Rais LifeVida | Saúde | Negócios
☰
Artigo · Medicina Preventiva · 8 min de leitura

Hemograma completo: o que é e como ler o resultado

RaiRaisLife3 de outubro de 2026
Tubos de sangue com tampas coloridas e aparelho de contagem de células

Até o fim dos anos 1940, contar as células do sangue era trabalho de paciência. Um técnico de laboratório diluía uma gota de sangue, colocava numa lâmina com uma grade desenhada e contava, quadradinho por quadradinho, no microscópio. Levava tempo, e o resultado mudava bastante de uma contagem para outra.

O engenheiro americano Wallace Coulter conhecia esse problema desde as visitas que fazia a hospitais antes da Segunda Guerra. Depois das bombas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, ficou convencido de que seria preciso contar as células vermelhas de populações inteiras, de forma rápida, para acompanhar quem tinha sido exposto à radiação. Em 1947, ele e o irmão compraram uma casa em Chicago e começaram a fazer experiências no porão. Em outubro de 1948, Coulter mostrou que cada célula, ao passar por um furinho entre dois eletrodos, mudava por um instante a corrente elétrica. Bastava contar esses "pulos" para contar as células. É o chamado princípio Coulter, base dos contadores automáticos de células do sangue.

Por causa dessa ideia, o hemograma pôde ser automatizado e virou exame de rotina, e o resultado chega cheio de siglas e números. Afinal, o que ele mede e como ler o hemograma sem tirar conclusões erradas?

Resposta rápida: o hemograma completo conta e mede as células do sangue: glóbulos vermelhos (hemácias), glóbulos brancos (leucócitos) e plaquetas. Ele ajuda a investigar anemia, infecções e outras doenças. Os valores de referência mudam de um laboratório para outro, e quem interpreta o resultado é o médico, junto com os sintomas e a sua história.

O que é o hemograma completo?

É um conjunto de medidas feitas numa única amostra de sangue. Fora do Brasil ele aparece como CBC (complete blood count) ou full blood count. O laudo costuma vir dividido em três partes:

  • Eritrograma (série vermelha): as hemácias, que levam o oxigênio dos pulmões para o resto do corpo, e a hemoglobina, a proteína rica em ferro que faz esse transporte.
  • Leucograma (série branca): os leucócitos, células de defesa que combatem infecções.
  • Plaquetograma: as plaquetas, que ajudam o sangue a coagular e a parar sangramentos.

Hoje a contagem é feita por aparelhos automáticos. Quando algo foge do esperado, o laboratório pode olhar uma lâmina do sangue no microscópio para conferir a forma das células.

Para que serve o hemograma?

Ele entra no check-up de rotina e também é pedido para investigar sintomas, como cansaço, sinais de infecção, manchas roxas ou sangramentos. Serve ainda para acompanhar doenças que mexem com as células do sangue, como a doença renal crônica, e tratamentos que podem baixar essas contagens, como a quimioterapia.

Um ponto importante: o hemograma raramente dá um diagnóstico sozinho. Ele mostra que algo mudou e ajuda o médico a decidir quais exames pedir em seguida.

Precisa de jejum para fazer hemograma?

Em geral, não. O hemograma não exige preparo especial. O jejum só entra quando outros exames são colhidos no mesmo tubo ou na mesma visita, como alguns exames de glicose ou de gordura no sangue. Por isso, siga a orientação do pedido médico e do laboratório. Também ajuda contar se você usa algum remédio, porque alguns alteram o resultado.

A coleta é feita numa veia do braço, leva poucos minutos e o risco é muito baixo. Pode doer um pouco ou ficar uma pequena mancha roxa no local, que costuma passar rápido.

Como ler o hemograma: a série vermelha

Esta é a parte que mais gera dúvida. Os itens mais comuns são:

  • Hemácias (eritrócitos): a quantidade de glóbulos vermelhos, em milhões por microlitro.
  • Hemoglobina: quanto dessa proteína existe no sangue, em gramas por decilitro (g/dL). É o número mais usado para falar em anemia.
  • Hematócrito: a porcentagem do volume do sangue ocupada pelas hemácias.
  • VCM (volume corpuscular médio): o tamanho médio das hemácias. Ajuda a separar tipos de anemia, com células menores ou maiores que o normal.
  • HCM e CHCM: a quantidade e a concentração média de hemoglobina dentro de cada hemácia.
  • RDW: mostra o quanto as hemácias variam de tamanho entre si. É útil para investigar a causa de uma anemia e doenças como a talassemia.

Só para dar uma ideia, a MedlinePlus, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, cita como faixas comuns em adultos uma hemoglobina de 13 a 18 g/dL em homens e de 12 a 16 g/dL em mulheres, e um VCM de 80 a 100 fL. Ela mesma avisa que esses números variam entre laboratórios e até com a altitude. Vale o valor de referência impresso no seu laudo, que leva em conta o método do laboratório, a idade e o sexo.

Hemoglobina e hematócrito baixos costumam indicar anemia. O Ministério da Saúde descreve a anemia como a hemoglobina abaixo do normal e estima que cerca de 90% dos casos venham da falta de ferro. Mas existem outras causas: perda de sangue, menstruação muito intensa por muito tempo, falta de vitamina B12 ou de folato, doenças crônicas e problemas na medula óssea, onde o sangue é produzido. Já valores altos podem aparecer com tabagismo, uso de testosterona, morar em lugares de grande altitude e algumas doenças do coração, do pulmão ou do próprio sangue.

Como ler o hemograma: leucócitos e plaquetas

Os leucócitos aparecem como um total (uma faixa comum citada pela MedlinePlus é de 4.500 a 11.000 por microlitro) e, no hemograma com diferencial, divididos em cinco tipos: neutrófilos, linfócitos, monócitos, eosinófilos e basófilos. Cada tipo tem uma função na defesa do corpo, por isso o laudo traz a porcentagem e o número absoluto de cada um.

Leucócitos altos, a leucocitose, são comuns em infecções. Podem aparecer ainda com estresse físico ou emocional intenso, uso de corticoides, queimaduras e doenças inflamatórias. Leucócitos baixos, a leucopenia, podem vir de infecções por vírus, de alguns remédios, de doenças autoimunes ou de problemas na medula. Um detalhe que confunde: como o diferencial é uma porcentagem, quando um tipo sobe muito, os outros parecem cair, mesmo sem ter mudado de fato. Por isso o número absoluto também importa.

As plaquetas costumam ficar, em adultos, entre 150 mil e 400 mil por microlitro, sempre lembrando que a faixa varia entre laboratórios. Plaquetas baixas podem causar sangramento que demora a parar, sangramento no nariz, manchas roxas sem pancada e pontinhos vermelhos na pele. Plaquetas altas podem aparecer depois de um sangramento, na falta de ferro, em alguns cânceres e em doenças do sangue.

Resultado fora da faixa é sinal de doença?

Nem sempre. A MedlinePlus lembra que um valor fora da faixa nem sempre significa uma doença que precise de tratamento. Alimentação, atividade física, menstruação, pouca água, remédios e até a altitude mexem nos números. Um asterisco no laudo é um convite para conversar com o médico, não um diagnóstico.

O que o médico observa é o conjunto: quais itens mudaram juntos, quanto mudaram, se há sintomas e como estavam os exames anteriores. Guardar os resultados antigos ajuda bastante nessa comparação. E se o hemograma vier alterado, ele pode pedir outros exames, como a dosagem do ferro, da vitamina B12 ou a análise da lâmina de sangue.

Quando procurar um médico

Leve o resultado ao médico que pediu o exame, mesmo que tudo pareça normal. Procure atendimento logo se o hemograma veio alterado e você tem febre persistente, cansaço forte, falta de ar, palidez, manchas roxas ou pontinhos vermelhos na pele sem motivo, ou sangramentos que demoram a parar.

Vá ao pronto-socorro ou ligue para o SAMU 192 em caso de sangramento intenso que não para, sangue no vômito ou fezes pretas, desmaio, falta de ar forte ou dor no peito. Para o acompanhamento, o clínico geral ou o médico de família costuma ser o primeiro passo; alterações que precisam de investigação mais detalhada são encaminhadas ao hematologista, o especialista em doenças do sangue.

Conclusão: um exame rápido que pede uma leitura calma

Wallace Coulter queria um jeito de contar células de muita gente, depressa e com precisão. Conseguiu, e por isso o hemograma é feito hoje de forma rápida e automática. A rapidez, porém, não muda o essencial: são números que só fazem sentido ao lado da sua história, dos seus sintomas e dos seus exames anteriores.

Entender o que significa cada linha do laudo ajuda você a chegar à consulta com perguntas melhores. A interpretação, essa, continua sendo do médico.

Perguntas frequentes

Hemograma detecta câncer?

Ele pode mostrar alterações que levantam a suspeita de alguns cânceres do sangue, como leucemias, mas não confirma nem descarta câncer sozinho. O diagnóstico depende de outros exames.

Hemograma mostra falta de ferro?

Ele pode sugerir, com hemoglobina baixa e hemácias pequenas, mas a confirmação vem de exames específicos do ferro, pedidos pelo médico.

Quanto tempo demora o resultado?

O prazo varia conforme o laboratório. Pergunte na hora da coleta quando o laudo fica pronto.

Hemograma alterado em um exame só já é motivo de preocupação?

Uma alteração pequena e isolada muitas vezes é repetida ou acompanhada antes de qualquer conclusão. Quem decide é o médico, olhando o conjunto.

Para ler mais no RaisLife: quem pode doar sangue e como funciona a doação, prevenção e diagnóstico precoce do câncer e se existe exame de sangue para diagnosticar autismo.

Referências

  • MedlinePlus (National Library of Medicine). Complete Blood Count (CBC). medlineplus.gov
  • MedlinePlus Medical Encyclopedia. CBC blood test (valores de referência e causas de alteração). medlineplus.gov
  • MedlinePlus Medical Encyclopedia. Blood differential test. medlineplus.gov
  • MedlinePlus. RDW (Red Cell Distribution Width). medlineplus.gov
  • MedlinePlus. Platelet Tests. medlineplus.gov
  • NHS. Blood tests. nhs.uk
  • NHS. Iron deficiency anaemia. nhs.uk
  • Ministério da Saúde, Biblioteca Virtual em Saúde. Anemia. bvsms.saude.gov.br
  • Graham MD. The Coulter principle: imaginary origins. Cytometry A, 2013. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  • Green R, Wachsmann-Hogiu S. Development, history, and future of automated cell counters. Clin Lab Med, 2015. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

Compartilhar:WhatsAppFacebook

Comentários

Participe da conversa: conte o que achou ou deixe sua pergunta.

Os comentários passam por revisão antes de aparecer.

Leia também

Tubo de coleta de sangue em uma estante de laboratório
Artigo · Medicina Preventiva

TSH alto? Entenda o exame de tireoide

Em 1891, o médico George Murray relatou algo que parecia ousado: injetou extrato da tireoide de carneiros numa mulher com mixedema, o…

Sua privacidade, suas escolhas

O RaisLife usa cookies necessários para funcionar e, se você permitir, cookies de estatística e de marketing (anúncios, e-mail e notificações). Você pode mudar isso quando quiser. Política de Privacidade