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Artigo · Notícias · 8 min de leitura

Fone de ouvido faz mal para a audição? Veja o limite

RaiRaisLife15 de novembro de 2017 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Fone de ouvido sobre a mesa de madeira ao lado de uma planta

Em fevereiro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a União Internacional de Telecomunicações, a agência da ONU que cuida de padrões de tecnologia, lançaram em Genebra uma norma pouco comum. Ela não falava de remédio nem de vacina, e sim de celulares e tocadores de música. O documento, chamado "Dispositivos e sistemas de escuta segura" e conhecido pelo código H.870, recomenda que os aparelhos tenham um contador da exposição ao som, avisos personalizados e opções para limitar o volume.

O motivo, segundo a OMS no anúncio, era o número de jovens em risco: quase metade das pessoas de 12 a 35 anos, cerca de 1,1 bilhão, se expunha a níveis perigosos de som pelos fones e aparelhos pessoais. Afinal, fone de ouvido faz mal para a audição?

Resposta rápida: o fone em si não faz mal. O que lesa a audição é o som alto por muito tempo. A OMS considera seguro ouvir em média até 80 decibéis por cerca de 40 horas por semana, e orienta manter o volume abaixo de 60% do máximo do aparelho. A perda causada por ruído costuma ser permanente, mas pode ser evitada.

Como o som alto prejudica o ouvido?

Dentro da orelha interna existem células sensoriais que transformam a vibração do som em sinais para o cérebro. A OMS explica que o som alto cansa essas células. Depois de um show barulhento, por exemplo, é comum sair com a audição abafada ou com um chiado no ouvido. Esse chiado tem nome: zumbido, ou tinnitus, um som que a pessoa escuta sem que ele venha de fora.

Na maioria das vezes, isso melhora quando as células se recuperam. O problema é a repetição. Com exposição frequente a som alto ou prolongado, as células e outras estruturas do ouvido podem ser danificadas de forma permanente. O resultado é a perda auditiva induzida por ruído, o zumbido que não passa, ou os dois.

Essa perda pode surgir de imediato, depois de um estouro muito forte, mas em geral é gradual e costuma passar despercebida.

Quanto volume e quanto tempo são seguros?

O risco depende de três coisas juntas: o volume, o tempo de escuta e a frequência com que a pessoa se expõe. O som é medido em decibéis (dB), e cada pequeno aumento nessa escala corta bastante o tempo seguro. Pela tabela da OMS, o limite semanal fica assim:

  • 80 dB (parecido com uma campainha): até 40 horas por semana;
  • 85 dB (trânsito pesado, de dentro do carro): 12 horas e 30 minutos;
  • 90 dB (uma conversa aos gritos): 4 horas;
  • 95 dB (uma moto): 1 hora e 15 minutos;
  • 100 dB (um secador de cabelo): 20 minutos.

Para comparar, uma conversa normal tem cerca de 60 dB, e nesse nível não há limite de tempo. De 80 para 90 dB, o tempo seguro cai de 40 para 4 horas por semana.

Como pouca gente sabe quantos decibéis sai do próprio fone, a OMS dá uma regra prática: deixe o volume do aparelho abaixo de 60% do máximo. Quem usa aplicativo de medição deve ficar abaixo de 80 dB em média.

Quem está mais exposto ao risco?

Os jovens. Uma revisão sistemática publicada em 2022 na revista BMJ Global Health, com participação de pesquisadores da OMS, reuniu 33 estudos com mais de 19 mil pessoas de 12 a 34 anos. Cerca de 24% delas ouviam música em aparelhos pessoais de forma considerada insegura. Somando a frequência a casas noturnas, shows e outros locais barulhentos, os autores estimaram que de 670 milhões a 1,35 bilhão de jovens no mundo podem estar em risco de perda auditiva.

A ficha da OMS sobre surdez e perda auditiva, atualizada em março de 2026, repete o alerta: mais de 1 bilhão de jovens adultos correm risco de perda auditiva permanente e evitável por hábitos de escuta inseguros. Hoje, mais de 430 milhões de pessoas no mundo precisam de reabilitação por perda auditiva incapacitante, e a projeção é passar de 700 milhões até 2050.

O Relatório mundial sobre a audição, publicado pela OMS em 2021, também aborda a prevenção da perda auditiva.

Como usar o fone de ouvido sem prejudicar a audição?

A ideia não é abandonar o fone, e sim usar com critério. As orientações da OMS para quem gosta de ouvir música são estas:

  • Mantenha o volume abaixo de 60% do máximo. O Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) resume de outro jeito: o volume deve ser só o suficiente para você ouvir com conforto.
  • Prefira fones bem ajustados e com cancelamento de ruído. Em ônibus, metrô ou lugares cheios, o barulho de fora leva a pessoa a aumentar o volume sem perceber. O fone que isola melhor reduz essa necessidade.
  • Dê pausas aos ouvidos. Intervalos longe do som alto ajudam as células sensoriais a se recuperarem.
  • Use os recursos do próprio aparelho. Limite de volume e monitor de exposição ajudam a manter o hábito sem precisar fazer contas.
  • Em shows e baladas, fique longe das caixas de som e use protetores auriculares. A OMS sugere descansar os ouvidos em um lugar silencioso por 10 minutos a cada hora.

Para crianças e adolescentes, a OMS orienta preferir caixas de som ao fone quando possível, escolher fones com controle de volume pelos pais e ensinar a regra dos 60%.

Quais são os sinais de que a audição foi afetada?

Como a perda costuma ser lenta, os sinais são discretos. A OMS lista estes alertas:

  • zumbido persistente, um chiado ou apito que não vai embora;
  • dificuldade para ouvir sons agudos, como canto de passarinho, campainha, telefone ou despertador;
  • dificuldade para entender a fala, principalmente ao telefone;
  • dificuldade para acompanhar conversas em lugares barulhentos, como restaurantes, mercados e festas.

O NHS acrescenta pedir para as pessoas repetirem o que disseram e deixar a TV mais alta do que os outros precisam.

Um chiado que aparece depois de uma festa e some em algumas horas é comum. Já o zumbido persistente está na lista de alertas da OMS, que orienta procurar um profissional nesse caso.

O fone é a única causa de perda auditiva que dá para evitar?

Não. A OMS descreve causas evitáveis em todas as fases da vida. Na gestação, infecções como rubéola e citomegalovírus podem afetar a audição do bebê. Na infância, entram as otites crônicas (infecções de ouvido de repetição) e a meningite. Em adultos, além do ruído, a lista inclui tabagismo, alguns remédios que agridem o ouvido e produtos químicos usados no trabalho. Entre as formas de prevenção citadas estão o cuidado com as doenças de ouvido, programas de proteção contra ruído e químicos no trabalho e o uso racional de remédios.

No Brasil, a Lei 12.303, de 2010, tornou obrigatório e gratuito o exame de emissões otoacústicas, o "teste da orelhinha", nos bebês nascidos nas maternidades. Ele permite descobrir cedo uma perda auditiva e começar o acompanhamento.

Algumas causas não dependem de hábito, como fatores genéticos, a otosclerose e a perda que vem com a idade. Já a perda por ruído é das mais fáceis de prevenir. E vale um recado importante: depois que ela acontece, diminuir a exposição ajuda a evitar que piore. A OMS afirma que limitar a exposição a sons altos pode limitar a progressão da perda.

Quando procurar um médico

Marque uma consulta se o zumbido for frequente ou constante, estiver piorando ou atrapalhar o sono, a concentração ou o humor. Procure também se perceber que a audição está caindo aos poucos ou se reconhecer os sinais da lista acima. O médico indicado é o otorrinolaringologista, que examina o ouvido e pode pedir a audiometria, exame feito pelo fonoaudiólogo.

Algumas situações pedem atendimento rápido, segundo o NHS: perda súbita da audição em um ou nos dois ouvidos e zumbido que pulsa no ritmo do coração. Nesses casos, procure atendimento médico logo, sem esperar passar.

Conclusão: o volume é o que conta

A norma de 2019 nasceu de uma constatação: a tecnologia para proteger a audição já existia, e mesmo assim muitos jovens estavam se expondo ao risco. O fone de ouvido não é o vilão; o que pesa é o volume alto somado às horas de uso. Manter o som abaixo de 60%, fazer pausas e prestar atenção ao zumbido que não passa são cuidados simples, e a audição perdida pelo ruído não volta.

Perguntas frequentes

Zumbido depois de um show é normal?

É comum e costuma passar em algumas horas, porque as células do ouvido se recuperam. Mas é um sinal de que o som estava alto demais. Se o zumbido persistir ou se repetir com frequência, procure avaliação.

A perda auditiva causada pelo fone tem volta?

A perda induzida por ruído costuma ser permanente. Reduzir a exposição ajuda a impedir que ela avance, e um especialista pode indicar formas de reabilitação, como os aparelhos auditivos.

Referências

  • Organização Mundial da Saúde. Deafness and hearing loss: safe listening (perguntas e respostas, 2026). who.int
  • Organização Mundial da Saúde. Deafness and hearing loss (ficha informativa, 2026). who.int
  • Organização Mundial da Saúde. New WHO-ITU standard aims to prevent hearing loss among 1.1 billion young people (2019). who.int
  • Organização Mundial da Saúde e UIT. Safe listening devices and systems: a WHO-ITU standard (2019). who.int
  • Organização Mundial da Saúde. World report on hearing (2021). who.int
  • Dillard LK et al. Prevalence and global estimates of unsafe listening practices in adolescents and young adults: a systematic review and meta-analysis. BMJ Glob Health, 2022. PubMed
  • NHS. Hearing loss. nhs.uk
  • NHS. Tinnitus. nhs.uk
  • Brasil. Lei nº 12.303, de 2 de agosto de 2010 (teste da orelhinha). planalto.gov.br

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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