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Artigo · Saúde de A-Z · 7 min de leitura

Varicela e herpes-zóster: catapora em adultos

RaiRaisLife26 de novembro de 2016 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Frasco de vacina e seringa tampada em uma bandeja

Até o século 18, muitos médicos achavam que a catapora era só uma forma fraca da varíola. Em 1767, o médico inglês William Heberden apresentou em Londres um trabalho mostrando que eram doenças diferentes: as bolhas da catapora surgem em levas, secam rápido e quase nunca deixam marcas. Parece pouco, mas essa distinção ajudou a separar uma doença em geral leve de outra que matava muito.

Quase dois séculos depois, nos anos 1950, o virologista americano Thomas Weller conseguiu cultivar em laboratório o vírus da catapora e o vírus do herpes-zóster, o popular "cobreiro". Eram o mesmo vírus. A criança que tem catapora não se livra dele: o vírus fica adormecido nos nervos e pode acordar décadas depois.

Essa descoberta explica dúvidas que chegam até hoje: por que a catapora em adultos costuma ser mais forte, quem pode ter herpes-zóster e o que as vacinas mudaram.

Resposta rápida: varicela (catapora) e herpes-zóster são causados pelo mesmo vírus, o varicela-zóster. A catapora é a primeira infecção e é bem mais contagiosa; o zóster é o vírus voltando à ativa anos depois, com dor e bolhas numa faixa do corpo. Existe vacina para as duas situações.

Como a varicela pega e quais são os sintomas?

A varicela é uma das doenças mais contagiosas que existem. O vírus passa pelo ar, em gotículas de quem está infectado, e pelo contato com o líquido das bolhas. A pessoa transmite desde um ou dois dias antes de as manchas aparecerem até todas as lesões virarem casquinha, o que leva em média uma semana.

Os sintomas aparecem cerca de duas semanas depois do contato (de 10 a 21 dias). Começa com febre baixa, cansaço e falta de apetite. Logo surgem manchas vermelhas que viram bolhinhas com líquido, coçam bastante e depois secam. Uma característica ajuda a reconhecer: no mesmo dia convivem manchas, bolhas e crostas, porque elas nascem em levas, a começar pelo tronco e pelo rosto.

Catapora em adultos é mais grave?

Sim, em geral. Na criança saudável, a catapora costuma ser leve. No adulto que nunca teve a doença nem tomou a vacina, a febre tende a ser mais alta, as lesões mais numerosas e as complicações mais frequentes, como pneumonia. Segundo o CDC, adultos têm um risco bem maior de complicações graves do que crianças.

Alguns grupos merecem atenção especial:

  • Gestantes: a infecção pode ser mais séria para a mãe e, conforme a fase da gravidez, afetar o bebê.
  • Pessoas com imunidade baixa: quem faz quimioterapia, usa medicamentos que reduzem a imunidade ou vive com HIV sem controle.
  • Recém-nascidos: principalmente quando a mãe tem catapora perto do parto.

Outro risco, em qualquer idade, é a infecção das feridas por bactérias, quase sempre por causa da coceira. Manter as unhas curtas ajuda.

O que é herpes-zóster e por que ele aparece?

Depois da catapora, o vírus se esconde nos gânglios nervosos, perto da coluna. Com o passar dos anos, ou quando a imunidade cai, ele pode reativar e descer pelo nervo até a pele. O resultado é o herpes-zóster: primeiro vem dor, ardor ou formigamento numa área; dias depois, bolhas agrupadas numa faixa de um só lado do corpo, muitas vezes no tórax.

O zóster é mais comum depois dos 50 anos e em quem tem a imunidade comprometida. A complicação mais temida é a neuralgia pós-herpética, uma dor que continua por meses depois que a pele sarou. Quando atinge o rosto, perto do olho, pode afetar a visão e precisa de atendimento rápido.

Quem está com zóster não "passa zóster" para ninguém, mas o líquido das bolhas pode transmitir o vírus e causar catapora em quem nunca teve a doença nem foi vacinado. Por isso vale cobrir as lesões e evitar contato com gestantes e bebês até elas secarem.

Quais vacinas existem no SUS e na rede particular?

Contra a varicela, o calendário do Ministério da Saúde prevê duas doses na infância: a primeira aos 15 meses e a segunda aos 4 anos, com a vacina varicela; quando ela falta, o calendário permite usar a tetraviral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela). O SUS também oferece a vacina para alguns grupos específicos, como profissionais de saúde sem imunidade e pessoas em situações clínicas especiais, pelos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). Adolescentes e adultos que nunca tiveram catapora nem tomaram a vacina devem perguntar no posto ou ao médico sobre a vacinação; a SBIm recomenda duas doses para quem não tem imunidade.

Contra o herpes-zóster, a vacina recomendada hoje pela SBIm é a recombinante (inativada), em duas doses, indicada a partir dos 50 anos e também para adultos a partir de 18 anos com imunidade comprometida. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar essa vacina ao SUS, após avaliação da Conitec; por isso, hoje ela é encontrada em clínicas particulares de vacinação. A decisão pode ser revista se surgirem fatos novos.

A vacina de varicela é feita com vírus atenuado e, por isso, não é aplicada em gestantes nem em pessoas com imunidade muito baixa. Quem decide em cada caso é o médico.

Quando procurar um médico

Procure atendimento médico logo se você ou alguém da família tiver catapora ou suspeita de zóster e se encaixar numa destas situações:

  • gestante, bebê com menos de 1 ano ou pessoa com imunidade baixa;
  • febre alta que dura mais de quatro dias ou volta depois de melhorar;
  • falta de ar, tosse forte, sonolência fora do comum, confusão, dor de cabeça intensa ou dificuldade para andar;
  • bolhas no rosto perto do olho, olho vermelho ou alteração da visão;
  • lesões muito vermelhas, quentes, inchadas ou com pus.

Adultos com catapora e qualquer pessoa com suspeita de herpes-zóster também devem passar por uma consulta logo no início, quando o médico consegue avaliar com mais opções. Não use remédio por conta própria: alguns analgésicos e anti-inflamatórios comuns são contraindicados na varicela.

Conclusão: um vírus antigo, uma proteção nova

Heberden separou a catapora da varíola olhando para a pele dos doentes. Weller mostrou que a catapora da infância e o cobreiro da vida adulta são capítulos da mesma história. Hoje dá para escrever um final diferente para ela: com a vacina na infância, a catapora já é bem menos comum do que foi, e a vacina do zóster reduz o risco de o vírus voltar mais tarde.

Se você não sabe se teve catapora, se nunca tomou a vacina ou se já passou dos 50, leve a sua caderneta de vacinação à próxima consulta. É uma conversa curta que pode evitar uma doença longa.

Perguntas frequentes

Quem teve catapora pode ter de novo?

É raro. A doença costuma deixar imunidade duradoura. O que pode aparecer depois é o herpes-zóster, que é o mesmo vírus reativado.

Quanto tempo a criança fica afastada da escola?

O Ministério da Saúde orienta afastamento por 7 dias a partir do início das manchas, ou até todas as lesões virarem crosta.

Herpes-zóster é a mesma coisa que herpes labial?

Não. O herpes labial é causado pelo vírus herpes simples. Os dois são da mesma família, mas são vírus diferentes.

Quem já teve zóster pode tomar a vacina?

Sim. O calendário do adulto da SBIm recomenda a vacina também para quem já teve zóster, com intervalo de seis meses ou depois que o quadro se resolver. Converse com seu médico sobre o melhor momento.

Referências

  • Ministério da Saúde. Varicela (catapora). gov.br/saude
  • Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. gov.br/saude
  • Conitec. Relatório de Recomendação nº 1073: vacina recombinante adjuvada para a prevenção do herpes-zóster (2026). gov.br/conitec
  • SBIm. Calendário de vacinação do adulto 2026/2027 (varicela e herpes-zóster). sbim.org.br
  • SBIm. Nota técnica: vacinação contra herpes-zóster (vacina recombinante). sbim.org.br
  • CDC. Pink Book, capítulo Varicella (história, transmissão, complicações em adultos). cdc.gov
  • Arvin AM, Gershon AA (org.). Varicella-Zoster Virus: Virology and Clinical Management (amostra), sobre o trabalho de Heberden (1767). Cambridge University Press

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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