Especialista em reprodução humana: o que faz

Lesley e John Brown, um casal inglês, tentaram ter um filho por nove anos. Em 1977, chegaram à clínica do médico Patrick Steptoe, que trabalhava com o cientista Robert Edwards numa técnica nova: juntar óvulo e espermatozoide fora do corpo e devolver o embrião ao útero. Em 25 de julho de 1978 nasceu Louise Brown, o primeiro bebê concebido por fertilização in vitro.
Em 2010, Edwards recebeu o Prêmio Nobel de Medicina por esse trabalho. Na época do prêmio, a Assembleia do Nobel estimava que cerca de quatro milhões de pessoas já tinham nascido com a ajuda da técnica. Daquela parceria entre um médico e um cientista nasceu uma área inteira da medicina.
Hoje, quando um casal não consegue engravidar, é comum ouvir a recomendação de procurar um especialista nessa área. Mas o que faz um especialista em reprodução humana, e quando vale a pena marcar essa consulta?
Resposta rápida: o especialista em reprodução humana é o médico que investiga as causas da dificuldade para engravidar e conduz os tratamentos, das orientações mais simples até a fertilização in vitro. No Brasil, a reprodução assistida é uma área de atuação reconhecida pelo CFM, ligada à ginecologia e obstetrícia.
O que faz um especialista em reprodução humana?
O trabalho começa antes de qualquer tratamento. Na primeira consulta, o médico conversa com a pessoa ou o casal sobre o tempo de tentativa, ciclos menstruais, gestações anteriores, cirurgias, doenças e hábitos. Depois, pede exames para os dois, porque a dificuldade pode estar na mulher, no homem, nos dois ou não ter causa identificada.
Com os resultados, ele explica o que encontrou e discute as opções. Em alguns casos basta orientar o momento certo das relações. Em outros, a indicação é um tratamento de laboratório. A decisão é tomada em conjunto, pesando idade, causa, chance de sucesso, riscos e custo.
Esse médico também atende quem ainda não tem dificuldade, mas quer planejar: mulheres que pensam em adiar a gravidez, pessoas que vão fazer tratamento contra o câncer e querem preservar a fertilidade, casais com doença genética na família e casais homoafetivos ou pessoas solteiras que desejam ter filhos.
Qual é a formação desse médico?
No Brasil, a lista oficial de especialidades e áreas de atuação médicas é definida pelo Conselho Federal de Medicina. A Resolução CFM nº 2.380/2024, que traz essa lista, inclui a reprodução assistida como área de atuação. Para obter esse título, o médico precisa ser especialista em ginecologia e obstetrícia e fazer mais um ano de formação, por residência médica ou pela prova da Associação Médica Brasileira em convênio com a FEBRASGO, a federação das sociedades de ginecologia e obstetrícia.
Na prática, então, o especialista em reprodução humana é um ginecologista com formação adicional nessa área. A Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) reúne profissionais da medicina reprodutiva no país.
Uma dica útil: no site do CFM existe uma busca de médicos em que é possível conferir o registro do profissional e as especialidades que ele registrou no conselho.
Quando a dificuldade envolve o homem, o urologista, de preferência com experiência em andrologia (a área que cuida da saúde reprodutiva masculina), costuma participar da investigação junto com o especialista em reprodução.
Quando a dificuldade para engravidar é considerada infertilidade?
A Organização Mundial da Saúde define infertilidade como a falta de gravidez depois de 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem nenhum método para evitar filhos. Ela estima que cerca de uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva passe por isso em algum momento da vida. Ou seja, é bem mais comum do que parece.
A idade muda o prazo. O serviço de saúde britânico (NHS), por exemplo, orienta que a maioria dos casais procure ajuda depois de um ano de tentativa, e que mulheres de 36 anos ou mais e pessoas que já sabem ter algum problema de fertilidade procurem antes. A razão é que a fertilidade diminui com a idade.
A OMS lembra também que a infertilidade pode ter origem masculina, como alterações na quantidade, no formato ou no movimento dos espermatozoides, ou feminina, com problemas nos ovários, no útero, nas trompas ou nos hormônios.
Quais tratamentos ele pode indicar?
O post antigo deste blog listava as técnicas mais usadas, e elas continuam sendo a base da área. Cada uma tem indicação própria:
- Coito programado (relação programada): o médico acompanha a ovulação, em geral com ultrassom, e indica os dias mais férteis para a relação.
- Inseminação intrauterina: o sêmen é preparado em laboratório e colocado dentro do útero no período fértil. Pode ser indicada em algumas alterações de ovulação, alterações leves no sêmen ou problemas no muco do colo do útero.
- Fertilização in vitro (FIV): os ovários são estimulados, os óvulos são retirados por punção e fecundados em laboratório. O embrião formado é transferido para o útero.
- ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide): uma variação da FIV em que um espermatozoide é escolhido ao microscópio e injetado diretamente dentro do óvulo. É muito usada quando há alteração importante no sêmen.
- Congelamento de óvulos: permite guardar óvulos para usar no futuro. A chance de sucesso depende muito da idade em que eles foram congelados, e o congelamento não garante uma gravidez depois.
Antes de qualquer técnica, o médico trata o que pode ser tratado, como alterações hormonais, e orienta sobre hábitos que interferem na fertilidade. Nenhum tratamento tem resultado garantido, e um bom especialista explica com clareza as chances reais do seu caso.
Existem regras para a reprodução assistida no Brasil?
Sim. O CFM publica normas éticas próprias para a área. A Resolução CFM nº 2.320/2022 diz, entre outros pontos, que as técnicas podem ser usadas quando há possibilidade de sucesso e baixa probabilidade de risco grave para a paciente ou para o bebê. Ela fixa em 50 anos a idade máxima para a gestação por reprodução assistida, com exceções justificadas pelo médico, e torna obrigatório o termo de consentimento livre e esclarecido, em que riscos e resultados da clínica devem ser explicados por escrito.
Vale ler o termo com calma e tirar todas as dúvidas antes de assinar.
Quando procurar um médico
Procure primeiro o seu ginecologista, que pode iniciar a investigação e encaminhar ao especialista em reprodução humana, se:
- vocês tentam engravidar há 12 meses, com relações regulares, sem sucesso;
- a mulher tem 36 anos ou mais (nesse caso, não é preciso esperar um ano);
- os ciclos menstruais são muito irregulares ou ausentes;
- há diagnóstico de endometriose, problema nas trompas ou cirurgia pélvica anterior;
- o homem tem espermograma alterado, cirurgia ou doença nos testículos;
- houve perdas de gestação repetidas;
- alguém vai começar tratamento contra o câncer e quer preservar a fertilidade.
O homem também deve ser avaliado desde o começo. Muitas vezes a investigação masculina é simples e evita meses de espera.
Conclusão: da primeira FIV à consulta de hoje
Lesley e John Brown precisaram de nove anos e de uma técnica que ainda nem existia. Hoje, o caminho é bem mais curto: existe uma área médica dedicada a isso, com formação reconhecida, regras éticas e várias opções de tratamento.
Se a gravidez está demorando, procurar ajuda não é exagero nem fracasso. É a forma de entender o que está acontecendo e decidir, com informação, os próximos passos.
Perguntas frequentes
Preciso de encaminhamento para ir ao especialista em reprodução humana?
Depende do plano ou serviço de saúde. Muitas pessoas começam pelo ginecologista, que já pede os primeiros exames.
Especialista em reprodução humana atende homens?
Ele avalia o casal, incluindo o homem, e costuma trabalhar junto com o urologista quando há fator masculino.
Útero retrovertido atrapalha a gravidez?
Na maioria das vezes, não. Veja: quem tem útero retrovertido pode engravidar?
Referências
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.380/2024 (especialidades e áreas de atuação). sistemas.cfm.org.br
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.320/2022 (normas éticas para a reprodução assistida). sistemas.cfm.org.br
- Conselho Federal de Medicina. Busca de médicos. portal.cfm.org.br
- Organização Mundial da Saúde. Infertility (fact sheet). who.int
- NHS. Infertility. nhs.uk
- The Nobel Prize. Press release: The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2010. nobelprize.org
- Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH). sbrh.org.br
- FEBRASGO. febrasgo.org.br
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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