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Artigo · Notícias · 7 min de leitura

Tatuagem que muda de cor com a saúde: o que se sabe

RaiRaisLife31 de julho de 2019 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Frascos de tintas coloridas, placa de Petri e máquina de tatuagem no laboratório

Entre junho de 2016 e maio de 2017, um grupo do MIT Media Lab e da Escola de Medicina de Harvard trabalhou numa ideia que parecia ficção: trocar a tinta da tatuagem por sensores químicos que mudam de cor conforme o que acontece dentro do corpo. O projeto se chamava DermalAbyss. Uma das tintas ia do azul ao marrom com a glicose; outra passava do roxo ao rosa com o pH. Os testes foram feitos em pele de porco, fora de qualquer animal vivo.

Dois anos depois, em julho de 2019, um grupo que incluía pesquisadores do DermalAbyss, com o engenheiro Ali Yetisen, então na Universidade Técnica de Munique, como primeiro autor, publicou na revista Angewandte Chemie uma versão mais detalhada: tintas que mediam pH, glicose e albumina, com a leitura feita pela câmera de um celular.

Passados alguns anos, a pergunta natural é: dá para fazer uma tatuagem dessas hoje?

Resposta rápida: não. As tatuagens biossensoras continuam sendo pesquisa de laboratório, testadas em pele de animais e em modelos de pele. Nenhuma delas foi aprovada para uso em pessoas, e até 2023 não havia estudo clínico avaliando segurança e eficácia em humanos. O próprio MIT informa que não pretende transformar o DermalAbyss em produto.

Como funciona uma tatuagem que muda de cor?

A tatuagem comum deposita pigmento na derme, a camada da pele logo abaixo da superfície. Ali as células ficam banhadas pelo líquido intersticial, o fluido que circula entre elas e troca substâncias com o sangue. A ideia da tatuagem biossensora é usar no lugar do pigmento uma substância que reage quimicamente com algo presente nesse líquido e muda de cor.

No estudo de 2019, cada tinta tinha uma função:

  • pH: uma mistura de indicadores químicos que respondia numa faixa de pH de 5 a 9.
  • Glicose: uma enzima que reage com o açúcar e gera uma mudança de cor, detectando concentrações de até 50 mmol/L.
  • Albumina: um corante que se liga a essa proteína do sangue, medindo até 5 g/L.

Os autores sugeriram que, no futuro, esse tipo de sensor poderia ajudar a acompanhar o equilíbrio ácido-base, o diabetes e a insuficiência do fígado. A palavra importante aqui é "poderia".

Os testes foram feitos em pessoas?

Não. Tanto o DermalAbyss quanto o estudo de 2019 usaram pele de porco fora do corpo (o que os cientistas chamam de ex vivo), porque ela se parece com a pele humana. A tinta foi injetada, o líquido ao redor recebeu concentrações conhecidas de glicose, albumina ou ácido, e a cor foi fotografada. Isso mostra que a química funciona no tecido, mas não diz nada sobre como o corpo vivo reage a essas substâncias ao longo de meses ou anos.

A página oficial do projeto no MIT é clara: o DermalAbyss foi uma prova de conceito, a pesquisa terminou e não há planos de desenvolver um produto nem de fazer estudos clínicos.

O que a ciência descobriu desde então?

A ideia não morreu. Ela virou uma pequena linha de pesquisa, ainda em fase inicial. Alguns marcos que estão no PubMed:

  • 2021, China: pesquisadores da Universidade Xi'an Jiaotong usaram um adesivo de microagulhas (agulhas minúsculas que mal atravessam a superfície da pele) para "tatuar" quatro sensores de uma vez: pH, glicose, ácido úrico e temperatura. A leitura podia ser feita a olho nu. O sensor foi testado também em animal vivo e acompanhou as mudanças por pelo menos 4 dias; segundo uma revisão posterior, pH e temperatura foram medidos na pele de coelhos.
  • 2024, Reino Unido: um grupo do Imperial College London, onde Yetisen passou a trabalhar, testou bactérias modificadas em laboratório, presas em pequenas esferas de gel, como sensores vivos. As esferas foram tatuadas em modelos de pele e continuaram funcionando depois do processo.
  • 2026: uma revisão na revista Materials Today Bio reuniu as pesquisas sobre tatuagens dérmicas na biomedicina, tanto para medir substâncias quanto como possível forma de terapia. O tema segue no campo das plataformas "emergentes".

Sendo honesta: houve avanços na química e nas formas de aplicar a tinta, e os testes chegaram a animais vivos por poucos dias. Ninguém chegou ao uso em pessoas.

Por que ainda não existe uma tatuagem dessas para comprar?

Um artigo de 2023 assinado pelo próprio Yetisen e colegas, na revista alemã Dermatologie, lista os obstáculos que faltam vencer:

  • Segurança: não havia, até ali, nenhum ensaio clínico avaliando a segurança e a eficácia dessas tatuagens em humanos por longos períodos.
  • Infecção e alergia: o artigo cita taxas de infecção de pele ligadas a tatuagens entre 1% e 5%, além do risco de reações alérgicas às tintas.
  • Qualidade das tintas: a esterilidade das tintas comerciais é pouco regulada, e muitas têm contaminantes, inclusive metais pesados.
  • Duração: o ideal seria um sensor que funcionasse por meses, e os testes duraram dias.
  • Remoção: tirar uma tatuagem exige várias sessões ao longo de meses e pode deixar cicatriz ou mancha. Um sensor que deixa de funcionar ou causa reação não sai com facilidade.

O que existe hoje para acompanhar a glicose pela pele?

Para quem tem diabetes, já existe uma tecnologia que mede a glicose no mesmo líquido entre as células, só que sem tatuagem. É o monitor contínuo de glicose. Segundo o NIDDK, o instituto de diabetes e doenças digestivas e renais dos Estados Unidos, um sensor pequeno é colocado sob a pele, em geral na barriga ou no braço, preso por um adesivo, e precisa ser trocado periodicamente. Também existem versões implantáveis.

Os sensores descartáveis são trocados a cada 7 a 14 dias, conforme o modelo. Ao contrário das tatuagens biossensoras, são aparelhos já usados no cuidado do diabetes. Se fazem sentido para você é uma decisão a tomar com o médico que acompanha o seu diabetes.

Quando procurar um médico

As tatuagens biossensoras não são uma opção de cuidado hoje, então nenhuma decisão de saúde deve esperar por elas. Procure um médico se:

  • você tem diabetes, doença renal ou do fígado e quer entender as formas atuais de monitorar a sua condição (endocrinologista, nefrologista ou hepatologista, conforme o caso);
  • tem dúvidas sobre a sua glicose ou sintomas que preocupam: o clínico geral é o primeiro passo;
  • fez uma tatuagem comum e a área ficou vermelha, inchada, dolorida ou com pus, ou se apareceu febre: procure atendimento.

Conclusão: uma boa ideia que ainda mora no laboratório

Quando o DermalAbyss apareceu, em 2017, a imagem de uma pele que avisa sobre a glicose encantou muita gente. Quase dez anos depois, a ciência avançou em pequenos passos: novas tintas, microagulhas, até bactérias como sensores. Mas os próprios pesquisadores dizem que faltam estudos de segurança em pessoas, e o projeto original foi encerrado sem virar produto. Por enquanto, a tatuagem que muda de cor é uma linha de pesquisa interessante, não algo que se faça num estúdio ou se compre.

Perguntas frequentes

Posso fazer uma tatuagem biossensora num estúdio?

Não. Essas tintas só existem em laboratório e não são aprovadas para uso em pessoas.

A tatuagem que muda de cor substitui o exame de sangue?

Não. Ela nunca foi testada em humanos. Exames e aparelhos aprovados continuam sendo o caminho.

Referências

  • MIT Media Lab. DermalAbyss: Possibilities of Biosensors as a Tattooed Interface. media.mit.edu
  • Yetisen AK et al. Dermal Tattoo Biosensors for Colorimetric Metabolite Detection. Angew Chem Int Ed Engl, 2019. PubMed 31157485
  • He R et al. A Colorimetric Dermal Tattoo Biosensor Fabricated by Microneedle Patch for Multiplexed Detection of Health-Related Biomarkers. Adv Sci, 2021. PubMed 34719884
  • Dhond K, Hu Y, Yetisen AK. Dermal tattoo biosensors. Dermatologie, 2023. PMC10516771
  • Allen ME et al. Engineered Bacteria as Living Biosensors in Dermal Tattoos. Adv Sci, 2024. PubMed 38884139
  • Shakibi R et al. Dermal tattoos in biomedicine: Emerging platforms for sensing and therapy. Mater Today Bio, 2026. PubMed 42571369
  • NIDDK. Continuous Glucose Monitoring. niddk.nih.gov

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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