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Artigo · Paciente 360 · 8 min de leitura

Insuficiência cardíaca: sintomas e se tem cura

RaiRaisLife22 de maio de 2019 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Modelo anatômico de coração ao lado de um estetoscópio

Em 1978, aos 37 anos, o americano Dick Cheney sofreu o primeiro de seus cinco infartos. Vieram outros em 1984, 1988, 2000 e 2010. No verão americano de 2010, já com insuficiência cardíaca em fase final, ele recebeu uma bomba implantada para ajudar o coração a empurrar o sangue. Ficou mais de 20 meses na fila de transplante.

O novo coração chegou em 24 de março de 2012, quando ele tinha 71 anos. Com ele, viveu mais treze anos e morreu em novembro de 2025, aos 84 anos, de pneumonia e complicações cardíacas e vasculares.

A história mostra as duas faces da insuficiência cardíaca: é uma doença séria, que costuma avançar aos poucos, e ao mesmo tempo a medicina aprendeu muito sobre como acompanhá-la. Mas como ela começa, quais são os sintomas e, afinal, insuficiência cardíaca tem cura?

Resposta rápida: os sintomas mais comuns são falta de ar (no esforço, deitado ou à noite), cansaço fora do normal e inchaço nas pernas, tornozelos ou barriga. Na maioria dos casos a insuficiência cardíaca não tem cura, mas o tratamento e o acompanhamento regular podem controlar os sintomas e mantê-la estável por muitos anos. Quando a causa é tratada, o coração pode recuperar parte da força.

O que é insuficiência cardíaca?

Insuficiência cardíaca (IC) não quer dizer que o coração parou. Quer dizer que ele não consegue bombear sangue, ou se encher de sangue, como o corpo precisa. O resultado é que órgãos e músculos recebem menos oxigênio, e líquido começa a se acumular nos pulmões, nas pernas e no abdome.

Ela costuma ser a consequência de outro problema que sobrecarregou o coração durante anos. As causas mais frequentes são:

  • doença das artérias do coração e infarto;
  • pressão alta mal controlada, que obriga o coração a trabalhar contra uma resistência maior;
  • problemas nas válvulas, arritmias e doenças do próprio músculo cardíaco (as cardiomiopatias);
  • no Brasil, segundo a diretriz da SBC, ainda pesam o mau controle da pressão e do diabetes, a doença de Chagas e a doença reumática, menos relevantes que no passado, mas presentes;
  • doença renal crônica, anemia, problemas de tireoide, algumas infecções e o abuso de álcool ou cocaína.

A Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), lembra que a doença afeta mais de 23 milhões de pessoas no mundo e fica mais comum com a idade: atinge cerca de 1% das pessoas entre 55 e 64 anos e 17,4% de quem tem 85 anos ou mais.

Quais são os sintomas da insuficiência cardíaca?

Os sintomas aparecem porque o sangue circula com menos força e porque sobra líquido no corpo. Os principais são:

  • Falta de ar: primeiro em esforços como subir escadas; depois em tarefas simples, como se vestir. Muitos precisam de mais travesseiros ou acordam sem ar à noite.
  • Cansaço e fraqueza que não passam com o descanso.
  • Inchaço nos pés, tornozelos, pernas ou barriga.
  • Ganho de peso rápido, que costuma ser líquido retido, não gordura.
  • Tosse persistente, principalmente à noite ou deitado.
  • Vontade de urinar muitas vezes, perda de apetite, enjoo e dor ou sensação de peso na barriga.
  • Tontura, sensação de desmaio e lábios ou dedos arroxeados.

Em idosos pouco ativos, cansaço e confusão às vezes aparecem antes da falta de ar.

Como a insuficiência cardíaca é classificada?

Pela força de bombeamento. O ecocardiograma mede a fração de ejeção, a porcentagem de sangue que o ventrículo esquerdo expulsa a cada batida. Pela classificação universal de 2021, adotada na atualização da diretriz da SBC do mesmo ano: até 40% é IC com fração de ejeção reduzida; de 41% a 49%, levemente reduzida; e a partir de 50%, preservada, em que o coração bombeia, mas não se enche bem. Quem tinha fração de ejeção baixa e melhorou passa a ter IC com fração de ejeção melhorada, e continua em tratamento.

Pelos sintomas. A classificação da New York Heart Association (NYHA) divide os pacientes em quatro classes: da I, sem limitação nas atividades, até a IV, com sintomas até em repouso. Segundo a diretriz da SBC, quem está nas classes III e IV tende a ter mais internações e maior risco.

Pela evolução. Os estágios, propostos pelas sociedades americanas de cardiologia e usados pela SBC, vão de A a D. No A estão as pessoas com risco (pressão alta, diabetes, obesidade) e coração ainda normal. No B, já há alteração no coração, mas sem sintomas. No C, os sintomas apareceram. O D é a fase avançada, que pede terapias específicas, como transplante ou aparelhos de assistência ao coração. O objetivo do cuidado é frear essa caminhada o mais cedo possível.

"Estou sem sintomas, então estou estável"?

Esse é um dos mitos mais perigosos sobre a doença. A diretriz da SBC alerta que, mesmo com sintomas estáveis e poucas internações, a doença nem sempre está parada.

  • Pouco sintoma não significa doença parada. Pessoas com sintomas estáveis podem ter morte súbita sem piora prévia dos sintomas, e esse risco cai quando o tratamento é bem ajustado.
  • Internação por piora é um sinal de alerta. No Brasil, o registro BREATHE, citado pela diretriz da SBC, mostrou que a principal causa das reinternações foi a dificuldade em seguir o tratamento básico, além de uma mortalidade hospitalar elevada.

É por isso que o tratamento moderno não se guia só pelo que a pessoa sente. Mesmo quem está bem precisa de consultas regulares, exames e ajustes, porque o objetivo é evitar a próxima internação, e não apenas aliviar a falta de ar de hoje.

Como cuidar do dia a dia?

As orientações do NHS britânico incluem: tomar os remédios como o médico prescreveu, pesar-se com regularidade (o líquido acumulado faz o peso subir de repente), manter-se ativo com orientação, comer de forma equilibrada, parar de fumar e reduzir o álcool. Qualquer remédio novo, inclusive anti-inflamatório comprado sem receita, deve ser conversado com o médico: a diretriz da SBC cita os anti-inflamatórios entre os remédios que podem piorar a IC.

Insuficiência cardíaca tem cura?

Na maior parte dos casos, não. O serviço público de saúde do Reino Unido (NHS) resume bem: não existe cura, mas o tratamento e as mudanças no estilo de vida podem controlar os sintomas e manter a insuficiência cardíaca estável por muitos anos.

Quando a causa é identificada e tratada, o coração pode recuperar parte da força. A atualização da diretriz da SBC reconhece esse grupo, chamado IC com fração de ejeção melhorada, e recomenda manter o tratamento, porque a melhora nem sempre dura. Na fase mais avançada, o transplante cardíaco segue como opção para pacientes selecionados, como foi para Cheney.

A diretriz da SBC registra que a sobrevida cinco anos após o diagnóstico pode ser de apenas 35%. Por isso, a palavra certa não é "cura", e sim controle.

Quando procurar um médico

Procure atendimento de emergência imediatamente (ligue para o SAMU, 192, ou vá a um pronto-socorro) se tiver:

  • falta de ar muito forte, com sensação de sufoco ou dificuldade para falar;
  • tosse com catarro espumoso e rosado;
  • desmaio, ou lábios e pele pálidos, azulados ou acinzentados;

Fale com seu médico o quanto antes se notar inchaço que aumenta rápido nas pernas ou na barriga, ganho de peso rápido (a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos orienta avisar o médico se o peso subir mais de 1 a 1,5 kg em um dia ou 2 kg em uma semana), falta de ar ao se deitar, cansaço novo ou piora dos sintomas que você já conhece.

Quem ainda não tem diagnóstico, mas sente falta de ar e cansaço sem explicação, deve começar por uma consulta com o clínico ou o cardiologista. O acompanhamento da doença é feito pelo cardiologista.

Conclusão: viver com o coração sob vigilância

Dick Cheney conviveu por mais de três décadas com doença no coração. A história dele não é regra, mas ilustra o que as diretrizes repetem: a insuficiência cardíaca não costuma ter cura, e mesmo assim muita coisa pode ser feita para viver mais e melhor com ela.

O recado principal é não confundir calmaria com estabilidade. Conhecer os sintomas, pesar-se, seguir o tratamento e não faltar às consultas são as atitudes que ajudam a evitar a internação, que é justamente o momento em que a doença costuma piorar de vez.

Perguntas frequentes

Insuficiência cardíaca é a mesma coisa que infarto?

Não. O infarto é a obstrução de uma artéria do coração. Ele pode lesar o músculo e, com o tempo, levar à insuficiência cardíaca, que é a perda da capacidade de bombear bem.

Quem tem insuficiência cardíaca pode fazer exercício?

Na maioria dos casos, sim, com tipo e intensidade definidos pelo cardiologista.

Por que preciso me pesar todos os dias?

Porque o líquido acumulado aparece na balança antes de causar falta de ar. Um aumento rápido de peso é um aviso precoce de que a doença pode estar descompensando.

Referências

  • Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol, 2018;111(3):436-539. publicacoes.cardiol.br
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca 2021. Arq Bras Cardiol, 2021;116(6):1174-1212. abccardiol.org
  • NHS. Heart failure. nhs.uk
  • NHLBI (NIH). Heart Failure: Symptoms. nhlbi.nih.gov
  • MedlinePlus (Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA). Heart failure: fluids and diuretics. medlineplus.gov
  • Bozkurt B, et al. Universal Definition and Classification of Heart Failure. J Card Fail, 2021;27(4):387-413. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • PBS NewsHour. Dick Cheney, one of America's most powerful and polarizing vice presidents, dies at 84, 2025. pbs.org
  • CNN. Dick Cheney obituary, 2025. cnn.com
  • Fox News. Cheney recovering from heart transplant surgery, 24/03/2012. web.archive.org
  • Ministério da Saúde. SAMU 192. gov.br/saude
  • Stanford Medicine. Dick Cheney on his heart transplant: "It's the gift of life itself", 2014. med.stanford.edu

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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