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Artigo · Notícias · 8 min de leitura

Transplante de cabeça: já foi feito? O que se sabe hoje

RaiRaisLife23 de novembro de 2017 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Centro cirúrgico vazio com microscópio cirúrgico e instrumentos

Em novembro de 2017, o neurocirurgião italiano Sergio Canavero anunciou que o ensaio final para o primeiro transplante de cabeça humano tinha dado certo. Jornais do mundo inteiro repetiram a notícia, e este blog também publicou, na época, um texto com o título "deu certo". O ensaio tinha sido feito na China, pela equipe do cirurgião chinês Ren, da Universidade Médica de Harbin.

O artigo científico saiu em 17 de novembro de 2017, na revista Surgical Neurology International. Ele descreve uma cirurgia de 18 horas feita em dois cadáveres: a cabeça de um corpo foi ligada ao outro corpo, num treino das etapas cirúrgicas. Ninguém estava vivo, e nada ali mostrava que a medula espinhal, os nervos ou o cérebro voltariam a funcionar. Passados quase nove anos, a pergunta continua aparecendo nas buscas: o transplante de cabeça já foi feito?

Resposta rápida: não. Nenhum transplante de cabeça em pessoa viva foi relatado em publicação científica até hoje. O "sucesso" de 2017 foi um ensaio em cadáveres, e estudiosos de várias áreas apontam barreiras científicas, éticas e legais que consideram intransponíveis hoje. O que avança de verdade é a pesquisa para devolver movimentos a quem tem lesão na medula espinhal.

O que foi feito, de fato, em 2017?

O próprio artigo da equipe de Ren e Canavero deixa claro o tipo de experimento. Os autores chamam o procedimento de "anastomose cefalossomática", o nome técnico para ligar uma cabeça a um corpo, e contam que fizeram um "ensaio completo" em dois cadáveres de pessoas que tinham acabado de morrer. O objetivo era testar a ordem das etapas, poupar nervos importantes do pescoço e planejar como fixar as vértebras.

Ou seja, foi um treino de técnica cirúrgica. Num cadáver não existe circulação, não existe atividade cerebral e não há como saber se uma medula cortada voltaria a conduzir sinais. Chamar isso de "deu certo" foi um exagero da época. Os autores escreveram que o ensaio confirmava a "viabilidade cirúrgica" do plano, mas essa conclusão é deles e foi contestada por outros especialistas.

Também é preciso corrigir um detalhe que circulou naquele ano: o nosso texto antigo dizia que testes elétricos haviam mostrado que as conexões entre a cabeça e o corpo funcionavam. Isso não está no artigo publicado, que trata apenas das etapas cirúrgicas.

Por que o transplante de cabeça não aconteceu?

O maior obstáculo é a medula espinhal. Ela é o "cabo" que leva os comandos do cérebro ao corpo e traz de volta as sensações. Quando ela é cortada, as fibras nervosas não se reconectam sozinhas, e é por isso que uma lesão grave na medula causa paralisia. Para um transplante de cabeça funcionar, seria preciso unir duas medulas cortadas e fazê-las conduzir sinais como antes. Canavero propôs um método para isso, com uma substância que "fundiria" as fibras, mas essa ideia nunca foi demonstrada em seres humanos.

Em 2020, dois bioeticistas chineses, Lei e Qiu, publicaram na revista Bioethics uma análise do plano de Canavero e Ren. A conclusão é dura: segundo eles, o procedimento é cientificamente inválido e tecnicamente inviável, e por isso terminaria em fracasso. No mesmo ano, um artigo na revista Turkish Neurosurgery chamou o transplante de cabeça, já no título, de "o nível máximo que a medicina ainda não alcançou", e concluiu que ele não é possível nas condições da medicina atual.

Há ainda o problema da rejeição. Num transplante, o sistema de defesa do corpo ataca o órgão que veio de outra pessoa. Aqui, seria um corpo inteiro reagindo a uma cabeça, ou o contrário. Um conjunto de artigos publicado em 2017 no International Journal of Surgery, escrito por cirurgiões, imunologistas e especialistas em ética, descreveu esses desafios como extraordinariamente complexos.

Quais são as críticas éticas ao transplante de cabeça?

Mesmo que a técnica existisse, sobrariam perguntas difíceis. A análise de Lei e Qiu lista três delas:

  • Dano ao paciente: a cirurgia traria um risco enorme de sofrimento e morte, sem chance real de benefício.
  • Quem é o beneficiado: não fica claro se quem "recebe" é a pessoa da cabeça ou a do corpo, nem quem seria a pessoa depois da cirurgia.
  • Consentimento: os autores argumentam que não é possível obter um consentimento informado válido para algo cujos riscos ninguém conhece.

Eles acrescentam que a cirurgia poderia violar leis civis e penais da China, onde o ensaio foi feito, e defendem que ela seja proibida agora e no futuro próximo. Pesquisadores da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, também publicaram em 2018 um exame das questões éticas e legais do procedimento, e até filósofos que analisam o tema pela tradição confuciana discutiram, em 2022, quem seria a pessoa depois de um transplante desses.

O que é real hoje para quem tem lesão na medula?

Enquanto o transplante de cabeça ficou no papel, a pesquisa sobre a medula espinhal avançou por outro caminho, bem menos espetacular e bem mais concreto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 15,4 milhões de pessoas viviam com lesão medular no mundo em 2021. A maioria dos casos vem de traumas, como quedas, acidentes de trânsito e violência, e por isso muitos poderiam ser evitados.

Um dos grupos mais conhecidos nessa área fica na Suíça, no instituto NeuroRestore, ligado à Escola Politécnica Federal de Lausanne e ao Hospital Universitário de Lausanne. Em 2022, a equipe publicou na Nature Medicine os resultados de três pessoas com paralisia completa das pernas que receberam um implante de estimulação elétrica sobre a medula, na região lombar. Com programas de estimulação ajustados para cada movimento, elas conseguiram ficar de pé, dar passos e pedalar já no primeiro dia, e a reabilitação melhorou essas atividades com o tempo.

Em 2023, o mesmo grupo publicou na Nature o caso de um homem com tetraplegia crônica que recebeu uma "ponte digital" entre o cérebro e a medula. Implantes leem os sinais do cérebro e comandam a estimulação da medula, e ele voltou a ficar de pé, andar e subir escadas. Depois da reabilitação, conseguiu andar com muletas mesmo com o aparelho desligado.

É preciso ler esses resultados com cuidado. São estudos experimentais, com poucos participantes, feitos em centros especializados, e os próprios autores apontam que fazem parte de pesquisas em andamento. Não são tratamentos disponíveis para todos, nem prometem que qualquer pessoa com lesão vai voltar a andar. Mas mostram uma diferença importante: aqui há pessoas reais, resultados publicados e acompanhamento ao longo do tempo.

Quando procurar um médico

Se alguém sofreu uma queda forte, um acidente ou uma pancada no pescoço ou nas costas e sente dor na coluna, formigamento, fraqueza ou perda de sensibilidade nos braços ou nas pernas, chame o SAMU pelo 192 e evite mover a pessoa. Lesões da medula precisam de atendimento de emergência.

Quem já convive com uma lesão medular e quer saber das pesquisas deve conversar com a equipe que acompanha o caso, em geral neurologista, neurocirurgião e médico de reabilitação (fisiatra). Desconfie de quem oferece "cura" ou procedimento milagroso fora de um estudo clínico registrado.

Conclusão: a notícia que não se confirmou

Em 2017, a manchete dizia que o último teste para um transplante de cabeça tinha dado certo. O que existia era um treino cirúrgico em dois cadáveres, e o passo seguinte nunca veio: até hoje não há registro científico de um transplante de cabeça em pessoa viva, e muitos estudiosos consideram a ideia inviável e antiética nas condições atuais. A história serve de lembrete para ler com calma as notícias de "primeira vez na medicina". A esperança real para quem tem lesão na medula está em pesquisas mais discretas, que mostram resultados em pessoas de carne e osso.

Perguntas frequentes

Canavero chegou a operar alguém vivo?

Não há nenhum relato científico de que a cirurgia tenha sido feita em uma pessoa viva.

Transplante de cabeça é a mesma coisa que transplante de cérebro?

Na prática, a ideia é parecida: manter a cabeça, com o cérebro, de uma pessoa e ligá-la ao corpo de outra. Nenhum dos dois existe na medicina.

Já existe cura para a lesão na medula?

Não. Existem reabilitação, cuidados para evitar complicações e pesquisas promissoras com estimulação elétrica, ainda em fase experimental.

Referências

  • Ren X, Li M, Zhao X et al. First cephalosomatic anastomosis in a human model. Surg Neurol Int, 2017. PubMed
  • Lei R, Qiu R. Impassable scientific, ethical and legal barriers to body-to-head transplantation. Bioethics, 2020. PubMed
  • Sarikaya H, Sayligil O. Head Transplantation: The Ultimate Level that Medicine has not yet Achieved. Turk Neurosurg, 2020. PubMed
  • Furr A, Hardy MA, Barret JP, Barker JH. Surgical, ethical, and psychosocial considerations in human head transplantation. Int J Surg, 2017. PubMed
  • Suskin ZD, Giordano JJ. Body-to-head transplant; a "caputal" crime? Examining the corpus of ethical and legal issues. Philos Ethics Humanit Med, 2018. PubMed
  • Bian L. Who Would the Person Be after a Head Transplant? A Confucian Reflection. J Med Philos, 2022. PubMed
  • Organização Mundial da Saúde. Spinal cord injury. who.int
  • Rowald A, Komi S, Demesmaeker R et al. Activity-dependent spinal cord neuromodulation rapidly restores trunk and leg motor functions after complete paralysis. Nat Med, 2022. PubMed
  • Lorach H, Galvez A, Spagnolo V et al. Walking naturally after spinal cord injury using a brain-spine interface. Nature, 2023. PubMed

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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