Tipos de dor de cabeça e quando é urgência

Na manhã de 11 de fevereiro de 2011, a atriz britânica Emilia Clarke, que tinha acabado de gravar a primeira temporada de "Game of Thrones", estava numa academia em Crouch End, no norte de Londres quando sentiu uma dor de cabeça chegando. Ela se forçou a começar o treino. Na hora da prancha, contou mais tarde, sentiu como se um elástico apertasse o cérebro. Foi quase engatinhando até o vestiário e vomitou muito, enquanto a dor piorava.
No hospital, a ressonância mostrou uma hemorragia subaracnóidea: o sangramento de um aneurisma, uma dilatação numa artéria do cérebro que se rompeu. Ela tinha 24 anos e precisou de cirurgia de urgência. Anos depois, descreveu tudo num relato publicado pela revista The New Yorker.
Casos assim são raros. A imensa maioria das dores de cabeça não tem nada de perigoso. Mas a história de Emilia mostra por que vale a pena conhecer os tipos de dor de cabeça e saber reconhecer quando uma dor de cabeça forte pede socorro imediato.
Resposta rápida: os tipos mais comuns são a dor de cabeça tensional, a enxaqueca, a cefaleia em salvas e a dor causada pelo excesso de analgésicos. Quase sempre não são graves. Dor súbita e explosiva, "a pior da vida", dor com febre e nuca dura ou com fraqueza, fala enrolada ou confusão é urgência: ligue para o SAMU 192.
Quantos tipos de dor de cabeça existem?
Muitos. A Classificação Internacional das Cefaleias (cefaleia é o nome médico da dor de cabeça), cuja edição atual foi traduzida para o português pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, descreve dezenas de tipos e subtipos. Para o dia a dia, a divisão que mais importa é entre dois grandes grupos.
As cefaleias primárias são aquelas em que a dor é o próprio problema. Não existe uma doença por trás: é o caso da enxaqueca, da dor tensional e da cefaleia em salvas. Já as cefaleias secundárias são um sintoma de outra condição, como gripe, sinusite, uma pancada na cabeça, o uso exagerado de remédios para dor ou, bem mais raramente, um problema sério no cérebro.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de dor de cabeça atingem cerca de 40% da população mundial, algo como 3,1 bilhões de pessoas em 2021, e são mais frequentes nas mulheres. A enxaqueca aparece como a terceira maior causa de anos de vida ajustados por incapacidade (uma medida que soma mortes precoces e anos vividos com limitação) no mundo, atrás do AVC e de um problema neurológico grave dos recém-nascidos. Mesmo assim, só uma minoria recebe diagnóstico e acompanhamento adequados.
Como é cada tipo de dor de cabeça?
Cada tipo tem um jeito próprio de doer. Conhecer as diferenças ajuda a descrever a dor na consulta.
Dor de cabeça tensional
É a mais comum. A pessoa sente pressão ou aperto, muitas vezes como uma faixa em volta da cabeça, que pode descer para a nuca ou vir dela. Costuma estar ligada a estresse ou a tensão nos músculos do pescoço. A OMS descreve que, em algumas populações, mais de 70% das pessoas relatam crises ocasionais. Elas duram algumas horas, às vezes alguns dias. Quando a dor aparece em 15 dias ou mais por mês, passa a ser chamada de crônica e atrapalha bem mais a vida.
Enxaqueca
A enxaqueca, que os médicos também chamam de migrânea, vem em crises que duram de 4 a 72 horas. A dor costuma ser moderada ou forte, latejante, muitas vezes de um lado só ou atrás do olho, e piora com atividades simples, como subir uma escada. Junto com ela vêm náusea, vômito e incômodo com luz e barulho.
Algumas pessoas têm aura antes da dor: sintomas passageiros, como pontos brilhantes, linhas em zigue-zague, falhas na visão ou formigamento. A enxaqueca é mais comum nas mulheres, provavelmente por influência dos hormônios, e pode ser desencadeada por álcool, sono desregulado e alguns alimentos.
Cefaleia em salvas
É rara, atinge menos de 1 em cada 1.000 adultos, e é bem mais comum nos homens, numa proporção de seis para cada mulher. A dor é muito intensa, fica dentro ou em volta de um olho e vem em crises curtas que podem se repetir várias vezes ao dia. Do mesmo lado da dor, o olho fica vermelho e lacrimeja, o nariz escorre ou entope e a pálpebra pode cair. O nome vem do jeito como as crises aparecem: em períodos, as "salvas", que podem durar semanas ou meses.
Dor de cabeça por excesso de analgésicos
Parece contraditório, mas o remédio usado para aliviar a dor pode, quando tomado em excesso, mantê-la. A OMS aponta esta como a dor de cabeça secundária mais comum, podendo atingir até 5% da população em alguns lugares, mais as mulheres. Ela aparece em quem já tinha dor de cabeça e passou a tomar remédio para dor com muita frequência. Pela classificação internacional, o quadro é considerado quando a dor ocorre em 15 dias ou mais por mês e o uso de remédios para a crise acontece em 10 ou 15 dias por mês (depende do tipo de medicamento) por mais de três meses. É uma dor opressiva, presente na maior parte dos dias e muitas vezes pior ao acordar.
O recado é simples: se você está tomando remédio para dor de cabeça várias vezes por semana, isso já é motivo para conversar com um médico, e não para aumentar a quantidade por conta própria. Já falamos aqui no RaisLife sobre os cuidados no uso correto de medicamentos.
Quais são as causas mais comuns de dor de cabeça?
Na maior parte das vezes, a dor de cabeça tem um motivo do cotidiano. O serviço público de saúde do Reino Unido, o NHS, lista entre as causas mais comuns:
- gripe e resfriado;
- estresse;
- bebida alcoólica em excesso;
- postura ruim e problemas de visão;
- pular refeições e beber pouca água;
- remédios para dor tomados demais;
- menstruação e menopausa, pela mudança dos hormônios.
Infecções com febre também costumam vir com dor de cabeça forte. Na dengue, por exemplo, ela é um dos sintomas mais típicos, junto com dor atrás dos olhos e no corpo. Veja quais são os sintomas e sinais de alarme da dengue.
Uma dica que a OMS e o NHS recomendam é manter um diário da dor de cabeça: anotar o dia, a hora, quanto tempo durou, o que você estava fazendo, o que comeu, como dormiu e se tomou algum remédio. Em poucas semanas, esse caderno costuma revelar gatilhos que passam despercebidos e ajuda muito na consulta. A OMS também cita hábitos simples, como moderar o álcool, manter horários regulares de sono, praticar exercícios, comer bem e se hidratar.
Dor de cabeça forte: o que pode ser e quando é urgência?
Dor forte nem sempre é sinal de doença grave. Uma crise de enxaqueca ou de cefaleia em salvas pode doer muito e, ainda assim, não colocar a vida em risco. O que muda tudo é o jeito como a dor aparece e o que vem junto com ela.
O sinal mais conhecido é a chamada cefaleia em trovoada: uma dor de cabeça muito forte que chega ao máximo em menos de um minuto, como uma explosão. É a "pior dor de cabeça da vida". A classificação internacional alerta que esse tipo de dor está frequentemente associado a problemas graves nos vasos do cérebro, principalmente a hemorragia subaracnóidea, como a de Emilia Clarke, e que é obrigatório investigar com exames.
Ligue para o SAMU 192 ou vá ao pronto-socorro se a dor de cabeça vier com qualquer um destes sinais:
- começou de repente e é extremamente forte;
- febre alta, nuca dura ou incômodo forte com a luz;
- manchas na pele que não desaparecem quando você passa um copo de vidro sobre elas;
- fraqueza ou dormência no rosto, num braço ou numa perna;
- dificuldade para falar, andar, se equilibrar ou lembrar das coisas;
- sonolência ou confusão;
- perda da visão;
- convulsão;
- pancada na cabeça nos últimos três meses.
Nessas situações, não dirija até o hospital. Peça para alguém levar você ou chame a ambulância.
Quando procurar um médico
Fora dos casos de emergência, há sinais que pedem uma consulta em breve, no mesmo dia ou nos dias seguintes:
- dor de cabeça com alteração na visão;
- dor que aparece ou piora ao tossir, espirrar, abaixar ou fazer esforço;
- dor de cabeça com vômitos;
- criança com dor que vai piorando ou que a acorda à noite;
- dor na mandíbula ao mastigar ou couro cabeludo dolorido;
- dor que não melhora ou piora mesmo com os cuidados de sempre;
- dores de cabeça frequentes, ou necessidade de remédio para dor várias vezes por semana.
O primeiro passo pode ser o clínico geral ou o médico de família, inclusive na Unidade Básica de Saúde. Se a dor for frequente, mudar de padrão ou não melhorar com o acompanhamento inicial, o especialista indicado é o neurologista.
Conclusão: conhecer a dor para saber quando correr
Emilia Clarke sabia, de alguma forma, que aquela não era uma dor de cabeça comum. A dor chegou forte, veio com vômito e foi piorando, e por sorte ela foi levada rapidamente ao hospital. O caso dela mostra que alguns sinais não podem esperar.
Para a maioria das pessoas, a dor de cabeça vai continuar sendo tensional ou enxaqueca, chata e às vezes incapacitante, mas sem risco de vida. Entender o próprio padrão e procurar ajuda quando as crises ficam frequentes faz diferença. Já a dor súbita e explosiva, ou a dor com febre e nuca dura, ou com sinais neurológicos, é caso de SAMU 192.
Perguntas frequentes
Dor de cabeça todo dia é normal?
Não deve ser encarada como normal. Dor de cabeça na maior parte dos dias pode ser uma dor crônica ou estar ligada ao excesso de analgésicos, e merece avaliação médica.
Qual a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça comum?
A enxaqueca vem em crises de horas a dias, costuma latejar, piora com esforço e vem com náusea e incômodo com luz e barulho. A dor tensional é mais um aperto, sem esses sintomas.
Dor de cabeça forte pode ser AVC?
Pode, principalmente quando é súbita e explosiva ou vem com fraqueza, fala enrolada, perda de visão ou confusão. Nesses casos, ligue imediatamente para o SAMU 192.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Migraine and other headache disorders (fact sheet). who.int
- Sociedade Brasileira de Cefaleia. Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição (ICHD-3), tradução para o português. sbcefaleia.com.br
- NHS (Reino Unido). Headaches. nhs.uk
- NHS (Reino Unido). Migraine. nhs.uk
- NHS (Reino Unido). Cluster headaches. nhs.uk
- Clarke E. A Battle for My Life. The New Yorker, 2019. newyorker.com
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
Comentários
Leia também

Insônia: o que fazer e como ter higiene do sono
Em 1966, a revista Archives of General Psychiatry publicou um relato curioso. Os pesquisadores George Gulevich, William Dement e Laverne Johnson descreveram…

Hemograma completo: o que é e como ler o resultado
Até o fim dos anos 1940, contar as células do sangue era trabalho de paciência. Um técnico de laboratório diluía uma gota…

Dor no peito: quando pode ser infarto
Emergência: dor, aperto ou peso no peito que não passa em poucos minutos, principalmente se espalhar para braço, costas, pescoço ou mandíbula,…

Glicemia em jejum normal e hemoglobina glicada
Nos anos 1960, o bioquímico Samuel Rahbar estava fazendo um trabalho de rotina: analisar amostras de sangue em busca de variantes raras…