Colesterol alto: HDL, LDL e valores de referência

Em 1948, a pequena cidade de Framingham, perto de Boston, nos Estados Unidos, aceitou participar de uma experiência pouco comum. Cerca de 5,2 mil moradores, de 30 a 62 anos e sem história de infarto ou AVC, passaram a ser examinados a cada dois anos. Os médicos mediam a pressão, perguntavam sobre hábitos e, entre outras coisas, o colesterol no sangue. A ideia era simples: acompanhar pessoas saudáveis e ver quem adoecia depois.
Em 1961, os pesquisadores publicaram um resultado que mudou a cardiologia. Quem tinha colesterol mais alto apresentava, anos depois, mais infartos. Foi nesse artigo que apareceu a expressão "fator de risco". O estudo continua até hoje, já com netos dos primeiros voluntários.
Mais de seis décadas depois, o colesterol virou item fixo do exame de sangue. Mas o resultado ainda confunde muita gente: o que é HDL, o que é LDL, e quando o colesterol é considerado alto?
Resposta rápida: o LDL é a fração que, em excesso, se acumula na parede das artérias; o HDL ajuda a retirar colesterol dos tecidos. Para adultos, o colesterol total desejável fica abaixo de 190 mg/dL e o HDL acima de 40 mg/dL. Já a meta de LDL não é igual para todos: depende do risco cardiovascular de cada pessoa.
O que é colesterol e por que o corpo precisa dele?
Colesterol é um tipo de gordura produzido principalmente pelo fígado. Ele não é um vilão: o corpo usa colesterol para formar as membranas das células, fabricar hormônios e produzir a vitamina D. A maior parte do que circula no sangue vem do próprio organismo, e uma parte menor vem da alimentação.
Como gordura não se mistura com o sangue, o colesterol viaja dentro de partículas chamadas lipoproteínas. São elas que aparecem no exame com as siglas LDL, HDL e VLDL.
Qual a diferença entre colesterol HDL e LDL?
O LDL (lipoproteína de baixa densidade) leva colesterol do fígado para o resto do corpo. Quando sobra LDL no sangue por muito tempo, essas partículas entram na parede das artérias e ajudam a formar placas de gordura, a chamada aterosclerose. Com os anos, a placa pode estreitar o vaso ou se romper e provocar um infarto ou um AVC. Por isso o LDL ganhou o apelido de "colesterol ruim".
O HDL (lipoproteína de alta densidade) faz quase o caminho inverso: recolhe colesterol dos tecidos e devolve ao fígado. Daí o apelido de "colesterol bom". Só que aqui cabe um cuidado. HDL baixo costuma andar junto com maior risco, mas os estudos não mostraram que subir o HDL por si só protege o coração. O foco das diretrizes continua sendo o LDL.
O VLDL transporta principalmente triglicerídeos, outra gordura do sangue. Muitos laudos trazem ainda o colesterol não-HDL, que é o total menos o HDL e soma todas as partículas que podem entupir as artérias.
Quais são os valores de referência do colesterol?
Os laboratórios brasileiros seguem os valores da Sociedade Brasileira de Cardiologia para adultos (acima de 20 anos). A diretriz de 2025 traz valores para coleta com jejum de 12 horas e sem jejum; quem decide é o médico que pede o exame.
- Colesterol total: desejável abaixo de 190 mg/dL.
- HDL: desejável acima de 40 mg/dL.
- Triglicerídeos: desejável abaixo de 150 mg/dL com jejum, ou abaixo de 175 mg/dL sem jejum.
- LDL e não-HDL: não têm um único valor "normal". O laudo mostra metas diferentes conforme a categoria de risco.
Por que a meta de LDL muda de pessoa para pessoa?
Um LDL de 110 mg/dL fica dentro da meta para quem tem risco baixo (abaixo de 115 mg/dL) e muito acima do alvo para quem já teve um infarto, em que as metas ficam abaixo de 50 ou até de 40 mg/dL. É por isso que a Diretriz Brasileira de Dislipidemias, atualizada pela SBC em 2025, primeiro classifica o risco cardiovascular e só depois define o alvo.
Entram nessa conta a idade, o sexo, a pressão arterial, o diabetes, o tabagismo, a doença renal, a história de infarto ou AVC e casos de doença do coração precoce na família. Quanto maior o risco, mais baixa é a meta de LDL: a diretriz vai de menos de 115 mg/dL no risco baixo a menos de 40 mg/dL no risco extremo. Quem faz essa avaliação é o médico, com o exame em mãos e a história completa.
Colesterol alto dá sintomas?
Quase nunca. A maioria das pessoas com colesterol alto se sente bem por anos, e a primeira manifestação pode ser justamente um infarto. Em formas hereditárias, como a hipercolesterolemia familiar, o LDL fica muito alto desde a infância e podem surgir depósitos de gordura na pele e nos tendões, os xantomas. Fora isso, só o exame de sangue mostra o problema.
Alimentação com menos gordura saturada e ultraprocessados, atividade física regular, peso adequado e não fumar fazem parte do tratamento de todas as pessoas com colesterol alterado, segundo a diretriz da SBC. Quando esses cuidados não bastam, cabe ao médico discutir as outras opções.
Que alimentos ajudam a baixar o colesterol?
Nenhum alimento sozinho resolve, mas o conjunto do prato faz diferença. O serviço público de saúde do Reino Unido (NHS) resume bem: comer menos gordura saturada e trocar parte dela por gorduras insaturadas. Na prática, vale dar mais espaço a:
- Aveia e outras fontes de fibra solúvel: a aveia tem betaglucana, um tipo de fibra solúvel. Uma revisão de 28 estudos clínicos mostrou que 3 g ou mais de betaglucana de aveia por dia baixaram o LDL, em média, cerca de 10 mg/dL.
- Cereais integrais, frutas, verduras e legumes: arroz integral, pão integral e macarrão integral.
- Gorduras insaturadas no lugar das saturadas: azeite de oliva, óleo de canola, castanhas, nozes e sementes.
- Peixes gordurosos: como salmão e cavalinha.
E vale comer menos carnes gordas e salsichas, manteiga, banha, creme de leite e queijos, bolos e biscoitos, além de produtos feitos com óleo de coco ou de palma. Para quem tem risco alto ou colesterol de origem genética, elas não substituem o remédio indicado pelo médico: as duas coisas andam juntas.
Quando procurar um médico
Faça o exame de colesterol na rotina de saúde, mesmo sem sintomas, e leve o resultado a um médico. Procure avaliação mais cedo se alguém da sua família teve infarto ou AVC antes dos 55 anos (homens) ou 65 anos (mulheres), se você tem diabetes, pressão alta ou fuma, ou se o LDL veio muito acima do esperado. O clínico geral ou o médico de família pode começar a investigação; casos de maior risco costumam seguir com o cardiologista ou o endocrinologista.
Conclusão: o que Framingham ensinou
Os moradores de Framingham não estavam doentes quando entraram no estudo. Foi acompanhando gente saudável que os pesquisadores descobriram que o colesterol trabalha em silêncio, ao longo de décadas. Essa é a lição que vale para quem olha o próprio exame hoje: o número sozinho não diz tudo, e o mesmo resultado pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Conhecer seus valores e conversar sobre eles com um médico é o primeiro passo.
Perguntas frequentes
Preciso de jejum para medir o colesterol?
Nem sempre. A diretriz aceita a coleta sem jejum e traz valores para as duas situações; o médico que pede o exame indica se quer jejum de 12 horas.
Quem é magro pode ter colesterol alto?
Pode. A genética pesa bastante, e pessoas magras também têm LDL elevado, inclusive na forma familiar.
Ovo aumenta o colesterol?
Para a maioria das pessoas, o colesterol da comida influencia menos que a gordura saturada e o padrão geral da dieta. Quem tem colesterol alto deve combinar a alimentação com o médico ou o nutricionista.
Com que idade devo fazer o exame?
A diretriz da SBC recomenda o perfil lipídico para todas as crianças entre 9 e 11 anos, e a partir dos 2 anos nas que têm fatores de risco, como histórico familiar de colesterol alto ou doença do coração precoce.
Referências
- Rached FH et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640. doi.org/10.36660/abc.20250640 · texto completo (PMC)
- Faludi AA et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2017. Arq Bras Cardiol. 2017;109(2 Supl 1):1-76. doi.org/10.5935/abc.20170121
- Kannel WB et al. Factors of risk in the development of coronary heart disease: six-year follow-up experience. The Framingham Study. Ann Intern Med. 1961;55:33-50. PMID 13751193. doi.org/10.7326/0003-4819-55-1-33
- Whitehead A et al. Cholesterol-lowering effects of oat β-glucan: a meta-analysis of randomized controlled trials. Am J Clin Nutr. 2014;100(6):1413-21. PMID 25411276. doi.org/10.3945/ajcn.114.086108
- NHS. How to lower your cholesterol. nhs.uk
- National Heart, Lung, and Blood Institute (NIH). Framingham Heart Study (FHS). nhlbi.nih.gov
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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