Dor no peito: quando pode ser infarto

Emergência: dor, aperto ou peso no peito que não passa em poucos minutos, principalmente se espalhar para braço, costas, pescoço ou mandíbula, ou vier com suor frio, falta de ar, enjoo ou sensação de desmaio, pode ser infarto. Ligue 192 (SAMU) agora e não vá dirigindo sozinho ao hospital.
Em julho de 1991, a médica americana Bernadine Healy, que naquele ano estava à frente dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), publicou um editorial curto no New England Journal of Medicine com um título curioso: "A síndrome de Yentl".
Healy comentava dois estudos publicados na mesma edição da revista. Eles mostravam que mulheres internadas por doença das coronárias passavam por menos exames e procedimentos que os homens, inclusive quando o diagnóstico era infarto.
Mais de trinta anos depois, a lição continua valendo para qualquer pessoa: o infarto nem sempre chega do jeito dos filmes, com a mão no peito e a queda dramática. Então, quando uma dor no peito pode ser infarto, e o que fazer nos primeiros minutos?
Resposta rápida: a maioria das dores no peito não vem do coração, mas não dá para ter certeza em casa. Dor ou aperto no peito que dura mais que alguns minutos, ou que vem com falta de ar, suor frio, enjoo, palidez ou tontura, deve ser tratada como emergência: ligue 192 e aguarde a ajuda em repouso.
O que acontece no coração durante um infarto?
O coração é um músculo que trabalha sem parar e recebe sangue por artérias próprias, as coronárias. O infarto agudo do miocárdio, também chamado de ataque cardíaco, acontece quando o fluxo de sangue por uma dessas artérias fica bloqueado. É uma emergência que precisa de tratamento no hospital.
É por isso que o tempo pesa tanto. Segundo o Ministério da Saúde, o atendimento de urgência nos primeiros minutos é decisivo para diminuir o risco de morte. No hospital, o tratamento pode envolver remédios e procedimentos para devolver o fluxo de sangue ao coração. A Sociedade Brasileira de Cardiologia tem uma diretriz própria sobre o tratamento do infarto.
O tamanho do problema no Brasil é grande. Segundo o Ministério da Saúde, o infarto é a maior causa de mortes no país, com estimativa de 300 mil a 400 mil casos por ano, e uma morte a cada 5 a 7 casos.
Quais são os sintomas de infarto?
O sintoma mais conhecido é a dor ou o desconforto no peito. Muita gente não descreve como "dor", e sim como peso, aperto, pressão ou queimação, como se algo estivesse apertando o tórax. Costuma ser forte e prolongada.
Essa dor pode se espalhar (o médico diz que ela "irradia") para:
- o braço esquerdo e, menos vezes, o direito;
- as costas;
- o pescoço ou a mandíbula;
- a parte de cima da barriga.
Junto com ela, podem aparecer suor frio, palidez, falta de ar, enjoo ou vômito e a sensação de que vai desmaiar. Algumas pessoas sentem algo parecido com uma indigestão forte, com queimação e sensação de estômago cheio.
Nem sempre o quadro é completo. O Ministério da Saúde lembra que, em idosos, o principal sinal pode ser a falta de ar, e que em pessoas com diabetes e idosos o infarto pode acontecer sem sinais típicos. Por isso, um mal-estar súbito e sem explicação, nessas pessoas, merece atenção.
Infarto em mulheres é diferente?
É aqui que a história de Bernadine Healy volta. Em 2016, a American Heart Association publicou sua primeira declaração científica dedicada ao infarto em mulheres. O documento afirma que existem diferenças entre os sexos na forma como o infarto se manifesta, nos mecanismos e nos desfechos. Ou seja: não dá para esperar que todo infarto siga o mesmo roteiro.
Quando os sintomas fogem do quadro clássico, é fácil confundir com estresse, gastrite ou cansaço. Se algo parece errado e não passa, vale ligar.
Dor no peito é sempre problema no coração?
Não. O serviço de saúde do Reino Unido (NHS) lembra que, na maior parte dos casos, a dor no peito não vem do coração. Algumas causas comuns:
- Azia e indigestão: começa depois de comer, às vezes com gosto amargo na boca e sensação de estômago cheio.
- Dor muscular: aparece depois de esforço, pancada ou exercício, pode piorar ao respirar fundo e melhora em repouso.
- Ansiedade e crise de pânico: dor muitas vezes aguda e contínua, com coração acelerado, suor e tontura, ligada a uma situação de estresse.
- Infecções respiratórias, como pneumonia, em que a dor piora ao respirar e vem com tosse com catarro e febre.
- Herpes-zóster, que começa com formigamento e depois forma bolhas na pele.
Há também causas no coração que não são infarto, como a pericardite (inflamação da membrana que envolve o coração), que costuma dar uma dor em pontada que piora ao respirar fundo ou ao deitar, e a angina, que tem sintomas parecidos com os do infarto.
O ponto importante é este: só exames feitos no serviço de saúde, como o eletrocardiograma e exames de sangue, conseguem separar com segurança um infarto de outra causa. Na dúvida, o caminho é procurar atendimento, não esperar para ver se passa.
Quem tem mais risco de infarto?
Qualquer adulto pode infartar, mas o risco sobe com a idade e com alguns fatores conhecidos. O Ministério da Saúde aponta como principais o tabagismo, o sedentarismo, a alimentação ruim, o colesterol alto e o estresse em excesso. Pessoas com diabetes ou pressão alta têm de duas a quatro vezes mais chance de ter um infarto. Ter familiares que tiveram infarto ou angina antes dos 60 anos também pesa, segundo o NHS.
A pressão alta, aliás, costuma não dar sintomas. Se você não sabe como anda a sua, entenda os números no nosso texto sobre a tabela de pressão arterial.
O que fazer se suspeitar de infarto?
Os primeiros minutos são os que mais contam. Se você ou alguém perto de você tiver sinais de infarto:
- Ligue 192 (SAMU) imediatamente. Diga o endereço completo, o que a pessoa está sentindo e desde quando.
- Não vá dirigindo sozinho ao pronto-socorro. Se a situação piorar no caminho, você fica sem ajuda e ainda coloca outras pessoas em risco.
- Fique em repouso. Sente-se numa posição confortável, com as costas apoiadas, e evite qualquer esforço, inclusive subir escadas.
- Siga as orientações do atendente. Não tome remédio por conta própria nem por sugestão de vizinhos ou da internet: quem orienta é a equipe de saúde, que conhece o seu caso pelo telefone ou no local.
- Deixe a porta destrancada e, se possível, peça para alguém esperar a ambulância na entrada.
Se a pessoa desmaiar e não respirar normalmente, o coração pode ter parado. Peça para alguém ligar 192 e trazer um desfibrilador, se houver um por perto, e comece a reanimação (RCP). Saiba mais no nosso texto sobre o DEA, o desfibrilador externo automático.
Quando procurar um médico
Ligue 192 na hora se tiver dor, aperto ou queimação no peito que não passa em poucos minutos; dor que se espalha para braços, costas, pescoço, mandíbula ou barriga; dor no peito com suor frio, falta de ar, enjoo, palidez ou tontura; falta de ar forte e repentina; ou se alguém desmaiar e não responder.
Procure atendimento no mesmo dia se a dor no peito vier com o coração disparado, falhando ou batendo devagar demais, ou se a falta de ar estiver bem pior que o normal.
Marque uma consulta, começando pelo clínico geral ou médico de família, se tiver uma dor no peito que vai e volta, mesmo que passe rápido, ou se a dor já passou mas a dúvida ficou. O cardiologista é o especialista que acompanha as doenças do coração, e o médico pode encaminhar você a ele. Quem tem fatores de risco também ganha com uma avaliação de rotina, antes de qualquer sintoma.
Conclusão: na dúvida, ligue
Bernadine Healy chamou atenção para um problema simples de entender e difícil de mudar: quando o infarto não se parece com a imagem que todos têm dele, ele demora a ser reconhecido. Isso vale para as mulheres, para os idosos, para quem tem diabetes e para qualquer pessoa que prefere achar que é "só uma azia".
A maioria das dores no peito não é infarto. Mas quem decide isso é o eletrocardiograma, não o palpite. Se a dor aperta, não passa ou vem acompanhada de outros sinais, ligue 192. Chamar ajuda e descobrir que era outra coisa é sempre melhor do que esperar demais.
Perguntas frequentes
Infarto pode acontecer sem dor no peito?
Pode. Em idosos e em pessoas com diabetes, o infarto às vezes aparece só como falta de ar, mal-estar ou cansaço súbito, ou quase sem sintomas.
Dor no lado esquerdo do peito é sempre do coração?
Não. A dor no peito pode ser muscular, de azia, de ansiedade ou de outra origem. Só os exames no serviço de saúde confirmam se é o coração.
Crise de ansiedade pode parecer infarto?
Pode. Suor, tontura e coração acelerado aparecem nas duas situações. Por isso, uma primeira crise, ou uma dor diferente das anteriores, deve ser avaliada num serviço de saúde.
Posso esperar a dor passar para ver se melhora?
Se a dor no peito é forte, dura mais que alguns minutos ou vem com outros sinais de alerta, não. O atendimento nos primeiros minutos é o que mais ajuda a reduzir o risco de morte.
Referências
- Ministério da Saúde. Infarto. gov.br/saude
- NHS. Chest pain. nhs.uk
- NHS. Heart attack: symptoms. nhs.uk
- Mehta LS et al. Acute Myocardial Infarction in Women: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation, 2016. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. V Diretriz da SBC sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST. Arq Bras Cardiol, 2015. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Healy B. The Yentl syndrome. N Engl J Med, 1991. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.
Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.
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