Microquimerismo: células do filho que vivem na mãe

Em janeiro de 1996, a geneticista Diana Bianchi e sua equipe, em Boston, publicaram um resultado que surpreendeu muita gente. Eles colheram sangue de mulheres que não estavam grávidas, mas que tinham tido filhos homens no passado, e procuraram nele trechos do cromossomo Y, que só existe em células masculinas. Em 6 das 8 mulheres, o DNA masculino estava lá. Numa delas, o último filho tinha nascido 27 anos antes.
A explicação mais provável era simples e, ao mesmo tempo, espantosa: durante a gravidez, algumas células do bebê passam para o corpo da mãe e não vão embora. Elas continuam ali, em número muito pequeno, por anos ou décadas.
Esse fenômeno tem nome: microquimerismo. O que ele é, de onde vem e o que de fato se sabe sobre os efeitos dessas células na saúde da mulher?
Resposta rápida: microquimerismo é a presença de um pequeno número de células vindas de outra pessoa dentro do corpo. O caso mais estudado é o fetal: células do filho que ficam na mãe depois da gravidez. Elas já foram encontradas no sangue e em vários órgãos, inclusive no cérebro, mas o papel delas na saúde ainda está em estudo.
O que é microquimerismo?
O nome vem da Quimera, criatura da mitologia grega formada por partes de animais diferentes. Em biologia, quimera é um organismo que carrega células de mais de uma origem genética. O prefixo "micro" indica que, nesse caso, as células estranhas são pouquíssimas perto das células da própria pessoa.
A troca acontece através da placenta, o órgão que liga mãe e bebê e por onde passam nutrientes, oxigênio e resíduos. A placenta não é uma barreira perfeita. Algumas células do feto chegam à circulação da mãe, e algumas células da mãe chegam ao feto. Por isso existem dois tipos: o microquimerismo fetal (células do filho na mãe) e o microquimerismo materno (células da mãe no filho).
A presença de células fetais no sangue de gestantes já era conhecida antes. Em 1979, um grupo de pesquisadores conseguiu separar e identificar essas células no sangue de mulheres grávidas. A novidade do estudo de 1996 foi mostrar que elas podiam continuar ali muito tempo depois do parto.
Como os cientistas encontram essas células?
A forma mais usada é procurar DNA masculino em mulheres. Como a mulher não tem cromossomo Y, encontrar esse material no sangue ou num tecido dela indica que veio de outra pessoa, quase sempre de um filho homem. É um método prático, mas tem um limite: as células vindas de filhas não aparecem nesse teste, porque são femininas como as da mãe.
Os números são realmente pequenos. Num estudo publicado em 2005 no American Journal of Medicine, a quantidade encontrada variou de zero até o equivalente a cerca de 20 células masculinas para cada 100 mil células da mulher.
Mulheres que nunca tiveram filho homem também têm?
Às vezes, sim. Esse mesmo estudo de 2005 analisou 120 mulheres sem filhos homens, divididas em quatro grupos: as que tiveram só meninas, as que tiveram abortos espontâneos, as que tiveram abortos induzidos e as que nunca engravidaram. O DNA masculino apareceu em 21% delas no total. No grupo que nunca tinha engravidado, a frequência foi de 10%.
Os pesquisadores listaram as explicações possíveis: um aborto espontâneo que passou despercebido, um gêmeo masculino que se perdeu no início da gestação, células de um irmão mais velho que passaram pela mãe ou, como hipótese, a relação sexual. O post antigo deste blog tratava essa última possibilidade quase como certeza. Não é. O próprio estudo diz que são necessárias mais pesquisas para saber a origem dessas células.
A hipótese do irmão mais velho chama atenção: células de um primeiro filho, guardadas no corpo da mãe, poderiam passar para o bebê de uma gestação seguinte. É mais uma pista de como essa troca pode ser longa e cruzar gerações dentro da mesma família.
As células do filho chegam ao cérebro da mãe?
Chegam, segundo um estudo de 2012 publicado na revista PLoS One. Pesquisadores do Fred Hutchinson Cancer Research Center, nos Estados Unidos, analisaram o cérebro de 59 mulheres após a morte. Em 37 delas (63%), havia DNA masculino, presente em várias regiões do cérebro.
Parte dessas mulheres tinha doença de Alzheimer. Nelas, o DNA masculino foi encontrado com menos frequência do que nas mulheres sem doença neurológica. Isso chamou atenção, mas é preciso cuidado ao interpretar: o estudo foi pequeno e mostra uma associação, não uma causa. Não dá para dizer que essas células protegem contra o Alzheimer.
A relação entre gestações e Alzheimer também não é simples. Um estudo italiano de 2006 encontrou mais gestações entre mulheres com a doença do que no grupo de comparação, e os autores levantaram a hipótese de um efeito hormonal. São peças soltas de um quebra-cabeça ainda longe de estar montado.
O microquimerismo faz bem ou mal à saúde?
Os estudos apontam nas duas direções, e esse é o ponto mais importante para quem lê sobre o assunto.
Reparo de tecidos (em animais). Em 2012, um estudo da Escola de Medicina Mount Sinai, publicado na Circulation Research, mostrou que, em camundongas com lesão no coração, células dos fetos migravam para a área lesionada e se transformavam em células do coração e dos vasos. Outros trabalhos em camundongos encontraram células fetais no cérebro das mães, algumas com características de neurônios. São resultados em animais. Não se sabe se o mesmo acontece em mulheres, nem em que medida.
Câncer de mama. Um estudo de 2007 com 82 mulheres encontrou células fetais no sangue de 43% das mulheres saudáveis e de 14% das que tinham câncer de mama. Os autores sugeriram que essas células talvez ajudem o sistema de defesa a vigiar células alteradas. Foi um estudo inicial, e eles mesmos pediram novas pesquisas para confirmar.
Doenças autoimunes. Do outro lado, o microquimerismo é estudado como possível participante de doenças em que o sistema de defesa ataca o próprio corpo. Num estudo de 2011, 41% das mulheres com esclerose múltipla tinham células fetais no sangue, contra 18% das irmãs sem a doença usadas como comparação. A diferença não chegou a ser estatisticamente significativa, e os autores pedem mais estudos.
Uma revisão publicada em 2021 na revista Clinical Chemistry, assinada por Diana Bianchi e outros especialistas, resume bem o momento: as células fetais podem ter papel tanto em doenças da mãe quanto no reparo de tecidos, e as células da mãe ajudam a "educar" o sistema de defesa do bebê. Os autores defendem que as próximas pesquisas em pessoas registrem a história completa das gestações.
Existe exame ou tratamento para microquimerismo?
Não na prática clínica. A detecção dessas células é feita em laboratórios de pesquisa, e não há exame de rotina, indicação de tratamento nem forma comprovada de "aumentar" ou "eliminar" essas células. Qualquer oferta desse tipo deve ser vista com desconfiança.
Também não faz sentido tirar conclusões do tipo "as células do filho explicam a intuição de mãe" ou "mudam a personalidade da mulher". Nenhum estudo mostrou isso. É uma ideia bonita, mas está fora do que a ciência consegue afirmar hoje.
Quando procurar um médico
O microquimerismo, em si, não é motivo de consulta: ele é um fenômeno biológico e não existe exame de rotina para ele. Procure um médico se você tem sintomas que preocupam, como dor nas articulações, cansaço persistente, alterações de visão ou de sensibilidade, nódulo na mama ou mudanças de memória. O clínico geral ou o ginecologista são bons pontos de partida e encaminham para o especialista quando necessário.
Conclusão: uma ligação real, ainda pouco compreendida
A mulher do estudo de Diana Bianchi carregava células do filho 27 anos depois do parto. Hoje se sabe que isso é comum e que essas células podem estar no sangue, nos órgãos e até no cérebro. O que elas fazem ali ainda é uma pergunta aberta, com pistas de benefício e de risco.
A ligação entre mãe e filho tem, sim, uma base biológica concreta. O resto é ciência em andamento, e vale acompanhar sem exagerar no que ela já disse.
Perguntas frequentes
Todas as mães têm microquimerismo?
Não necessariamente. Ele é frequente, mas nem sempre é detectado, e os testes mais usados só encontram células de filhos homens.
O filho também carrega células da mãe?
Sim. É o microquimerismo materno, que também é estudado, inclusive pelo papel no sistema de defesa da criança.
Aborto ou gravidez que não foi percebida podem deixar células?
Os estudos indicam que sim. Gestações que terminaram cedo aparecem entre as fontes prováveis.
Para saber mais sobre fertilidade e gravidez
Leia também: quem tem útero retrovertido pode engravidar?
Referências
- Bianchi DW, Zickwolf GK, Weil GJ et al. Male fetal progenitor cells persist in maternal blood for as long as 27 years postpartum. Proc Natl Acad Sci USA, 1996. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Herzenberg LA et al. Fetal cells in the blood of pregnant women: detection and enrichment by fluorescence-activated cell sorting. Proc Natl Acad Sci USA, 1979. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Yan Z, Lambert NC, Guthrie KA et al. Male microchimerism in women without sons. Am J Med, 2005. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Chan WF, Gurnot C, Montine TJ et al. Male microchimerism in the human female brain. PLoS One, 2012. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Colucci M, Cammarata S, Assini A et al. The number of pregnancies is a risk factor for Alzheimer's disease. Eur J Neurol, 2006. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Kara RJ, Bolli P, Karakikes I et al. Fetal cells traffic to injured maternal myocardium and undergo cardiac differentiation. Circ Res, 2012. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Zeng XX et al. Pregnancy-associated progenitor cells differentiate and mature into neurons in the maternal brain. Stem Cells Dev, 2010. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Gadi VK, Nelson JL. Fetal microchimerism in women with breast cancer. Cancer Res, 2007. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Bloch EM, Reed WF, Lee TH et al. Male microchimerism in peripheral blood leukocytes from women with multiple sclerosis. Chimerism, 2011. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Bianchi DW, Khosrotehrani K, Way SS et al. Forever connected: the lifelong biological consequences of fetomaternal and maternofetal microchimerism. Clin Chem, 2021. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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