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Artigo · Notícias · 9 min de leitura

Doença de Parkinson: sintomas e se tem cura

RaiRaisLife11 de julho de 2016 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Bengala apoiada em uma poltrona perto da janela

Em 1817, o médico inglês James Parkinson publicou um texto de 66 páginas chamado An Essay on the Shaking Palsy, algo como "Ensaio sobre a paralisia agitante". Nele, descreveu em detalhe os sintomas da doença que, décadas depois, ganharia o seu nome.

No fim do ensaio, Parkinson deixou uma esperança: que logo se descobrisse um jeito de, pelo menos, impedir que a doença avançasse. Mais de 200 anos depois, esse pedido continua em aberto. As duas perguntas que mais aparecem no Google são estas: quais são os sintomas da doença de Parkinson, e Parkinson tem cura?

Resposta rápida: os sintomas principais são tremor em repouso, lentidão dos movimentos e rigidez dos músculos, que começam aos poucos e muitas vezes de um lado só do corpo. A doença de Parkinson ainda não tem cura, mas tem tratamento: remédios, reabilitação com equipe multiprofissional e, em casos selecionados, cirurgia aliviam os sintomas e ajudam a manter a qualidade de vida.

O que é a doença de Parkinson?

É uma doença neurológica que avança devagar, ao longo de anos. Ela acontece porque morrem células de uma pequena região do cérebro chamada substância negra. Essas células produzem a dopamina, um mensageiro químico que ajuda o cérebro a coordenar movimentos suaves e precisos. Com menos dopamina, os movimentos ficam lentos, rígidos e trêmulos.

Segundo o instituto americano de doenças neurológicas (NINDS), quando os primeiros sintomas aparecem a pessoa já perdeu de 60% a 80% ou mais dessas células. A causa exata não é conhecida; os pesquisadores apontam uma combinação de genes e ambiente, como a exposição a alguns pesticidas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 8,5 milhões de pessoas viviam com Parkinson no mundo em 2019. Atinge mais homens do que mulheres e costuma surgir em pessoas mais velhas; segundo o NINDS, só uma pequena parte dos casos começa antes dos 50 anos.

Quais são os sintomas da doença de Parkinson?

Os sintomas aparecem aos poucos e mudam de pessoa para pessoa. Nem todo mundo tem todos.

Sintomas motores (do movimento)

  • Tremor em repouso: costuma começar numa mão ou num braço e fica mais evidente quando o membro está parado ou em momentos de estresse e costuma sumir durante o sono.
  • Lentidão dos movimentos (bradicinesia): tomar banho ou se vestir passa a levar muito mais tempo.
  • Rigidez: os músculos ficam tensos e duros, o que dificulta os movimentos.
  • Problemas de equilíbrio e de marcha: os passos ficam curtos e arrastados e o risco de queda aumenta.

Costumam começar de um lado do corpo e, com o tempo, atingem os dois.

Sintomas não motores

Também fazem parte da doença. A perda do olfato, por exemplo, às vezes aparece vários anos antes dos outros sintomas:

  • perda ou diminuição do olfato;
  • prisão de ventre;
  • alterações do sono, como insônia, sonolência durante o dia e sonhos muito intensos ou pesadelos;
  • depressão e ansiedade;
  • dificuldade para falar e para engolir;
  • problemas de memória e de raciocínio, que podem evoluir para demência em parte das pessoas.

Um sinal isolado, como um tremor, não quer dizer Parkinson: há outras causas, e só a avaliação médica separa uma coisa da outra.

Como é feito o diagnóstico?

Não existe um exame único que confirme a doença de Parkinson. O diagnóstico é clínico: o médico conversa sobre a história dos sintomas e faz um exame neurológico detalhado. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde adota os critérios publicados em 2015 pela Sociedade Internacional de Distúrbios do Movimento (MDS).

Exames de imagem e de sangue servem principalmente para afastar outras doenças parecidas. Testes recentes que buscam a alfa-sinucleína, uma proteína ligada à doença, na pele ou no líquido da espinha ajudam, mas ainda não diferenciam o Parkinson de doenças semelhantes, segundo o NINDS.

Parkinson tem cura?

Ainda não. Ministério da Saúde, OMS, NINDS e o serviço de saúde britânico (NHS) concordam: nenhum tratamento cura a doença ou interrompe a perda das células. O que existe hoje alivia os sintomas e ajuda a pessoa a manter a independência por mais tempo.

Isso não quer dizer que não haja o que fazer. Pelo NHS, com os avanços no tratamento, a maioria das pessoas com Parkinson hoje tem expectativa de vida normal ou quase normal. A doença em si não costuma ser a causa direta da morte, mas, nas fases avançadas, deixa o corpo mais vulnerável, por exemplo a infecções graves.

Qual é o tratamento da doença de Parkinson?

O tratamento é individual e muda ao longo dos anos, conforme a doença avança. O PCDT do Ministério da Saúde, atualizado em 2025, organiza o cuidado no SUS com remédios, tratamento sem remédio feito por equipe multiprofissional e cirurgia em casos selecionados.

Remédios

Os medicamentos repõem ou imitam a ação da dopamina, ou agem em outras substâncias do cérebro. Melhoram bastante o movimento, mas com os anos o efeito dura menos e surgem efeitos colaterais, por isso o médico ajusta o esquema. O SUS fornece vários deles, conforme o protocolo.

Equipe multiprofissional

O protocolo dá peso grande ao cuidado sem remédio, feito por uma equipe que trabalha em conjunto:

  • Fisioterapia: equilíbrio, marcha e força, incluindo treino em esteira e tai chi, para manter a mobilidade e reduzir quedas.
  • Terapia ocupacional: adapta as tarefas do dia a dia e a casa para preservar a autonomia.
  • Fonoaudiologia: trabalha a voz, a fala e a deglutição.
  • Nutrição: ajuda com a prisão de ventre, a perda de peso e a dificuldade para engolir.
  • Apoio psicológico: para a pessoa e a família.

Ficar ativo, com orientação, também faz parte: o NINDS cita caminhada, dança, bicicleta e natação.

Cirurgia em casos selecionados

Para quem já tem o tratamento com remédios bem ajustado e mesmo assim não consegue controlar os sintomas do movimento, existe a estimulação cerebral profunda, conhecida pela sigla em inglês DBS. Eletrodos finos implantados no cérebro, ligados a um gerador parecido com um marca-passo sob a pele do peito, enviam pulsos elétricos que reduzem tremor, rigidez e lentidão.

Em 2016, este post mostrava essa técnica num vídeo como "tratamento experimental" de "resultado incrível". Cabe a correção. A DBS não é experimental: é um tratamento reconhecido, previsto no protocolo do Ministério da Saúde e oferecido também pelo NHS. Mas ela não serve para todo mundo, tem riscos de cirurgia e, como diz o PCDT, não é curativa nem interrompe a progressão da doença.

O que é pesquisa e o que já é tratamento?

Notícias de "nova esperança contra o Parkinson" aparecem o tempo todo. Para lê-las, ajuda saber o caminho de um tratamento: depois do laboratório e dos animais, vêm os ensaios clínicos com pessoas, em fases:

  • Fase 1: de 20 a 100 pessoas. O objetivo principal é ver se é seguro.
  • Fase 2: até algumas centenas de pessoas com a doença; observa-se o efeito.
  • Fase 3: de 300 a 3 mil participantes com a doença. Mostra se há benefício real.
  • Fase 4: acontece depois da aprovação, com milhares de pessoas, para vigiar a segurança.

Segundo a agência americana de medicamentos (FDA), só cerca de um terço dos remédios em teste passa da fase 2 para a fase 3, e apenas 25% a 30% dos que chegam à fase 3 seguem adiante. Ou seja: um resultado animador em poucos pacientes, ou em um vídeo, ainda está longe de ser um tratamento.

No Parkinson, o NINDS cita pesquisas com biomarcadores para identificar quem tem risco e acompanhar a doença, estudos sobre genes ligados a ela e ensaios que testam se exercício de alta intensidade, que faz a pessoa ofegar e suar, ajuda a frear a piora. Nada disso, por enquanto, é cura. Quem quiser participar de um estudo deve conversar com seu neurologista.

Quando procurar um médico?

Procure atendimento se você ou alguém próximo notar:

  • tremor em uma das mãos quando ela está parada;
  • lentidão nova para tarefas simples, letra diminuindo ou passos mais curtos e arrastados;
  • rigidez, quedas ou desequilíbrio sem explicação;
  • perda do olfato, prisão de ventre ou agitação durante o sono somadas a algum desses sinais.

O primeiro passo pode ser a unidade básica de saúde ou o clínico geral, que encaminham ao neurologista quando necessário. Com o diagnóstico já feito, quedas frequentes, confusão, alucinações ou engasgos pedem retorno logo. Nunca pare, troque ou mude a dose de um remédio sem orientação.

Conclusão: 200 anos depois, cuidado em vez de milagre

James Parkinson esperava que um dia se descobrisse como frear a doença. Esse dia ainda não chegou. O que mudou foi o resto: hoje se entende o papel da dopamina, há remédios, cirurgia para casos selecionados e uma equipe dedicada a manter a pessoa ativa.

Por isso vale desconfiar de promessas de cura e de "resultados incríveis" vistos em vídeo. O caminho seguro é o diagnóstico cedo, o acompanhamento com o neurologista e a equipe, e a pesquisa séria, fase por fase.

Perguntas frequentes

Todo tremor é Parkinson?

Não. Existem outras causas de tremor, e muitas não têm relação com a doença. Só a avaliação médica define a origem.

Parkinson é hereditário?

Na maioria das pessoas, a causa não é conhecida. Ter parentes próximos com a doença aumenta o risco, e só alguns casos são herdados, ligados a alterações genéticas específicas.

O SUS trata a doença de Parkinson?

Sim. O protocolo do Ministério da Saúde prevê diagnóstico, remédios, reabilitação com equipe multiprofissional e cirurgia para casos selecionados.

Referências

  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Parkinson (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025). gov.br/saude
  • Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Doença de Parkinson. bvsms.saude.gov.br
  • National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS). Parkinson's Disease. ninds.nih.gov
  • NHS. Parkinson's disease: sintomas, diagnóstico e tratamento. nhs.uk
  • Organização Mundial da Saúde. Parkinson disease (fact sheet). who.int
  • FDA. Step 3: Clinical Research (fases dos ensaios clínicos). fda.gov
  • Palacios-Sánchez L. et al. James Parkinson and his essay on "shaking palsy", two hundred years later. Arq Neuropsiquiatr, 2017. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • McDonald C. et al. 200 Years of Parkinson's disease: what have we learnt from James Parkinson? Age Ageing, 2018. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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