Ablação cardíaca: como é feito o procedimento

Em setembro de 1998, uma equipe do Hospital Cardiológico do Haut-Lévêque, em Bordeaux, na França, liderada pelo médico Michel Haïssaguerre, publicou no New England Journal of Medicine uma descoberta que mudou o tratamento de uma das arritmias mais comuns. Eles estudaram 45 pessoas com crises frequentes de fibrilação atrial que não melhoravam com remédios e, com cateteres cheios de eletrodos, procuraram o ponto exato onde cada crise começava.
Dos 69 focos encontrados, 65 ficavam dentro das veias pulmonares, que levam o sangue dos pulmões ao coração. Com radiofrequência nesses pontos, os batimentos "fora de hora" que disparavam as crises sumiam. Era a base da técnica que hoje se chama ablação cardíaca. Quase três décadas depois, a dúvida de quem recebe essa indicação continua a mesma: como é feito o procedimento?
Resposta rápida: na ablação cardíaca, o médico leva cateteres finos até o coração por um vaso sanguíneo do pescoço, do braço ou da virilha, localiza a área que gera a arritmia e cria nela uma pequena cicatriz com calor, frio ou pulsos elétricos. Essa cicatriz bloqueia os sinais elétricos anormais. O procedimento é feito em hospital, com sedação ou anestesia, e pode durar quatro horas ou mais.
O que é a ablação cardíaca?
O coração bate graças a um sistema elétrico próprio. Cada batimento nasce de um impulso que percorre o músculo cardíaco num caminho organizado. Quando surge um foco extra ou um "atalho" nesse circuito, o ritmo fica acelerado, lento ou irregular: é a arritmia.
A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, no portal MedlinePlus, define a ablação como um procedimento que cria cicatrizes em pequenas áreas do coração ligadas ao problema de ritmo. O tecido cicatrizado não conduz eletricidade, e assim os sinais anormais deixam de circular.
A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC) descreve o mesmo caminho: mapear o músculo cardíaco e destruir de forma controlada o tecido com atividade elétrica anormal. Quem realiza é o cardiologista que se dedica ao ritmo do coração, o arritmologista (ou eletrofisiologista).
Um detalhe sobre o nome: muita gente chama a ablação de cirurgia, mas ela não abre o peito. É um procedimento por cateter, feito por dentro dos vasos sanguíneos.
Como é feito o procedimento, passo a passo?
O MedlinePlus descreve as etapas assim:
- Preparo: a pessoa recebe um sedativo para relaxar. A pele do pescoço, do braço ou da virilha é limpa e anestesiada.
- Entrada do cateter: o médico faz um pequeno corte na pele e introduz um tubo fino e flexível num vaso sanguíneo da região. Às vezes é preciso mais de um cateter.
- Caminho até o coração: imagens de raio X em tempo real guiam o cateter até o coração.
- Mapeamento: eletrodos posicionados em pontos diferentes do coração registram a atividade elétrica e mostram de onde vem a arritmia. Na maioria dos casos, são uma ou poucas áreas.
- Ablação: um dos cateteres leva energia ao ponto encontrado e cria a pequena cicatriz que interrompe o problema.
O coração é monitorado o tempo todo. Algumas sensações são esperadas, segundo o MedlinePlus: ardor rápido quando remédios são injetados, coração mais forte ou acelerado, tontura leve e ardor quando a energia é aplicada.
É um procedimento longo, que pode durar quatro horas ou mais, conforme a arritmia e a complexidade do caso.
Quais são as técnicas de ablação?
O que muda entre as técnicas é a forma de energia usada para criar a cicatriz. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) resume as opções para a fibrilação atrial como queimar, congelar ou usar pulsos elétricos de alta energia.
Radiofrequência
Usa calor. É a técnica mais antiga e foi a empregada no estudo de Bordeaux, em 1998.
Crioablação
Usa frio intenso para congelar o tecido. O MedlinePlus explica que a escolha entre calor e frio depende do tipo de arritmia.
Campo pulsado
É a tecnologia mais recente, conhecida pela sigla em inglês PFA (pulsed field ablation). Em vez de calor ou frio, usa pulsos elétricos de alta energia. A SOBRAC dedicou ao tema, em outubro de 2026, um episódio do seu videocast sobre o que pacientes e médicos precisam saber da nova técnica no Brasil.
Não existe técnica "melhor" para todo mundo: quem escolhe é o especialista.
Para quais arritmias a ablação é indicada?
A SOBRAC recomenda a ablação por cateter quando o tratamento com remédios não traz resultado satisfatório ou quando o paciente prefere uma solução mais definitiva, sempre após avaliação. O MedlinePlus cita entre as arritmias tratadas:
- taquicardia por reentrada nodal (AVNRT), um tipo comum de coração acelerado;
- arritmias por via acessória, como a síndrome de Wolff-Parkinson-White, em que a pessoa nasce com uma conexão elétrica a mais no coração;
- fibrilação atrial e flutter atrial;
- taquicardia ventricular.
Para a síndrome de Wolff-Parkinson-White, o NHS afirma que a ablação é o principal tratamento preventivo quando os sintomas se repetem ou há risco de batimento muito rápido, e que costuma funcionar bem. Para a taquicardia supraventricular, o mesmo serviço diz que a ablação resolve o problema de forma permanente na maioria das pessoas.
Na fibrilação atrial, a conversa é outra. O NHS lembra que hoje não existe cura para ela: o tratamento busca controlar os sintomas e reduzir o risco de complicações como coágulos, AVC e insuficiência cardíaca. A ablação é uma das opções, ao lado de remédios, cardioversão elétrica e dispositivos implantados. O próprio estudo de 1998 mostra que o resultado nem sempre é definitivo: depois de cerca de oito meses de acompanhamento, 62% das pessoas não tinham tido nova crise.
Por isso, desconfie de uma taxa de sucesso única para "a ablação". O MedlinePlus é claro: os resultados variam conforme o tipo de arritmia tratada.
Quais são os riscos?
O MedlinePlus considera a ablação, em geral, um procedimento seguro, feito num ambiente controlado para que o risco seja o menor possível. Ainda assim, lista complicações raras que devem ser conversadas com o cardiologista:
- sangramento ou acúmulo de sangue no local do cateter, e lesão do vaso puncionado;
- coágulo que pode chegar às artérias da perna, do coração ou do cérebro;
- lesão de válvulas do coração ou das artérias coronárias;
- acúmulo de líquido em volta do coração (tamponamento cardíaco);
- infarto;
- lesão de nervos próximos, como o vago e o frênico;
- fístula entre o esôfago e o coração, uma complicação rara e grave.
A lista não é motivo para pânico. Serve para pesar, com o médico, os riscos do procedimento e os da própria arritmia.
Como é o preparo e a recuperação?
Antes, o MedlinePlus orienta contar à equipe todos os remédios em uso, principalmente anticoagulantes, e perguntar ao cardiologista quais manter. Resfriado, gripe, febre ou outra doença nos dias anteriores precisam ser comunicados, e em geral pede-se jejum desde a meia-noite.
Depois, a equipe faz pressão no local da punção para evitar sangramento. A pessoa fica deitada por pelo menos uma hora, às vezes por cinco ou seis, com o ritmo do coração sob observação. O cardiologista decide se a alta é no mesmo dia ou no dia seguinte, e é preciso ter alguém para levar a pessoa para casa.
Nos dois ou três dias seguintes, podem aparecer cansaço, dor leve no peito e batimentos falhados ou acelerados. O médico pode manter ou trocar os remédios para o ritmo. O prazo para voltar ao trabalho e aos exercícios deve ser combinado com a equipe.
Os hábitos também contam. Na fibrilação atrial, o NHS recomenda manter o peso saudável, fazer atividade física regular sem exagero, não fumar, não beber álcool em excesso e evitar gatilhos como cafeína, estresse, desidratação e falta de sono.
Quando procurar um médico
A SOBRAC orienta procurar avaliação médica diante de qualquer alteração no ritmo do coração e de sinais como:
- palpitações, ou a sensação de coração disparado ou batendo fora do ritmo;
- tontura, falta de ar ou cansaço excessivo;
- desmaios.
O primeiro passo é o clínico geral ou o cardiologista, que pode encaminhar ao arritmologista. Em situação de urgência, como dor no peito forte ou desmaio, ligue para o SAMU, no número 192, serviço de atendimento móvel de urgência do SUS.
Conclusão: um mapa antes do tratamento
O grupo de Bordeaux só conseguiu tratar a fibrilação atrial depois de descobrir onde ela nascia. Esse continua sendo o coração da ablação cardíaca: primeiro mapear, depois agir num ponto preciso. As técnicas evoluíram, do calor ao frio e aos pulsos elétricos, mas a decisão segue individual. Quem convive com uma arritmia tem o melhor caminho numa conversa franca com o especialista sobre benefícios, riscos e alternativas para o seu caso.
Perguntas frequentes
A ablação cardíaca é feita com anestesia geral?
Depende do caso. O MedlinePlus descreve sedação com anestesia local no ponto de entrada do cateter. A equipe define o tipo de anestesia.
Depois da ablação, posso parar os remédios?
Não por conta própria. O cardiologista pode manter os remédios ou trocá-los depois do procedimento.
A arritmia pode voltar?
Pode. A chance varia com o tipo de arritmia, e em alguns casos um novo procedimento é discutido com o médico.
Referências
- MedlinePlus (Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA). Cardiac ablation procedures. medlineplus.gov
- Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC). Tratamento. sobrac.org
- SOBRAC. Arritmia cardíaca atinge milhões de brasileiros e exige atenção aos sinais. sobrac.org
- SOBRAC. Conexão SOBRAC: PFA no Brasil, entenda a nova tecnologia de ablação (2026). sobrac.org
- NHS. Atrial fibrillation. nhs.uk
- Ministério da Saúde. SAMU 192. gov.br/saude
- NHS. Atrial fibrillation: treatment. nhs.uk
- NHS. Wolff-Parkinson-White syndrome. nhs.uk
- NHS. Supraventricular tachycardia (SVT). nhs.uk
- Haïssaguerre M, et al. Spontaneous initiation of atrial fibrillation by ectopic beats originating in the pulmonary veins. N Engl J Med, 1998. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.