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Artigo · Corpo · 8 min de leitura

Obesidade e paladar: o peso muda o gosto?

RaiRaisLife25 de março de 2018 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Tigelas com sal, açúcar, limão e grãos de café para os sabores básicos

Em março de 2018, um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciência dos Alimentos da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, publicou na revista PLOS Biology o resultado de um experimento simples de descrever. Camundongos jovens foram divididos em dois grupos: um comia ração comum, o outro recebia uma dieta em que mais da metade das calorias vinha da gordura. Oito semanas depois, os animais da dieta gordurosa estavam obesos.

Quando a equipe, liderada pelo pesquisador Robin Dando, examinou a língua desses bichos ao microscópio, encontrou menos botões gustativos, as pequenas estruturas onde ficam as células que captam o sabor. O tamanho de cada botão era o mesmo; o que mudava era a quantidade.

A notícia correu o mundo. Mas o que o estudo mostrou de fato, e o que já se sabe sobre obesidade e paladar em pessoas? É isso que a gente vai separar aqui.

Resposta rápida: em camundongos, a obesidade causada por dieta rica em gordura reduziu o número de botões gustativos, por causa de uma inflamação persistente. Em pessoas, há sinais de que o excesso de peso se relaciona com mudanças no paladar e no prazer de comer, mas os resultados variam e a relação ainda está sendo estudada.

Como funciona o paladar?

A língua tem saliências visíveis, as papilas. Dentro de muitas delas ficam os botões gustativos, cada um com um conjunto de células especializadas em reconhecer o doce, o salgado, o azedo, o amargo e o umami (o gosto de caldos e carnes). Essas células mandam o sinal ao cérebro, que junta essa informação com o cheiro, a textura e a temperatura para formar o que chamamos de sabor.

Um detalhe importante para entender o estudo: as células dos botões gustativos vivem pouco. Em média, duram algumas semanas e são trocadas o tempo todo por células novas, que nascem de células-tronco na base do botão. O paladar depende de um equilíbrio entre células que morrem e células que nascem.

O que o estudo de Cornell encontrou nos camundongos?

Os autores (Kaufman, Choo, Koh e Dando) observaram três coisas nos camundongos obesos, comparados aos magros da mesma ninhada:

  • Menos botões gustativos na papila do fundo da língua (o post antigo falava em "papilas", mas o que se contou foram os botões), depois de oito semanas de dieta gordurosa.
  • Mais morte de células no tecido do paladar e menos células novas se formando ao redor dos botões. O ciclo de renovação ficou desequilibrado.
  • Sinais de inflamação no próprio tecido do paladar, principalmente o aumento do TNF-alfa, uma substância que o corpo usa para coordenar a inflamação.

A obesidade costuma vir acompanhada de uma inflamação de baixo grau, discreta e contínua, que não dá febre nem dor, mas mexe com vários órgãos. Para testar se era ela a responsável, os pesquisadores repetiram o experimento com camundongos que, por modificação genética, não produzem TNF-alfa. Esses animais engordaram de forma parecida com a dieta gordurosa, mas não perderam botões gustativos. Um terceiro grupo, de camundongos modificados para resistir ao ganho de gordura, comeu a mesma dieta gordurosa, quase não engordou, não teve a inflamação e também não mostrou alteração no paladar. Isso sugere que o problema não era a gordura passando pela boca, e sim o que a obesidade provoca no corpo.

A conclusão dos autores: nos camundongos, a perda de botões gustativos parece vir da inflamação crônica que acompanha a obesidade.

Isso vale para as pessoas?

Aqui está o cuidado que faltou em muitas manchetes de 2018. O estudo foi feito só em camundongos, todos machos, durante poucas semanas. Ninguém contou botões gustativos de pessoas obesas nesse trabalho, e o próprio artigo lembra que não se sabe se a quantidade de botões gustativos em humanos muda ao longo da vida, fora a queda que vem com a idade.

O que existe em humanos são pistas, e nem todas apontam para o mesmo lado:

  • Há estudos que encontraram percepção de sabor mais fraca em pessoas com obesidade, mas o tema ainda não tem resposta definitiva.
  • Exames de ressonância funcional publicados na revista Science em 2008 mostraram que pessoas com obesidade tinham, em média, uma resposta menor numa área do cérebro ligada à recompensa quando recebiam um alimento saboroso. A hipótese dos autores é que algumas pessoas comem mais para compensar essa resposta, sobretudo quem tem certa variante genética ligada à dopamina. Hipótese, não regra.
  • Depois da cirurgia bariátrica, mulheres acompanhadas num estudo de 2014 passaram a preferir doces menos concentrados e relataram menos vontade de comer doces e fast-food. Só que o limiar de detecção dos sabores, medido em testes, não mudou. Os autores concluíram que a mudança no comportamento alimentar veio de outros mecanismos, ainda não conhecidos.

Ou seja: é correto dizer que obesidade e paladar estão ligados de alguma forma. Não é correto dizer que já está provado que a obesidade "apaga" o gosto da comida nas pessoas, nem que perder peso devolve o paladar de forma garantida.

O paladar explica por que é difícil perder peso?

Explica, no máximo, uma parte pequena de um quadro grande. A Organização Mundial da Saúde descreve a obesidade como uma doença crônica e com tendência a voltar, que resulta da interação entre genética, funcionamento do cérebro, comportamento alimentar, acesso a comida saudável, propaganda e o ambiente em que a pessoa vive.

O post antigo terminava dizendo que a obesidade é complexa e que só força de vontade muitas vezes não basta. Esse recado continua de pé, e a ciência de hoje o reforça. A ideia de que alimentos leves, como alface, brócolis ou cenoura, "não têm gosto nenhum" para quem tem obesidade, porém, não foi demonstrada em pessoas e ficou de fora.

Também não existe tratamento para obesidade baseado em "consertar" o paladar. O estudo de Cornell abre uma linha de pesquisa, testada até agora só em animais.

Quais outras coisas mudam o paladar?

Se você notou que a comida perdeu o gosto, vale lembrar que há muitas causas mais comuns do que o peso. Algumas delas:

  • Infecções das vias respiratórias e do ouvido médio. Muita gente que acha que perdeu o paladar descobre que o problema está no olfato, porque os dois sentidos andam juntos.
  • Idade: depois dos 50 anos, a pessoa pode começar a perder botões gustativos.
  • Problemas nos dentes e higiene bucal deficiente.
  • Alguns medicamentos, como certos antibióticos e anti-histamínicos, e a radioterapia na região da cabeça e do pescoço.
  • Pancadas na cabeça e algumas cirurgias de ouvido, nariz e garganta, ou a extração do dente do siso.

Se a causa for um remédio, não o suspenda por conta própria: converse antes com o médico que o receitou.

Quando procurar um médico

Procure atendimento se o paladar ou o olfato mudaram de repente ou continuam alterados por semanas, se a perda veio junto com outros sintomas (dor, feridas na boca, perda de peso sem explicação, dificuldade para engolir) ou se começou depois de um remédio novo. O clínico geral pode iniciar a investigação e indicar o otorrinolaringologista quando for o caso.

Se a sua preocupação é o peso, um médico pode avaliar o seu caso e indicar o acompanhamento adequado, muitas vezes com endocrinologista e nutricionista.

Conclusão: o que os camundongos de Cornell ensinam

Os camundongos da dieta gordurosa perderam botões gustativos em oito semanas, e os que não produziam a substância inflamatória ficaram protegidos. É um achado bem feito, mas aconteceu num laboratório, com animais, e não pode ser levado direto para a mesa de ninguém.

O recado que fica é mais modesto e mais útil: o excesso de peso mexe com o corpo de muitas formas, algumas ainda pouco conhecidas, e isso ajuda a entender por que a obesidade não se resume a escolhas. Para cuidar dela, o caminho continua sendo informação confiável e acompanhamento médico.

Perguntas frequentes

Quem tem obesidade sente menos o gosto dos alimentos?

Há estudos que sugerem percepção mais fraca, mas ainda não há uma resposta única que valha para todas as pessoas.

Perder peso melhora o paladar?

Depois da perda de peso, algumas pessoas passam a preferir sabores menos doces, mas, num estudo com mulheres operadas, os testes de detecção do gosto não mudaram. Ainda não se sabe bem por quê.

O estudo de 2018 foi feito em pessoas?

Não. Foi feito em camundongos machos alimentados por oito semanas com dieta rica em gordura.

Referências

  • Kaufman A, Choo E, Koh A, Dando R. Inflammation arising from obesity reduces taste bud abundance and inhibits renewal. PLOS Biology, 2018. journals.plos.org
  • Stice E, Spoor S, Bohon C, Small DM. Relation between obesity and blunted striatal response to food is moderated by TaqIA A1 allele. Science, 2008. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Pepino MY et al. Changes in taste perception and eating behavior after bariatric surgery-induced weight loss in women. Obesity, 2014. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • National Institute on Deafness and Other Communication Disorders (NIH). Taste Disorders. nidcd.nih.gov
  • Organização Mundial da Saúde. Obesity and overweight (nota descritiva). who.int

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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