Como manter o cérebro saudável: o que a ciência diz

Em outubro de 2017, a RaisLife publicou uma lista de 11 dicas para estimular o cérebro, sugeridas pelo neurocientista argentino Facundo Manes e divulgadas pela BBC Brasil. Eram conselhos sensatos, mas soltos, sem dizer o que pesa mais.
Sete anos depois, em julho de 2024, a revista médica The Lancet publicou o relatório da sua comissão permanente sobre demência, assinado por 27 pesquisadores de vários países. A conclusão chamou atenção no mundo todo: cerca de 45% dos casos de demência estão ligados a 14 fatores de risco que podem ser modificados. Vários já estavam naquela lista de 2017.
Então, afinal, como manter o cérebro saudável? Vamos rever as dicas antigas com o que se sabe hoje.
Resposta rápida: o cérebro se beneficia dos mesmos cuidados que protegem o coração: mexer o corpo, não fumar, beber pouco ou nada, controlar pressão, glicose e colesterol, cuidar da audição e da visão, tratar a depressão e manter a vida social e o aprendizado ativos. Não existe vitamina ou suplemento recomendado para prevenir a demência.
O que a Comissão Lancet descobriu em 2024?
A comissão reúne estudos do mundo inteiro e calcula quanto de demência poderia ser evitado ou adiado se certos fatores de risco desaparecessem. Entre eles estão o colesterol LDL alto (o chamado "colesterol ruim") e a perda de visão sem tratamento.
Os 14 fatores são:
- pouca escolaridade;
- perda auditiva;
- colesterol LDL alto;
- depressão;
- lesão na cabeça (traumatismo craniano);
- sedentarismo;
- diabetes;
- tabagismo;
- pressão alta;
- obesidade;
- consumo excessivo de álcool;
- isolamento social;
- poluição do ar;
- perda de visão sem tratamento.
Um cuidado na leitura: "45%" é uma estimativa para a população, não uma garantia individual. Há quem faça tudo certo e desenvolva demência, porque a idade e a genética também contam. O que os números mostram é que boa parte do risco está ao nosso alcance em diferentes fases da vida.
O que é bom para o coração é bom para o cérebro?
Sim, e essa era a dica 7 do post antigo. O cérebro depende de vasos sanguíneos saudáveis. Pressão alta, diabetes, colesterol alto, cigarro e obesidade estão entre os fatores que aumentam o risco de demência, e o próprio AVC também está nessa lista da OMS.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lista, entre as ações que reduzem o risco de declínio cognitivo e demência:
- ser fisicamente ativo;
- não fumar;
- evitar o uso nocivo de álcool;
- ter uma alimentação saudável e equilibrada;
- manter o peso adequado;
- controlar pressão, colesterol e glicose;
- manter-se ativo social e intelectualmente;
- usar aparelho auditivo quando necessário;
- reduzir a exposição à poluição do ar.
Pressão alta e diabetes podem passar anos sem dar sinal, por isso os exames de rotina importam.
Quanto exercício o cérebro precisa?
A recomendação geral da OMS para adultos é de pelo menos 150 minutos por semana de atividade física moderada. Dá meia hora em cinco dias.
O post de 2017 citava o tênis e a dança de salão, e a escolha continua boa. Mas a melhor atividade é aquela que você consegue manter: pode ser caminhada, hidroginástica, bicicleta ou dança na sala de casa.
Aprender coisas novas ajuda mesmo?
Ajuda. A pouca escolaridade é um dos 14 fatores da Comissão Lancet, e a OMS inclui manter-se intelectualmente ativo entre as ações de proteção.
As dicas antigas de estudar um idioma, ler, escrever, aprender um instrumento ou pesquisar a história da família seguem valendo. Também é verdade que adultos e idosos aprendem idiomas: talvez mais devagar que uma criança, mas aprendem. O que conta é o desafio somado ao prazer.
E os aplicativos de "treino cerebral"? O Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos (NIA) pede cautela com promessas de que certos jogos de computador ou on-line melhoram a memória e o raciocínio.
Amizades e vida social protegem a memória?
O isolamento social está entre os 14 fatores de risco. As dicas 2, 3 e 6 do post antigo falavam disso: valorizar a convivência, cultivar vínculos e não se "aposentar" do que dá prazer.
Vale um grupo de caminhada, um curso, o trabalho voluntário ou o almoço de domingo com a família.
Por que ouvir e enxergar bem faz diferença?
Esse é um ponto que quase ninguém associa ao cérebro. A perda auditiva e a perda de visão sem tratamento estão entre os 14 fatores do relatório.
A boa notícia é que existe solução para muitos casos. Se você pede para as pessoas repetirem o que disseram, aumenta muito o volume da televisão ou tem dificuldade para ler e reconhecer rostos, vale procurar um otorrinolaringologista ou um oftalmologista. Aparelho auditivo e óculos adequados fazem parte do cuidado com o cérebro.
Sono, estresse e emoções contam?
Contam. A depressão é um dos 14 fatores, e por isso a dica de "pensar positivamente" merece um ajuste: não se trata de se obrigar a ser feliz, e sim de reconhecer quando a tristeza vira doença e buscar tratamento. O próprio Manes dizia, em 2017, que não dá para forçar a alegria quando o momento não é de alegria.
Sobre o sono, o NIA orienta, em geral, de sete a nove horas por noite para adultos mais velhos. Ronco alto com pausas na respiração, insônia que não passa ou sonolência durante o dia merecem avaliação médica.
E as vitaminas e os suplementos para memória?
Aqui está o ponto que mais precisa de correção em relação ao post antigo. Segundo o NIA, nenhuma vitamina ou suplemento é recomendado hoje para prevenir o Alzheimer ou outras formas de declínio cognitivo. Desconfie de produto que promete "turbinar" a memória.
O que existe é outra coisa: a falta de vitamina B12, problemas de tireoide, efeitos de remédios, depressão e distúrbios do sono podem causar esquecimento. Por isso, quem nota falhas de memória deve investigar a causa com um médico, em vez de tomar suplementos por conta própria.
Como proteger a cabeça e o ar que você respira?
Lesão na cabeça e poluição do ar completam a lista. Cinto de segurança, capacete na bicicleta e na moto e cuidado com quedas em casa (tapete solto, pouca luz, chão molhado) protegem o cérebro. Na poluição, nem tudo depende de você, mas fugir da fumaça de cigarro e de queimadas já ajuda.
Quando procurar um médico
Esquecer onde deixou a chave de vez em quando é comum. Procure um médico, começando pelo clínico geral, que pode encaminhar a um neurologista ou geriatra, se você ou alguém próximo notar:
- esquecimentos que atrapalham a rotina, como repetir a mesma pergunta várias vezes;
- dificuldade para lidar com dinheiro, seguir uma receita ou fazer tarefas antes simples;
- desorientação em lugares conhecidos;
- mudanças de comportamento ou de humor sem explicação;
- tristeza persistente, perda de interesse pelas coisas ou alterações importantes no sono.
Confusão súbita, fala enrolada, fraqueza de um lado do corpo ou boca torta são emergência: ligue 192 (Samu) na hora, pois podem indicar um AVC.
Conclusão: as 11 dicas resistiram ao tempo
A lista de 2017 envelheceu melhor do que muitas promessas sobre memória. Aprender, conviver, se mexer, dormir bem e cuidar da saúde do corpo continuam no centro do que a ciência recomenda. O que mudou foi a precisão: hoje sabemos que a audição, a visão, o colesterol e a poluição também entram na conta, e que os suplementos não entram.
Como manter o cérebro saudável, então? Com hábitos comuns, repetidos por anos, e com o acompanhamento médico em dia. Não é garantia contra a demência, mas é a melhor aposta que a ciência conhece.
Perguntas frequentes
Palavras cruzadas e sudoku previnem demência?
Atividades que desafiam o raciocínio fazem parte de uma vida intelectualmente ativa, mas nenhum jogo isolado previne demência.
Com que idade devo começar a cuidar do cérebro?
O risco se acumula ao longo da vida, segundo a OMS. Quanto antes, melhor, mas mudanças feitas na meia-idade e na velhice também contam.
Referências
- Livingston G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024;404:572-628. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39096926
- Organização Mundial da Saúde. Dementia (fact sheet). who.int
- Organização Mundial da Saúde. Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines, 2019. who.int
- Organização Mundial da Saúde. Physical activity (fact sheet). who.int
- National Institute on Aging (EUA). Cognitive Health and Older Adults. nia.nih.gov
- National Institute on Aging (EUA). Memory Problems, Forgetfulness, and Aging. nia.nih.gov
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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