direto na chama já reduz a exposição.

Ultraprocessados

Um estudo francês com mais de 104 mil adultos, publicado no BMJ em 2018, observou que cada aumento de 10 pontos percentuais na proporção de ultraprocessados na dieta se associou a um risco 12% maior de câncer. É um estudo observacional: mostra associação, não prova causa. Ainda assim, combina com a recomendação do Guia Alimentar brasileiro de basear a alimentação em comida de verdade e evitar ultraprocessados.

Bebidas muito quentes

A IARC classifica o consumo de bebidas muito quentes, acima de 65 °C, como provavelmente cancerígeno para o esôfago. O problema é a temperatura, não o chá, o café ou o chimarrão em si. Um estudo chinês com mais de 456 mil adultos, publicado em 2018, encontrou risco cerca de cinco vezes maior de câncer de esôfago em quem tomava chá escaldante e bebia mais de 15 gramas de álcool por dia. O cigarro somado ao chá muito quente também elevou o risco. Esperar a bebida amornar já ajuda.

Amamentação

Amamentar é considerado pelo INCA um fator de proteção contra o câncer de mama. O instituto também recomenda atividade física, peso adequado, alimentação saudável e evitar bebidas alcoólicas para reduzir o risco.

Quais mitos sobre câncer ainda circulam?

"Romã previne câncer de próstata"

Já publicamos aqui que o suco de romã ajudaria a impedir a metástase do câncer de próstata. A ideia veio de estudos em laboratório e de pesquisas pequenas. Quando foi testada num estudo de 2015, duplo-cego e controlado com placebo, com 183 homens com câncer de próstata já tratado e PSA em alta, nem o extrato nem o suco de romã mudaram de forma significativa a velocidade de subida do PSA em comparação com o placebo. A romã é uma fruta saudável, mas não previne nem trata câncer.

"A pílula do câncer funciona"

Em 2015, cápsulas de fosfoetanolamina sintética foram distribuídas como "cura do câncer". Uma lei de 2016 chegou a autorizar o uso sem registro na Anvisa, mas o Supremo Tribunal Federal a declarou inconstitucional em 2020: remédio só pode chegar à população depois de estudos que comprovem segurança e eficácia. O conselho do especialista que destacamos na época continua valendo: nunca interrompa o tratamento indicado pelo seu médico.

"Existe alimento que cura câncer"

Não existe. Alimentação equilibrada ajuda a reduzir o risco de alguns tumores e apoia a saúde durante o tratamento, mas nenhum alimento, chá ou suplemento substitui o tratamento médico.

"Um exame de sangue já detecta vários cânceres"

Em 2018, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins publicaram na revista Science um teste que buscava mutações no DNA e proteínas circulantes no sangue. Em 1.005 pessoas que já tinham câncer diagnosticado, ele deu positivo em 70% dos casos (mediana entre oito tipos de tumor), com acerto de 69% a 98% em cinco deles. Foi um avanço importante na pesquisa, mas testes desse tipo ainda não fazem parte das recomendações de rastreamento do Ministério da Saúde. Os exames recomendados são os da próxima seção.

"Já dá para detectar câncer pelo xixi"

Testes de urina para achar câncer seguem em pesquisa. Nenhum deles faz parte do rastreamento recomendado no Brasil.

Quais exames de rastreamento são recomendados no Brasil?

Rastreamento é fazer um exame em pessoas sem sintomas para encontrar a doença cedo, ou até antes de ela existir, como nas lesões que antecedem o câncer. Ele só é recomendado quando há evidência de que salva vidas. Hoje, o SUS recomenda três:

  • Câncer de mama: mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos (a faixa foi ampliada em 2025; antes ia até 69). Entre 40 e 49 anos, a mulher sem sintomas pode fazer o exame após conversa com o profissional de saúde, numa decisão compartilhada. Acima de 74, a decisão é individual.
  • Câncer do colo do útero: desde 2025, o SUS passou a usar o teste de DNA-HPV, que procura o vírus antes de surgirem lesões. É indicado dos 25 aos 64 anos, a cada cinco anos quando o resultado é negativo. O Papanicolau, herdeiro direto da descoberta de 1928, segue em uso onde o novo teste ainda está sendo implantado.
  • Câncer de intestino: em agosto de 2026, o SUS incluiu o teste imunoquímico fecal, que detecta sangue oculto nas fezes, para rastreamento a cada dois anos em homens e mulheres de 50 a 75 anos sem sintomas. Se der alterado, o próximo passo costuma ser a colonoscopia.

Outros tumores, como o de próstata, não estão entre os rastreamentos populacionais oferecidos pelo SUS. Homens com dúvidas devem conversar com o médico sobre benefícios e riscos.

Campanhas como o Outubro Rosa lembram esse calendário, mas o exame segue a idade e a frequência acima, não o mês.

A prevenção também tem vacina: a do HPV protege contra o vírus ligado ao câncer do colo do útero e a outros tumores, e a da hepatite B protege contra uma das causas de câncer de fígado. As duas estão no calendário do SUS.

Remédio para o estômago aumenta o risco de câncer?

Em 2017, circulou a manchete de que o omeprazol "dobra o risco" de câncer de estômago. Ela veio de um estudo de Hong Kong publicado na revista Gut, com mais de 63 mil pessoas que já tinham tratado a bactéria H. pylori. Quem usou por muito tempo remédios da família do omeprazol (os inibidores da bomba de prótons) teve risco 2,44 vezes maior de câncer gástrico, e o risco subia com o tempo de uso.

É um estudo observacional: mostra associação, não prova que o remédio causou o câncer. O recado útil é outro: uso prolongado deve ter indicação e ser revisto de tempos em tempos com o médico. Não pare o remédio por conta própria; converse antes com quem receitou.

O que mudou no tratamento?

Em 2017, a agência americana FDA aprovou a primeira terapia com células CAR-T, para crianças com leucemia linfoide aguda. Nela, células de defesa do próprio paciente são modificadas em laboratório para atacar o tumor. Desde então, outras foram aprovadas para cânceres do sangue, como linfomas e mieloma múltiplo, segundo o NCI.

Não é tratamento para todos: hoje é usada sobretudo quando outros tratamentos não funcionaram, em centros especializados. E pode ter efeitos graves, como a síndrome de liberação de citocinas e alterações neurológicas. A indicação é sempre do especialista.

Quando procurar um médico

Exame de rastreamento é para quem não tem sintomas. Quem tem um sinal de alerta não deve esperar a data do próximo exame. Procure atendimento se notar:

  • caroço ou endurecimento na mama, axila ou pescoço, ou alteração na pele ou no bico do seio;
  • sangue nas fezes, mudança persistente no funcionamento do intestino ou perda de peso sem explicação;
  • sangramento vaginal fora da menstruação, depois da relação ou após a menopausa;
  • pinta que muda de cor, tamanho ou forma, ou ferida que não cicatriza;
  • rouquidão ou tosse que dura semanas, ou dificuldade para engolir;
  • em crianças: palidez, manchas roxas sem motivo, febre prolongada, dor nos ossos ou caroços que crescem.

O primeiro passo pode ser a unidade básica de saúde ou o clínico geral, que encaminha ao especialista quando necessário. Quem tem histórico familiar forte deve contar isso ao médico para avaliar se precisa começar exames mais cedo.

Conclusão: o que Papanicolaou nos ensinou

Quando George Papanicolaou apresentou sua descoberta, quase ninguém deu atenção. Hoje, um exame simples nascido daquela observação, e agora o teste de DNA-HPV, evita milhares de casos de câncer todos os anos. A lição vale para todos os tumores: o que mais funciona não é um alimento milagroso nem uma promessa que circula no celular, mas hábitos consistentes e exames feitos na idade certa.

Não fumar, beber pouco ou nada, manter o peso, se mexer, tomar as vacinas e fazer os rastreamentos recomendados. Nada disso garante que o câncer nunca vai aparecer, mas reduz o risco e aumenta muito a chance de descobrir cedo.

Perguntas frequentes

Câncer é hereditário?

A minoria dos casos é ligada a alterações genéticas herdadas. Histórico familiar forte merece conversa com o médico, que pode indicar exames diferentes ou aconselhamento genético.

Quem tem menos de 50 anos pode fazer mamografia?

Pelo SUS, mulheres de 40 a 49 anos sem sintomas podem fazer, após decisão conjunta com o profissional de saúde. Com sintoma, em qualquer idade, o exame é feito para investigar.

O Papanicolau acabou?

Não acabou de vez. O SUS está substituindo o exame pelo teste de DNA-HPV aos poucos, e o Papanicolau ainda é usado em alguns casos e locais.

Comer carne processada dá câncer?

O consumo frequente aumenta o risco de câncer de intestino. Comer de vez em quando é bem diferente de comer todos os dias.

Referências

  • INCA. INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil de 2026 a 2028. ninho.inca.gov.br
  • INCA. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. gov.br/inca
  • OMS. Cancer: fact sheet. who.int
  • INCA. Estimativa 2026: síntese de resultados e comentários. gov.br/inca
  • INCA. Câncer infantojuvenil. gov.br/inca
  • INCA. Câncer de mama: fatores de risco. gov.br/inca
  • INCA. Câncer de mama: prevenção. gov.br/inca
  • Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. gov.br/saude
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  • OMS. Cancer: carcinogenicity of the consumption of red meat and processed meat. who.int
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  • INCA. Nota técnica sobre o acesso à mamografia no SUS (2025). ninho.inca.gov.br
  • Cofen. Ministério da Saúde publica novas diretrizes para rastreamento do câncer do colo do útero (2025). cofen.gov.br
  • Poder360. SUS inclui teste para rastrear câncer colorretal (2026). poder360.com.br
  • Conass. Setembro Dourado reforça importância do diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil. conass.org.br
  • Fiolet T. et al. Consumption of ultra-processed foods and cancer risk. BMJ, 2018. PubMed
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  • NCI. CAR T cells: engineering patients' immune cells to treat their cancers. cancer.gov
  • Conjur. Supremo declara inconstitucionalidade de lei da "pílula do câncer" (2020). conjur.com.br

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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