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Artigo · Doar Sangue · 8 min de leitura

Doação de sangue e órgãos: quem pode doar

RaiRaisLife22 de abril de 2015 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Coração feito de contas vermelhas ligado a uma bolsa de sangue

Em 26 de maio de 1968, no Hospital das Clínicas de São Paulo, a equipe do cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini fez o primeiro transplante de coração do Brasil. O paciente era João Ferreira da Cunha, um boiadeiro de Mato Grosso de 23 anos, que ficou conhecido como "João Boiadeiro". O Brasil se tornava o sexto país do mundo a realizar a cirurgia, depois de África do Sul, Estados Unidos, Índia, França e Reino Unido.

João morreu no 28º dia depois da operação: o corpo dele reagiu contra o órgão, a rejeição. Mesmo assim, aquele dia mudou a medicina brasileira, e cada um desses procedimentos começa do mesmo jeito que começou em 1968: com a decisão de alguém, ou de uma família, de doar.

O mesmo vale para o sangue que abastece cirurgias, partos e tratamentos de câncer todos os dias. Quem pode doar? Com que frequência? E como a doação de órgãos funciona de verdade no Brasil? É isso que este guia explica.

Resposta rápida: pode doar sangue quem tem entre 16 e 69 anos, pesa pelo menos 50 kg e está bem de saúde. Homens doam a cada 60 dias e mulheres a cada 90. Para doar órgãos após a morte, a lei exige a autorização da família, por isso o passo mais importante é avisar seus parentes da sua vontade.

Quem pode doar sangue?

Os critérios básicos do Ministério da Saúde são poucos e fáceis de conferir:

  • Idade: de 16 a 69 anos, 11 meses e 29 dias. Menores de 18 precisam da autorização do responsável legal. Quem tem entre 60 e 69 anos só pode doar se já tiver feito a primeira doação antes dos 60.
  • Peso: no mínimo 50 kg.
  • Documento: um documento oficial com foto, que pode ser a versão digital.
  • Descanso: ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24.
  • Alimentação: não vá em jejum. Evite comida gordurosa nas 3 horas antes; depois do almoço, espere 2 horas.

Na chegada ao hemocentro, todo candidato passa por uma triagem clínica, com entrevista sobre saúde e hábitos. Essa conversa protege duas pessoas ao mesmo tempo, quem doa e quem vai receber, e por isso a sinceridade nas respostas é parte da doação.

De quanto em quanto tempo posso doar?

O intervalo mínimo é de 60 dias para homens, com até 4 doações em 12 meses, e de 90 dias para mulheres, com até 3 doações em 12 meses. A diferença existe porque o corpo feminino costuma ter reservas menores de ferro, e esse tempo dá margem para o organismo repor o que saiu.

No laboratório, o sangue doado é separado em quatro partes: concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas, plasma fresco congelado e crioprecipitado. Cada parte tem um uso diferente no tratamento de pacientes. Segundo o Ministério da Saúde, a doação regular é o que garante sangue disponível o ano todo, e não só em época de campanha.

O que impede a doação, por um tempo ou de vez?

Muitos impedimentos são temporários, ou seja, basta esperar o prazo certo. Alguns exemplos usados pelos hemocentros:

  • resfriado ou gripe: aguardar 7 dias depois que os sintomas passarem;
  • bebida alcoólica nas 12 horas anteriores;
  • tatuagem nos últimos 12 meses;
  • gravidez; depois do parto, 90 dias para parto normal e 180 dias para cesariana;
  • amamentação, se o parto foi há menos de 12 meses.

Outras situações podem impedir a doação de forma definitiva, como hepatite depois dos 11 anos de idade e infecções transmissíveis pelo sangue, entre elas hepatites B e C, HIV, HTLV e doença de Chagas. A lista completa é longa e muda com as normas, então a regra prática é simples: na dúvida, ligue para o hemocentro ou pergunte na triagem antes de desistir.

Doar sangue faz bem para quem doa?

A ideia de que doar sangue "faz bem à saúde" é antiga e aparecia até nos primeiros textos aqui do blog. Vale ajustar o tom. Os critérios de triagem existem justamente para que a doação seja segura para quem doa e para quem recebe.

Doar não substitui consultas nem exames de rotina, e o hemocentro não é lugar para "fazer o teste": a sinceridade na entrevista é o que protege quem vai receber o sangue. O benefício principal da doação é para quem recebe. E o sentimento de ter ajudado alguém, que muitos doadores descrevem, já é motivo de sobra.

Como funciona a doação de medula óssea?

A medula óssea é o tecido, dentro dos ossos, que fabrica as células do sangue. Pacientes com leucemias, anemia aplástica, linfomas e outras doenças das células do sangue podem precisar de um transplante, e o doador precisa ser compatível. Encontrar um doador compatível é difícil, e é mais fácil achá-lo na população de origem do paciente, por isso o cadastro de muitos voluntários faz diferença.

É por isso que existe o REDOME, o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea, ligado ao INCA. Pode se cadastrar quem tem entre 18 e 35 anos, está bem de saúde e não tem doença infecciosa transmissível pelo sangue. O cadastro é feito num hemocentro, com um documento com foto e a coleta de 5 mL de sangue para o exame de compatibilidade (HLA). Depois, a pessoa fica no registro até os 60 anos e pode ser chamada a qualquer momento. Por isso, manter telefone e endereço atualizados é tão importante quanto se cadastrar.

Como funciona a doação de órgãos no Brasil?

A doação de órgãos e tecidos é regida pela Lei 9.434/1997 e organizada pelo Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde. Os órgãos de doador falecido vêm de pessoas com morte encefálica: a perda completa e irreversível das funções do cérebro, confirmada por protocolo médico.

Segundo o Ministério da Saúde, podem ser doados rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino, além de córneas, valvas cardíacas, pele, ossos e tendões. Quem recebe é definido pela lista única de espera do Sistema Nacional de Transplantes, e a doação é sempre gratuita. Comprar ou vender órgãos é crime, com pena de 3 a 8 anos de prisão.

Por que a família decide?

Desde a Lei 10.211/2001, a retirada de órgãos de uma pessoa falecida depende da autorização do cônjuge ou de um parente maior de idade, até o segundo grau (pais, filhos, irmãos, avós e netos), em documento assinado por duas testemunhas. A anotação "doador de órgãos" que existia em RG e CNH perdeu a validade desde 22 de dezembro de 2000.

Na prática, isso coloca a decisão num dos piores momentos da vida de uma família. Muitas recusas acontecem porque os parentes não sabiam o que a pessoa queria. A forma mais eficaz de garantir sua vontade continua sendo conversar com a família em vida, com clareza.

Desde abril de 2024 existe também a AEDO, a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, criada pelo Conselho Nacional de Justiça com os cartórios e o Sistema Nacional de Transplantes. É gratuita, feita pelo site da AEDO e confirmada em videoconferência com um tabelião, e fica disponível para consulta pelos responsáveis do Sistema Nacional de Transplantes. Ela registra sua vontade de forma oficial e ajuda a família na hora da conversa, mas não dispensa que você também avise seus parentes.

E a doação em vida?

Uma pessoa viva e juridicamente capaz pode doar, de graça, um dos rins, parte do fígado e medula óssea, entre outros. A lei só permite doar órgãos duplos ou partes de órgãos e tecidos cuja retirada não traga risco à vida nem grave comprometimento da saúde do doador. A doação pode ser para o cônjuge ou parentes consanguíneos até o quarto grau; para outras pessoas, só com autorização judicial, exceto no caso da medula óssea.

Quando procurar um médico

Se você tem uma doença crônica, usa remédios contínuos, passou por cirurgia recente ou tem dúvidas se algum problema de saúde impede a doação, converse com o seu médico ou com a equipe do hemocentro antes de ir. Se você ou alguém da família está na fila de um transplante, o acompanhamento deve ser feito pela equipe especializada do centro transplantador. E se, depois de doar sangue, sentir tontura que não passa, mal-estar ou sangramento no local da agulha, procure atendimento e avise o hemocentro.

Conclusão: tudo começa com uma decisão

João Boiadeiro viveu menos de um mês com o coração que recebeu em 1968. O que não mudou desde então é o ponto de partida: nada disso acontece sem doadores.

Doar sangue pode ser repetido até 3 ou 4 vezes por ano. Ser doador de órgãos depende de uma conversa em casa. Procure o hemocentro da sua cidade, tire suas dúvidas e, se decidir doar, conte para quem você ama.

Perguntas frequentes

Quem tem tatuagem pode doar sangue?

Pode, depois de 12 meses da tatuagem, se não houver outro impedimento.

Preciso estar em jejum para doar sangue?

Não. O recomendado é estar alimentado e evitar só comidas gordurosas nas 3 horas antes.

Escrever "doador de órgãos" no documento ainda vale?

Não. A anotação perdeu a validade em dezembro de 2000; a decisão é da família. A AEDO registra sua vontade, mas o mais importante é avisar seus parentes.

Até que idade posso me cadastrar como doador de medula?

O cadastro no REDOME é para quem tem de 18 a 35 anos. Quem já está cadastrado pode ser chamado até os 60.

Referências

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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