Anestesia geral é perigosa? Veja os riscos reais

Em 16 de outubro de 1846, no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, um jovem chamado Edward Gilbert Abbott foi operado diante de uma plateia. Ele tinha uma lesão na região do ângulo da mandíbula, do lado esquerdo. William Morton fez Abbott respirar vapor de éter, e a cirurgia começou. A data ficou conhecida como "Ether Day", a primeira demonstração pública da anestesia cirúrgica por inalação.
Os registros do hospital, revistos por um anestesiologista do próprio Massachusetts General em 2022, mostram que a história foi menos perfeita do que se costuma contar. Abbott não reagiu ao primeiro corte, mas se mexeu e gritou na parte final. Depois, disse que percebeu a operação, mas não sentiu dor. A anestesia daquele dia foi incompleta. Ainda assim, foi o começo da cirurgia moderna.
Daquele vapor de éter até a anestesia de hoje, quase tudo mudou. O medo, porém, continua parecido. Muita gente que vai operar, seja uma cirurgia de urgência, seja uma cirurgia plástica planejada, diz que tem mais medo de "não acordar" do que da própria cirurgia. Então, anestesia geral é perigosa?
Resposta rápida: a anestesia geral tem riscos, como qualquer ato médico, mas complicações graves são raras. Uma grande revisão de estudos mostrou que a mortalidade causada só pela anestesia caiu de cerca de 357 por milhão antes dos anos 1970 para cerca de 34 por milhão nas décadas de 1990 e 2000. O risco de cada pessoa depende sobretudo da sua saúde e do tipo de cirurgia.
O que acontece no corpo durante a anestesia geral?
A anestesia geral deixa a pessoa inconsciente durante o procedimento. Nesse estado, você não sente dor, não percebe o que está acontecendo, não se move, e os músculos ficam relaxados. É isso que permite que a equipe opere com segurança.
Existem duas formas principais de começar a anestesia:
- Pela veia: o jeito mais comum em adultos. O medicamento entra por um pequeno cateter no braço e faz efeito em poucos segundos.
- Por inalação: o paciente respira um gás anestésico por uma máscara. É mais usado em crianças ou quando é difícil encontrar uma veia.
Depois que você adormece, a anestesia costuma ser mantida com gás, com medicamento pela veia ou com os dois. Como a respiração fica mais fraca nesse estado, muitas vezes o anestesiologista coloca um tubo ou um dispositivo na garganta para ajudar a respirar. Isso é feito com você já dormindo.
Ao final, os medicamentos são suspensos ou revertidos e o paciente desperta na sala ou na recuperação, ainda sob observação.
Anestesia geral é perigosa? O que os números mostram
A resposta honesta: o risco existe, mas ficou muito menor com o tempo.
Em 2012, a revista The Lancet publicou uma revisão de 87 estudos que somavam mais de 21 milhões de anestesias gerais. A mortalidade atribuída somente à anestesia caiu de 357 por milhão antes dos anos 1970 para 52 por milhão nas décadas de 1970 e 1980, e para 34 por milhão nos anos 1990 e 2000. Isso dá mais ou menos uma morte a cada 30 mil anestesias, numa conta que inclui pacientes de todas as idades e condições de saúde. O mesmo estudo notou que a queda aconteceu apesar de os pacientes chegarem à cirurgia com saúde mais frágil do que antes.
No Brasil, uma revisão publicada em 2020 por pesquisadores da Unesp de Botucatu reuniu 11 estudos nacionais, com mais de 719 mil anestesias. A parada cardíaca relacionada à anestesia caiu de cerca de 14 para cerca de 4 a cada 10 mil anestesias quando se comparam os períodos antes de 1990 e de 1990 a 2020. As mortes ligadas à anestesia foram raras nos dois períodos.
Esses estudos separam a morte causada pela anestesia da morte que acontece no período da cirurgia por outros motivos, como a doença que levou à operação ou uma complicação do próprio procedimento. Quando se fala em "morrer na anestesia", muitas vezes a causa real está em outro ponto.
Quem tem mais risco de complicações?
O risco não é igual para todo mundo. Ele depende principalmente de três coisas:
- A sua saúde antes da cirurgia: doenças do coração, dos pulmões, dos rins ou do fígado, diabetes descontrolado, obesidade importante e apneia do sono aumentam o cuidado necessário.
- O tipo e a duração da cirurgia: uma cirurgia longa ou de urgência traz mais risco do que um procedimento curto e planejado.
- Hábitos: fumar, por exemplo, deixa os pulmões mais sensíveis. O NHS, sistema público de saúde do Reino Unido, recomenda parar de fumar antes da cirurgia, quando possível.
Quais efeitos são comuns depois de acordar?
A maioria dos efeitos da anestesia é passageira e melhora em minutos ou horas. Segundo o NHS, os mais comuns são:
- enjoo ou vômito;
- dor de garganta, causada pelo tubo usado para respirar;
- tremores e sensação de frio;
- sede e sonolência;
- dor ou roxo no local da agulha;
- confusão ou falhas de memória por um tempo.
Complicações mais sérias também podem acontecer, mas são raras: dificuldade para respirar, infecção no pulmão, lesão nos dentes ou na boca pelo tubo, lesão nos olhos ou em nervos e confusão mais prolongada, que é mais frequente em pessoas idosas. A equipe acompanha você na recuperação justamente para perceber e tratar esses problemas cedo.
Nas primeiras 24 horas, o NHS orienta não dirigir, não beber álcool, não operar máquinas e não tomar decisões importantes, porque o raciocínio ainda pode estar mais lento.
Por que o jejum e a consulta pré-anestésica são tão importantes?
A consulta pré-anestésica. No Brasil, a Resolução 2.174/2017 do Conselho Federal de Medicina determina que, fora das urgências, o anestesiologista conheça com antecedência as condições de saúde do paciente. Para cirurgias planejadas, a recomendação é que essa consulta aconteça em consultório, antes da internação. Nela, o médico pergunta sobre doenças, alergias, remédios em uso, cirurgias anteriores e reações a anestesias; pode pedir exames; e explica o plano. É a hora de falar do seu medo. A mesma resolução exige que o anestesiologista fique dentro da sala durante toda a anestesia, acompanhando o paciente.
A monitorização. Durante todo o procedimento, aparelhos acompanham batimentos do coração, pressão arterial, oxigênio no sangue e respiração. A resolução do CFM lista esses itens como condições mínimas de segurança.
O jejum. Com a anestesia, os reflexos que protegem a via aérea diminuem. Se houver comida no estômago, existe o risco de ela voltar e chegar aos pulmões. Por isso, existe um tempo de jejum antes da cirurgia. Esse tempo não é igual para tudo: as diretrizes da Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA), atualizadas em 2023, tratam de forma diferente cada tipo de líquido e alimento e trazem orientação própria para crianças. Por isso, a regra antiga do "jejum de 8 horas para todo mundo" não vale como orientação geral. Siga exatamente o que a equipe do seu hospital indicar, nem menos, nem a mais por conta própria.
Os remédios de uso contínuo. Alguns medicamentos precisam ser suspensos, outros devem ser mantidos. Isso vale, por exemplo, para remédios que afinam o sangue. Nunca pare nem mude um remédio sozinho: leve a lista completa à consulta e pergunte.
Quando procurar um médico
Antes da cirurgia, converse com o anestesiologista se você já teve reação ruim a uma anestesia, se alguém da família teve problema grave com anestesia, se tem doença do coração, do pulmão ou apneia do sono, se usa remédios contínuos ou se está grávida ou pode estar.
Depois da alta, procure atendimento se tiver falta de ar, dor no peito, febre, confusão que não melhora, vômitos que não param ou qualquer sintoma que preocupe. Na urgência, ligue 192 (SAMU). Dúvidas sobre a cirurgia devem ser levadas ao cirurgião e ao anestesiologista que acompanharam você.
Conclusão: do éter de Boston à sala monitorada de hoje
Em 1846, Abbott respirou éter diante de uma plateia, e a anestesia ainda foi incompleta. Mesmo assim, aquele dia mudou a cirurgia.
Hoje, a anestesia geral é planejada, monitorada do início ao fim e feita por um médico especializado que fica ao seu lado o tempo todo. Ela não é isenta de risco, e ninguém sério vai dizer que é. Mas os números mostram que complicações graves se tornaram raras. A melhor forma de lidar com o medo é usar a consulta pré-anestésica para contar a sua história, perguntar tudo e seguir as orientações à risca.
Perguntas frequentes
É possível não acordar da anestesia geral?
Morrer por causa da anestesia é raro. Nos estudos, a maior parte das mortes no período da cirurgia está ligada à doença do paciente ou ao próprio procedimento, não ao anestésico.
Anestesia geral faz mal para a memória?
Confusão e esquecimento passageiros podem acontecer logo depois. Quadros mais longos são mais comuns em pessoas idosas e devem ser avisados à equipe.
Quem decide o tipo de anestesia?
O anestesiologista, junto com o cirurgião e com você, considerando sua saúde e o procedimento. Em algumas cirurgias, a anestesia local ou regional, ou a sedação, pode ser uma opção.
Referências
- Bainbridge D. et al. Perioperative and anaesthetic-related mortality in developed and developing countries: a systematic review and meta-analysis. The Lancet, 2012. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22998717
- Braz LG. et al. Perioperative and anesthesia-related cardiac arrest and mortality rates in Brazil: a systematic review and proportion meta-analysis. PLoS One, 2020. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33137159
- Joshi GP. et al. 2023 American Society of Anesthesiologists Practice Guidelines for Preoperative Fasting. Anesthesiology, 2023. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36629465
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.174/2017 (prática do ato anestésico). sistemas.cfm.org.br
- NHS. General anaesthesia. nhs.uk
- American Society of Anesthesiologists. General anesthesia. madeforthismoment.asahq.org
- Firth PG. Ether Day Revisited: The Surgical Records of Edward Gilbert Abbott. Annals of Surgery Open, 2022. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37601617
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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