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Artigo · Saúde de A-Z · 6 min de leitura

Quem trabalha com radiologia morre cedo?

RaiRaisLife9 de maio de 2019 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Avental de chumbo pendurado na porta de uma sala de raio-X

Em 1896, poucos meses depois da descoberta do raio-X, Clarence Dally, soprador de vidro que já trabalhava para Thomas Edison, foi escalado para uma nova missão: testar os novos tubos de raio-X. E o jeito de testar era simples: colocar as próprias mãos na frente do aparelho, dia após dia, para ver se a imagem aparecia.

Ninguém sabia que aquilo fazia mal. As mãos de Dally começaram a ganhar feridas que não cicatrizavam, depois vieram as cirurgias e as amputações. Em 1904, ele morreu de câncer, aos 39 anos. É considerado a primeira morte nos Estados Unidos atribuída à radiação. Edison, abalado, abandonou as pesquisas com raio-X.

Histórias como a de Dally criaram uma fama que atravessou mais de um século: "quem trabalha com radiologia morre cedo". Mas será que isso ainda vale para o técnico, o tecnólogo ou o médico que trabalha hoje numa sala de raio-X? A resposta mudou muito, e entender por que ajuda a separar o medo da informação.

Resposta rápida: não há evidência de que profissionais de radiologia que seguem as normas de proteção atuais vivam menos. O risco elevado ficou registrado entre quem trabalhou nas primeiras décadas do raio-X, sem limites de dose nem equipamentos de proteção.

Do laboratório sem proteção à sala blindada

Nas primeiras décadas do raio-X, médicos e técnicos ficavam ao lado do paciente durante o exame, usavam o próprio corpo para calibrar os aparelhos e passavam anos expostos sem nenhuma medição. Lesões de pele, leucemias e outros cânceres apareceram com frequência nesse grupo.

Foi justamente esse preço alto que deu origem à proteção radiológica: limites de dose, paredes com chumbo, aventais, cabines de comando e o controle individual da radiação recebida. Ao mesmo tempo, os equipamentos evoluíram e passaram a gerar a mesma imagem com doses muito menores.

E os números acompanham essa mudança. Um grande estudo com mais de 43 mil médicos radiologistas dos Estados Unidos, comparados a psiquiatras, encontrou excesso de mortes por alguns cânceres, como a leucemia, entre os que se formaram antes de 1940. Entre os formados depois, quando a proteção virou regra, não apareceu aumento de mortes ligado à radiação. Estudos com técnicos americanos seguem a mesma linha: os riscos maiores ficaram com quem trabalhou antes de 1950 ou em procedimentos sem proteção adequada.

O que a radiação pode fazer, e em que dose?

A radiação usada nos exames de imagem é chamada de ionizante: em doses altas, ela pode danificar as células. O tamanho do efeito depende de três fatores: quanto de radiação o corpo absorveu, por quanto tempo (uma exposição pontual ou repetida por anos) e onde (o corpo inteiro ou só uma parte).

Os riscos mais lembrados são o câncer, sobretudo leucemia e câncer de tireoide em exposições altas e repetidas, e problemas de fertilidade, que só aparecem com doses muito acima das permitidas no trabalho. Hoje existe ainda uma atenção especial aos olhos: quem trabalha com fluoroscopia e procedimentos intervencionistas, como a hemodinâmica, pode acumular radiação no cristalino e desenvolver catarata. Por isso há um limite de dose próprio para os olhos e o uso de óculos plumbíferos.

A boa notícia é que, dentro dos limites atuais, esses efeitos são raros entre os profissionais.

"Insalubre" não quer dizer "condenado"

No Brasil, a radiologia é considerada atividade insalubre. É por isso que o técnico em radiologia tem jornada reduzida, de 24 horas semanais, e a lei prevê um adicional de 40% por risco de vida e insalubridade (Lei 7.394/1985). Insalubre significa que existe um agente de risco no ambiente e que, por isso, o trabalho precisa de regras e de proteção. Não significa que o profissional vai adoecer.

O que protege quem trabalha com radiologia hoje

A segurança de quem está na sala de exames se apoia em algumas camadas que funcionam juntas:

  • Dosímetro e limite de dose: cada profissional usa um dosímetro individual. A norma da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) fixa o limite de 20 mSv por ano (média de 5 anos, sem passar de 50 mSv em um único ano). Se a leitura sobe, a causa é investigada.
  • Equipamentos de proteção: avental e protetor de tireoide com chumbo sempre que o profissional não estiver atrás de uma barreira ou na cabine de comando.
  • Sala adequada: blindagem nas paredes e portas, sinalização e aparelhos com manutenção em dia, conforme a RDC Anvisa 611/2022, com fiscalização da vigilância sanitária.
  • Exames periódicos: acompanhamento de saúde definido no PCMSO (NR 7) pelo médico do trabalho, incluindo exames como o hemograma.
  • Gestação: com a gravidez confirmada, a trabalhadora deve ser afastada das atividades com radiação e remanejada para outra função compatível (NR 32). O ideal é avisar o serviço assim que souber.

Quando procurar um médico

Se você trabalha com radiação e a leitura do seu dosímetro veio acima do esperado, se notou alterações nos exames periódicos ou tem dúvidas sobre gestação e trabalho, procure o médico do trabalho do seu serviço. Para sintomas ou doenças já diagnosticadas, o acompanhamento deve ser feito com um médico especialista na área.

Conclusão: a fama ficou no passado, o cuidado não pode ficar

Clarence Dally pagou com a vida por um risco que ninguém conhecia. Mais de cem anos depois, é exatamente o que aprendemos com casos como o dele que mantém seguros os profissionais de hoje. A frase "quem trabalha com radiologia morre cedo" descreve uma época sem proteção, não a rotina de quem segue as normas atuais.

O recado é de equilíbrio: a radiação continua exigindo respeito, e a segurança depende de usar o dosímetro, vestir a proteção, cobrar a manutenção dos aparelhos e fazer os exames periódicos. Com isso, é possível exercer a radiologia por uma carreira inteira com segurança, mantendo a dose dentro dos limites das normas.

Perguntas frequentes

Técnico em radiologia tem mais chance de ter câncer?

Com as normas de proteção atuais, os estudos não mostram aumento importante. O risco cresce quando os limites de dose não são respeitados.

Quem faz raio-X com frequência, como paciente, corre risco?

Os exames usam doses baixas e são pedidos quando o benefício é maior que o risco. Se você faz muitos exames, vale conversar com seu médico sobre a necessidade de cada um.

O avental de chumbo protege totalmente?

Ele reduz muito a radiação que chega às áreas cobertas e é usado junto com distância, barreiras e tempo de exposição curto.

Referências

  • Berrington de González A. et al. Long-term Mortality in 43 763 U.S. Radiologists Compared with 64 990 U.S. Psychiatrists. Radiology, 2016. pubs.rsna.org
  • CNEN. Norma NN 3.01: Diretrizes Básicas de Proteção Radiológica. gov.br/cnen
  • Brasil. Lei nº 7.394/1985. planalto.gov.br
  • Ministério do Trabalho. NR 32: Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde.

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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