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Artigo · Notícias · 7 min de leitura

Como tirar cera do ouvido com segurança

RaiRaisLife21 de outubro de 2017 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Otoscópio sobre bandeja ao lado de uma toalha dobrada

Entre 1990 e 2010, os prontos-socorros dos Estados Unidos atenderam cerca de 263 mil crianças com machucados no ouvido causados por hastes com algodão na ponta, o famoso cotonete. Dá uma média de mais de 30 atendimentos por dia, durante 21 anos. Os números foram levantados por pesquisadores do Nationwide Children's Hospital, em Ohio, e publicados em 2017 no Journal of Pediatrics.

O detalhe que mais chama a atenção é a situação em que tudo aconteceu: em 73% dos casos, a criança estava limpando o ouvido. E, em três de cada quatro vezes, era ela mesma quem segurava a haste. Os diagnósticos mais comuns foram objeto preso no canal e furo no tímpano.

O hábito é de todas as idades: muita gente sai do banho e vai direto buscar o cotonete, certa de que está fazendo higiene. Então fica a pergunta que tanta gente digita no buscador: como tirar cera do ouvido do jeito certo? E será que é preciso tirar?

Resposta rápida: na maioria das pessoas, a cera não precisa ser retirada, porque sai sozinha. Limpe só a parte de fora da orelha com a toalha e não coloque cotonete nem objetos no canal. Se a cera entupir o ouvido e causar sintomas, quem remove com segurança é um profissional de saúde, de preferência o otorrinolaringologista.

Para que serve a cera do ouvido?

A cera, ou cerume, é produzida por glândulas da pele da parte mais externa do canal auditivo. Ela mistura a secreção dessas glândulas, rica em gordura, com células mortas da pele. Longe de ser sujeira, ela tem trabalho a fazer: mantém a pele do canal lubrificada, evita que ela resseque e ajuda a segurar poeira e germes antes que cheguem mais fundo.

O serviço de saúde britânico (NHS) resume bem: não dá para evitar a produção de cera, porque ela existe para proteger o ouvido. E, na maior parte das vezes, ela vai saindo sozinha, aos pouquinhos, sem que a gente perceba. O ouvido funciona como um sistema que se limpa por conta própria.

Por que o cotonete não é uma boa ideia?

O cotonete parece feito para o ouvido, mas, ao entrar no canal, ele tira um pouco de cera da ponta e empurra o resto para dentro, onde a cera não consegue mais sair sozinha. O NHS é direto: não use os dedos nem objetos como cotonetes para tirar a cera, porque isso a empurra para dentro e piora a situação.

Com o tempo, essa cera compactada pode formar uma rolha. Aí aparecem a sensação de ouvido tampado, a audição abafada e, às vezes, zumbido. Esse acúmulo que causa sintomas tem nome: impactação de cerume.

Há outros riscos. A pele do canal é fina e se machuca com facilidade. Nos casos mais sérios, como mostrou o estudo americano, a haste vai fundo demais e perfura o tímpano, a membrana fina que separa o canal do ouvido médio.

Como tirar cera do ouvido de forma segura?

Para quem não tem queixa nenhuma, a resposta é curta: a limpeza do dia a dia é só da parte de fora. Depois do banho, seque a orelha e a entrada do canal com a ponta da toalha, sem enfiar nada. Não existe um intervalo certo para isso, e, como o ouvido se limpa sozinho, quanto menos mexer, melhor.

A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNS), atualizada em 2017, orienta que a cera não seja removida de rotina em quem não tem sintomas e tem o ouvido fácil de examinar. Ter cera é normal. O tratamento passa a fazer sentido quando ela se acumula a ponto de causar sintomas ou de atrapalhar o exame do ouvido.

Quando a cera endurece e começa a incomodar, o NHS sugere uma medida caseira simples para amolecê-la: pingar algumas gotas de azeite de oliva ou de óleo de amêndoas no ouvido, deitado de lado, por alguns dias. Quem tem alergia a amêndoas não deve usar esse óleo. A ideia é que a cera amoleça e saia aos poucos, sozinha. Essa orientação, porém, tem limites claros:

  • não pingue nada se você já teve ou suspeita de furo no tímpano, se tem cirurgia no ouvido ou se há dor, secreção ou sangramento;
  • gotas próprias para amolecer cera, vendidas em farmácia, devem ser usadas com orientação de um farmacêutico ou médico;
  • se os sintomas não melhoram em poucos dias, o caminho é procurar atendimento, e não insistir em casa.

E as velas de ouvido, funcionam?

A vela de ouvido, também chamada de cone chinês, é um tubo de pano com cera que se coloca na entrada do ouvido e se acende na outra ponta. A promessa é que o calor "puxe" a cera para fora.

As fontes médicas não dão razão a essa prática. A diretriz da AAO-HNS recomenda expressamente que os profissionais orientem contra o uso de velas de ouvido, seja para tratar, seja para prevenir o acúmulo de cera. O NHS também afirma que não há evidência de que velas ou aspiradores de ouvido vendidos para uso caseiro removam a cera. Além de não resolver, a prática envolve fogo e cera quente perto do rosto, do cabelo e do canal do ouvido.

Como o médico tira a cera?

Quando a cera forma uma rolha, a remoção é feita no consultório. A diretriz da AAO-HNS cita três caminhos, que podem ser combinados:

  • gotas para amolecer a cera, inclusive água ou soro fisiológico, usadas antes ou no lugar dos outros métodos;
  • lavagem do canal com água, com o aparelho adequado;
  • remoção manual com instrumentos, como aspiração ou um pequeno instrumento para raspar a cera, feita com visão direta do canal.

O NHS lembra que esses procedimentos costumam ser indolores. A escolha depende do exame: quem tem tímpano perfurado, por exemplo, precisa de uma conduta diferente. Por isso é importante que alguém olhe dentro do ouvido antes de qualquer remoção.

A diretriz também chama atenção para quem merece cuidado redobrado: pessoas que usam anticoagulantes, que têm diabetes ou baixa imunidade, que fizeram radioterapia na cabeça e no pescoço ou que têm o canal estreito. Usuários de aparelho auditivo, crianças pequenas e pessoas que não conseguem contar o que sentem também precisam de atenção, porque a cera acumulada pode passar despercebida.

Quando procurar um médico

Procure atendimento, de preferência com um otorrinolaringologista, se você tiver:

  • sensação de ouvido entupido ou perda de audição que não melhora em alguns dias;
  • dor de ouvido, coceira intensa ou zumbido;
  • tontura ou sensação de que tudo gira;
  • secreção, pus ou sangue saindo do ouvido;
  • dor ou sangramento depois de usar cotonete ou outro objeto no ouvido.

Esses sintomas podem vir da cera ou de outras condições, como infecção ou problema no tímpano. Só o exame com o otoscópio, o aparelhinho com luz que o médico usa para olhar dentro do ouvido, mostra a diferença.

Conclusão: a melhor limpeza é a que fica do lado de fora

As 263 mil crianças do estudo americano não estavam fazendo nada de estranho. Estavam repetindo um gesto que aprenderam em casa e que parece cuidado. É justamente por isso que vale rever o hábito: a cera não é sujeira, o ouvido sabe se limpar e o cotonete, na maioria das vezes, atrapalha esse trabalho.

No dia a dia, toalha na parte de fora basta. Se a cera incomodar, amolecer com orientação pode ajudar, e a remoção de uma rolha fica com quem tem o equipamento certo para enxergar o que está fazendo.

Perguntas frequentes

Posso usar cotonete só na parte de fora da orelha?

Na orelha externa, nas dobrinhas, ele não entra no canal. O risco começa quando a haste passa da entrada do ouvido.

Cera escura é sinal de doença?

Não necessariamente. A cor e a textura variam de pessoa para pessoa. O que merece avaliação são sintomas como dor, secreção, entupimento ou perda de audição.

Lavar o ouvido em casa com seringa é seguro?

A lavagem é um procedimento que deve ser feito por profissional, depois de examinar o ouvido, porque a conduta muda quando o tímpano não está íntegro.

Criança precisa de limpeza de ouvido?

Só por fora, com a toalha. Nada de cotonete no canal. Se a criança puxa a orelha, reclama de dor ou parece ouvir menos, leve ao pediatra ou ao otorrino.

Referências

  • Schwartz SR et al. Clinical Practice Guideline (Update): Earwax (Cerumen Impaction). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2017. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Ameen ZS et al. Pediatric Cotton-Tip Applicator-Related Ear Injury Treated in United States Emergency Departments, 1990-2010. The Journal of Pediatrics, 2017. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • NHS. Earwax build-up. nhs.uk

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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