Útero retrovertido pode engravidar? Entenda

Em dezembro de 1881, o cirurgião William Alexander, de Liverpool, fez uma operação para "corrigir" o útero deslocado. Dois meses depois, em fevereiro de 1882, James Adams, de Glasgow, que já treinava a técnica havia dois anos, operou sua primeira paciente. A cirurgia encurtava os ligamentos redondos, que ajudam a segurar o órgão, e ficou conhecida como operação de Alexander-Adams. Na mesma época, muitas mulheres recebiam pessários, peças colocadas na vagina para empurrar o útero de volta à posição considerada certa.
Por trás disso estava uma ideia muito forte na medicina do século 19: a de que o útero voltado para trás causava dor nas costas, nervosismo e, principalmente, dificuldade para ter filhos. Milhares de mulheres passaram por esses procedimentos. Com o tempo, os médicos perceberam que a posição do útero, sozinha, explicava muito pouco, e a maior parte dessas cirurgias foi abandonada.
Mesmo assim, a dúvida continua chegando aos consultórios toda vez que um exame de ultrassom traz a expressão no laudo: quem tem útero retrovertido pode engravidar?
Resposta rápida: sim. O útero retrovertido é uma variação comum da anatomia e, por si só, não costuma impedir a gravidez. Quando há dificuldade para engravidar, a causa geralmente está em outra condição, como a endometriose, que precisa ser avaliada pelo ginecologista.
O que é útero retrovertido?
Na maioria das mulheres, o útero fica inclinado para a frente, em direção à bexiga e à barriga. Os médicos chamam essa posição de anteversão. No útero retrovertido, a inclinação é para trás, em direção ao reto e à coluna. Popularmente, fala-se em "útero virado" ou "útero invertido", mas o órgão não está de cabeça para baixo: ele apenas aponta para outra direção.
É bem mais frequente do que parece. Num estudo britânico com gestantes, publicado no BMJ, cerca de uma em cada dez tinha o útero nessa posição. Muitas nascem assim. Em outras, a inclinação aparece depois de uma gravidez, com a idade ou por causa de alguma doença da pelve.
Existe ainda uma diferença importante. O útero retrovertido pode ser móvel, quando muda de posição com facilidade (o que é o mais comum e quase sempre não traz problema), ou fixo, quando fica preso por aderências, tecidos que "colam" os órgãos uns nos outros. O útero fixo merece mais atenção porque costuma ser sinal de outra condição.
A posição do útero atrapalha a fertilidade?
Os estudos atuais não mostram que a posição, isoladamente, reduza a chance de engravidar. Os espermatozoides chegam ao útero e às trompas da mesma forma, seja qual for a inclinação. Por isso, o útero retrovertido móvel não costuma entrar na lista de causas de infertilidade.
A história muda quando a retroversão é consequência de outro problema. A endometriose (quando um tecido parecido com o que reveste o útero cresce fora dele) e a doença inflamatória pélvica (uma infecção que atinge útero, trompas e ovários) podem formar aderências que puxam o útero para trás e também afetam as trompas e os ovários. Nesses casos, quem dificulta a gravidez é a doença, não a posição.
Um detalhe que costuma preocupar: não há posição sexual nem manobra depois da relação que "ajude" o útero retrovertido a engravidar. Não existe evidência de que isso faça diferença.
E durante a gravidez, o que acontece?
Na grande maioria das gestações, o útero retrovertido se endireita sozinho. À medida que cresce, ele sobe e sai da pelve, normalmente até o fim do primeiro trimestre, por volta da 14ª semana. A partir daí, a gravidez segue como qualquer outra, e a posição inicial não define se o parto será normal ou cesárea.
Algumas mulheres sentem um pouco mais de pressão na bexiga ou dor nas costas nas primeiras semanas. Isso não significa que algo esteja errado, mas vale comentar no pré-natal.
Raramente, o útero não consegue subir e fica preso na pelve. É o chamado útero encarcerado, uma complicação incomum, estimada em cerca de um caso para cada 3 mil gestações. Ele costuma dar sinais claros, como dificuldade para urinar ou não conseguir urinar, dor pélvica forte e sensação de pressão no reto. Precisa de atendimento rápido, e o tratamento é decidido pela equipe que acompanha a gestante.
Útero retrovertido precisa de tratamento?
Na maioria das vezes, não. Quando o útero retrovertido não causa sintomas, ele é apenas uma característica do corpo, como ser canhota. Não existe motivo para "corrigir" a posição pensando em engravidar.
Quando há dor na relação, cólicas muito fortes ou dor pélvica frequente, o ginecologista investiga o que está por trás. Se aparecer uma causa, como endometriose, o cuidado é direcionado a ela. A cirurgia para reposicionar o útero, tão popular no século 19, hoje fica reservada a situações bem específicas.
Quando procurar um médico
Procure um ginecologista se você tem dor durante a relação sexual, cólicas que atrapalham a rotina, dor pélvica que não passa ou se está tentando engravidar há 12 meses sem sucesso (ou há 6 meses, se tem 35 anos ou mais). Esses prazos são os que as sociedades médicas usam para começar a investigação do casal.
Se você está grávida e sente dificuldade para urinar, dor forte na pelve ou pressão intensa no reto, principalmente entre a 12ª e a 16ª semana, procure atendimento no mesmo dia. Sangramento vaginal, febre ou dor forte em qualquer fase da gestação também pedem avaliação imediata.
Conclusão: uma posição, não um diagnóstico
Alexander e Adams operavam úteros convencidos de que a inclinação era o problema. Mais de um século depois, a medicina entende que o útero retrovertido é, quase sempre, só uma forma diferente de o corpo estar organizado. O que pede atenção é o que às vezes vem junto, e não a posição em si.
Se a expressão apareceu no seu laudo, ela não diz nada sobre a sua capacidade de ter filhos. A fertilidade depende de muitos fatores, e quem pode olhar para o seu caso como um todo é o ginecologista.
Perguntas frequentes
Útero retrovertido pode causar aborto?
Não há evidência de que a posição do útero aumente o risco de aborto espontâneo. O encarceramento, que é raro, é uma situação diferente e tem tratamento.
O útero retrovertido pode mudar de posição?
Sim. O útero móvel pode mudar de inclinação ao longo da vida, depois de uma gravidez ou com a idade.
Como se descobre que o útero é retrovertido?
Geralmente no exame ginecológico de toque ou numa ultrassonografia transvaginal. Muitas mulheres só ficam sabendo por acaso, num exame de rotina.
Referências
- Kantorowska A, Patberg ET, Ali F et al. Incarcerated gravid uterus: a new treatment using the transvaginal ultrasound probe and narrative literature review. Am J Obstet Gynecol, 2025. doi.org
- Taylor AKL, Bartels HC, Brophy DP et al. Late preterm delivery by midline laparotomy due to incarcerated uterus: case report and literature review. Int J Gynaecol Obstet, 2024. doi.org
- Radiopaedia. Incarcerated uterus. radiopaedia.org
- Alexander's Operation. PMC (NIH). ncbi.nlm.nih.gov
- Gibbons JM, Paley WB. The retroverted gravid uterus and its effect on the outcome of pregnancy. Br Med J, 1976. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- ACOG. Evaluating Infertility (FAQ). acog.org
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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