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Artigo · Vitaminas · 11 min de leitura

Falta de vitamina D: sintomas, exame e fontes

RaiRaisLife14 de maio de 2019 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Luz do sol sobre a mesa com ovos, salmão e um copo de leite

Logo depois da Primeira Guerra Mundial, em Berlim, o pediatra Kurt Huldschinsky cuidava de crianças pequenas com raquitismo, uma doença que deixa os ossos moles, fracos, deformados e doloridos. Ele resolveu testar uma ideia ousada para a época: colocou crianças doentes sob lâmpadas de vapor de mercúrio, que emitem luz ultravioleta, uma espécie de "sol artificial".

Ele publicou o resultado em 1919 e foi o primeiro a mostrar que a luz ultravioleta curava o raquitismo. Anos depois, a ciência entendeu o motivo: a pele exposta a esse tipo de luz produz vitamina D, e é a falta dela que está por trás da maior parte dos casos da doença.

Cem anos depois, a vitamina D virou assunto de consultório, de academia e de grupo de família. Mas quais são, de fato, os sintomas da falta de vitamina D, e quando vale a pena fazer o exame?

Resposta rápida: a falta de vitamina D muitas vezes não dá sintoma nenhum. Quando é forte e duradoura, causa dor nos ossos, fraqueza muscular e, nas crianças, raquitismo; nos adultos, osteomalácia, o amolecimento dos ossos. O diagnóstico só vem com o exame de sangue chamado 25-hidroxivitamina D, indicado para grupos de risco. Se for preciso repor, quem decide como é o médico.

O que é a vitamina D e para que ela serve?

A principal fonte não é o prato: é a própria pele, que fabrica a vitamina quando recebe os raios ultravioleta B do sol. Os alimentos ajudam, mas poucos têm quantidades relevantes.

No sangue, a vitamina D circula numa forma chamada 25-hidroxivitamina D, que é a que o exame mede. A forma ativa, que age nas células, é a 1,25-di-hidroxivitamina D.

Segundo o Escritório de Suplementos Alimentares dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), a vitamina D ajuda o corpo a absorver o cálcio, um dos tijolos dos ossos. Os músculos precisam dela para se mover, os nervos para levar mensagens entre o cérebro e o corpo, e o sistema de defesa para combater bactérias e vírus. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde lembra que o receptor da forma ativa da vitamina está presente em todo o organismo, inclusive no coração.

Quais são os sintomas da falta de vitamina D?

Aqui está o ponto que mais confunde: na maioria das pessoas, a falta de vitamina D é silenciosa. Ela pode existir por meses sem nenhum sinal, e é por isso que só o exame confirma o diagnóstico.

Quando a deficiência é importante e se prolonga, os sinais mais bem documentados são:

  • Dor nos ossos.
  • Fraqueza muscular.
  • Nas crianças, raquitismo: ossos moles, fracos, deformados e doloridos.
  • Nos adolescentes e adultos, osteomalácia: amolecimento dos ossos, com dor e fraqueza muscular.
  • A longo prazo, ossos frágeis: junto com a falta de cálcio, a deficiência contribui para a osteoporose e para fraturas com quedas pequenas.

E o cansaço, a tristeza, o suor na cabeça e os problemas de estômago, que aparecem em tantas listas na internet? Vamos por partes. A tristeza e a depressão têm associação com níveis baixos em alguns estudos, mas, segundo o NIH, os ensaios clínicos mostram que tomar vitamina D não previne nem alivia os sintomas de depressão.

Já os problemas digestivos entram na história de outro jeito: não como sintoma, mas como causa. Como a vitamina D é absorvida junto com a gordura, doenças que atrapalham essa absorção, como a doença celíaca, a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, aumentam o risco de deficiência.

Como saber se tenho falta de vitamina D?

Pelo exame de sangue da 25-hidroxivitamina D, também escrito 25(OH)D. É esse o exame que mostra quanto de vitamina D está disponível no corpo.

Quem deve fazer o exame?

Não é um exame para todo mundo, todo ano. O posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), publicado em 2020, recomenda a dosagem para pessoas com maior risco de deficiência, entre elas:

  • pessoas com mais de 65 anos;
  • gestantes;
  • quem tem quedas repetidas, fraturas por fragilidade ou osteoporose;
  • pessoas com hiperparatireoidismo secundário ou doença renal crônica;
  • pacientes com câncer;
  • quem usa remédios que interferem no metabolismo da vitamina D.

O NIH acrescenta outros grupos com mais dificuldade para manter bons níveis: bebês que mamam só no peito, pessoas que quase não saem de casa ou cobrem o corpo, pessoas de pele escura, quem tem doenças que reduzem a absorção de gordura, pessoas com obesidade e quem passou por cirurgia bariátrica do tipo bypass. Quem se encaixa em algum desses grupos deve conversar com o médico sobre o exame.

Quais são os valores de referência?

Os números mudaram bastante nos últimos anos, e muita tabela antiga ainda circula por aí. Pelo posicionamento da SBEM e da SBPC/ML:

  • Abaixo de 20 ng/mL: deficiência.
  • Entre 20 e 60 ng/mL: normal para a população em geral.
  • Acima de 30 ng/mL: meta que pode trazer benefício nos grupos de risco citados acima.
  • Acima de 100 ng/mL: risco de intoxicação, uma condição que pode ameaçar a vida.

A referência americana usa outra unidade, o nanomol por litro, mas chega a números próximos: para o NIH, 20 ng/mL ou mais é adequado para a maioria das pessoas, menos de 12 ng/mL é baixo demais e acima de 50 ng/mL já é alto e pode trazer problemas. Quem interpreta o resultado à luz da sua história é o médico que pediu o exame.

Quais são as fontes de vitamina D?

O sol

É a fonte principal. A pele produz vitamina D quando os raios ultravioleta B a atingem diretamente. Segundo o NIH, nuvens, poluição, idade avançada e pele escura reduzem essa produção. E um detalhe que pouca gente sabe: atrás do vidro da janela, a pele não fabrica vitamina D, porque o vidro barra os raios ultravioleta B.

Quem vive perto da linha do Equador recebe mais sol e, segundo o NIH, tem níveis mais altos. Já a pele escura produz menos vitamina D com a mesma exposição. Trabalhar o dia inteiro em ambiente fechado, sair de casa com o dia escuro e voltar à noite é uma receita comum para níveis baixos.

Ao mesmo tempo, o sol em excesso faz mal à pele. O NIH lembra que o protetor solar reduz a produção de vitamina D, mas os especialistas continuam recomendando seu uso, com fator 15 ou mais, quando a exposição passa de alguns minutos.

Bronzeamento artificial: não

Um dos posts antigos do RaisLife sugeria as camas de bronzeamento como alternativa nos dias nublados. Essa orientação está errada. No Brasil, a Anvisa proíbe desde 2009 o uso de câmaras de bronzeamento artificial com finalidade estética (RDC nº 56/2009).

Os alimentos

Poucos alimentos têm vitamina D naturalmente, e é difícil chegar ao necessário só com a dieta. Os que mais contribuem, segundo o NIH, são:

  • Peixes gordurosos, como salmão, truta, atum e cavala, e o óleo de fígado de peixe, que estão entre as melhores fontes naturais.
  • Gema de ovo, fígado bovino e queijo, com quantidades pequenas.
  • Cogumelos, com um pouco, e mais quando expostos à luz ultravioleta durante o cultivo.
  • Alimentos fortificados, como alguns leites, bebidas vegetais, cereais matinais e iogurtes. Aqui vale ler o rótulo, porque nem todos levam vitamina D.

E os suplementos?

Existem e são úteis em muitos casos, mas não são inofensivos. A vitamina D se acumula na gordura do corpo, e o excesso, quase sempre causado por suplemento tomado por conta própria, faz o cálcio subir no sangue. O NIH lista os sinais: náusea, vômito, fraqueza muscular, confusão, perda de apetite, desidratação, muita sede e muita urina, além de pedras nos rins. Nos casos extremos, há insuficiência renal, arritmia e até morte.

A vitamina D também conversa com remédios. Alguns diuréticos usados para pressão alta podem elevar demais o cálcio quando combinados com ela; corticoides podem baixar o nível da vitamina; alguns remédios para emagrecer reduzem sua absorção; e doses altas podem atrapalhar remédios para colesterol. Por isso a reposição de vitamina D é decisão médica: é o médico quem avalia se ela é necessária, qual forma usar e por quanto tempo, e quando repetir o exame.

Vitamina D previne câncer, diabetes ou infarto?

Os posts antigos do RaisLife repetiam números de estudos observacionais que chamavam a atenção: risco de câncer de mama "pela metade", chance de infarto 50% maior com a deficiência, ligação com mortes por diabetes. Esses estudos mostram associação, não causa: quem tem vitamina D alta costuma passar mais tempo ao ar livre e se mexer mais. Para separar uma coisa da outra, os grandes ensaios sortearam quem recebia vitamina e quem recebia placebo.

O que mostrou o estudo VITAL

O VITAL acompanhou 25.871 adultos nos Estados Unidos, homens a partir de 50 anos e mulheres a partir de 55, por uma mediana de 5,3 anos. Os participantes foram sorteados para receber vitamina D ou placebo. Os resultados, publicados no New England Journal of Medicine em 2019, foram claros: a suplementação não reduziu o risco de câncer (793 casos no grupo da vitamina contra 824 no placebo) nem de infarto, AVC e morte cardiovascular (396 contra 409). Não houve diferença para câncer de mama, de próstata ou colorretal.

Houve um sinal de redução nas mortes por câncer, mas sem significado estatístico nesse estudo. Em 2022, outra análise do VITAL, publicada no BMJ, encontrou cerca de 22% menos doenças autoimunes confirmadas no grupo da vitamina D, um resultado que ainda pede confirmação.

E o diabetes tipo 2?

O ensaio D2d, também publicado no New England Journal of Medicine em 2019, testou a vitamina D em 2.423 adultos com pré-diabetes. Depois de uma mediana de 2,5 anos, o diabetes apareceu em 293 pessoas do grupo da vitamina e em 323 do placebo. A diferença não teve significado estatístico, ou seja, o estudo não conseguiu provar que a vitamina D previne o diabetes nessa população. O NIH resume que, em pessoas com e sem diabetes, a suplementação não melhorou a glicose, a resistência à insulina nem a hemoglobina glicada.

Ou seja: corrigir a deficiência importa para ossos e músculos, mas tomar vitamina D sem necessidade não é escudo contra câncer, infarto ou diabetes.

Quando procurar um médico?

Procure um clínico geral, um médico de família ou um endocrinologista se você:

  • sente dor nos ossos ou fraqueza muscular sem explicação, por semanas;
  • teve fratura em queda pequena ou tem diagnóstico de osteoporose;
  • tem mais de 65 anos, está grávida ou tem doença renal crônica;
  • tem doença celíaca, doença de Crohn, retocolite ou passou por cirurgia bariátrica;
  • usa remédios de forma contínua, principalmente corticoides;
  • toma vitamina D por conta própria e sente náusea, muita sede ou confusão.

Nas crianças, ossos deformados, como pernas tortas, ou dor nos ossos pedem avaliação do pediatra, que também orienta sobre a vitamina D nos bebês.

O sol de Huldschinsky, cem anos depois

As lâmpadas de Kurt Huldschinsky mostraram que a luz certa podia devolver a força aos ossos de crianças doentes. Um século de pesquisa confirmou essa lição e acrescentou outras: a falta de vitamina D quase sempre é silenciosa, o exame é para quem tem risco, e o suplemento não é um amuleto contra todas as doenças. Um pouco de sol com bom senso, comida de verdade e uma conversa com o médico quando houver motivo continuam sendo o melhor caminho.

Perguntas frequentes

Quais são os primeiros sintomas da falta de vitamina D?

Na maioria das vezes, não há sintoma no começo. Quando a deficiência é forte e longa, surgem dor nos ossos e fraqueza muscular. Só o exame de sangue confirma.

Tomar sol pela janela ajuda a produzir vitamina D?

Não. O vidro bloqueia os raios ultravioleta B, que são os que fazem a pele produzir vitamina D.

Qual é o valor normal de vitamina D no exame?

Pelas sociedades brasileiras, entre 20 e 60 ng/mL para a população em geral, e acima de 30 ng/mL nos grupos de risco. Abaixo de 20 é deficiência; acima de 100 há risco de intoxicação.

Posso tomar vitamina D por conta própria?

Não é o recomendado. O excesso pode elevar o cálcio no sangue e prejudicar rins e coração, e a vitamina interage com remédios. Reposição é decisão do médico.

Referências

  • Moreira CA et al. Reference values of 25-hydroxyvitamin D revisited: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM) and the Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine (SBPC). Archives of Endocrinology and Metabolism, 2020. doi.org
  • National Institutes of Health, Office of Dietary Supplements. Vitamin D: Fact Sheet for Consumers. ods.od.nih.gov
  • Ministério da Saúde, Biblioteca Virtual em Saúde. Deficiência de vitamina D. bvsms.saude.gov.br
  • Manson JE et al. Vitamin D Supplements and Prevention of Cancer and Cardiovascular Disease (VITAL). New England Journal of Medicine, 2019. doi.org
  • Hahn J et al. Vitamin D and marine omega 3 fatty acid supplementation and incident autoimmune disease: VITAL randomized controlled trial. BMJ, 2022. doi.org
  • Pittas AG et al. Vitamin D Supplementation and Prevention of Type 2 Diabetes (D2d). New England Journal of Medicine, 2019. doi.org
  • Anvisa. Resolução RDC nº 56, de 9 de novembro de 2009 (proíbe o bronzeamento artificial estético). bvsms.saude.gov.br
  • NHS. Vitamin D. nhs.uk
  • Kurt Huldschinsky: um pioneiro na luta contra o raquitismo. Deutsche Medizinische Wochenschrift, 2021. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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