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Artigo · Educação · 8 min de leitura

DEA (desfibrilador): o que é e como usar

RaiRaisLife19 de setembro de 2018 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Desfibrilador externo automático em uma caixa na parede de um corredor

Em 12 de junho de 2021, no estádio Parken, em Copenhague, o meia dinamarquês Christian Eriksen caiu sozinho no gramado aos 42 minutos do jogo entre Dinamarca e Finlândia, pela Eurocopa. Ninguém tinha encostado nele: era uma parada cardíaca. O capitão Simon Kjær foi um dos primeiros a socorrê-lo, a equipe médica entrou logo e, ali mesmo, diante do estádio e de milhões de pessoas pela TV, fizeram massagem cardíaca e usaram um desfibrilador. Cerca de uma hora depois, a UEFA e a federação dinamarquesa informaram que Eriksen estava estável e acordado. Oito meses depois ele voltou a jogar.

Eriksen caiu num lugar cheio de gente treinada e com o aparelho à mão. A maioria das paradas cardíacas acontece longe de um estádio, e quem está por perto quase nunca é médico. Por isso vale entender o que é o DEA, o desfibrilador externo automático, e como qualquer pessoa pode usá-lo.

Resposta rápida: o DEA é um aparelho portátil que analisa o ritmo do coração de quem desmaiou e, se for preciso, dá um choque para tentar fazê-lo voltar a bater normalmente. Ele fala o que fazer em cada etapa e só libera o choque quando detecta um ritmo que precisa dele, por isso pode ser usado por leigos. Antes de tudo, ligue 192 e comece a massagem no peito.

O que é o DEA e para que ele serve?

Numa parada cardíaca súbita, muitas vezes o coração não fica simplesmente parado: ele entra num tremor desorganizado, chamado fibrilação ventricular, e deixa de bombear sangue. O cérebro começa a sofrer em poucos minutos. O choque do desfibrilador serve para interromper esse ritmo caótico e dar ao coração a chance de retomar o ritmo normal.

O DEA é a versão automática e portátil desse equipamento. Ele vem numa maleta com duas pás adesivas (eletrodos) que se colam no peito. Depois de ligado, o próprio aparelho analisa o ritmo cardíaco e decide se o choque é indicado.

Você já deve ter visto a placa: um coração com um raio no meio, normalmente em verde. Ela indica onde o aparelho fica guardado, e é comum em shoppings, aeroportos, rodoviárias, estações de metrô, academias, estádios e faculdades.

Por que cada minuto conta?

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), na sua diretriz de ressuscitação cardiopulmonar, lembra que a cada minuto sem desfibrilação a chance de sobreviver cai de 7% a 10%. A ambulância, por mais rápida que seja, leva alguns minutos para chegar. Quem preenche esse intervalo é quem está ao lado.

A mesma diretriz cita programas em que leigos treinados fazem a massagem e usam o DEA logo cedo, com taxas de sobrevivência que chegaram a 85% em alguns locais. Por isso a diretriz brasileira destaca o acesso público à desfibrilação: aparelhos em lugares públicos e gente preparada para usá-los.

O que fazer quando alguém cai e não responde?

A ordem importa. Siga estes passos:

  1. Veja se o local é seguro para você e para a pessoa.
  2. Chame a pessoa e toque nos ombros dela. Se ela não responder e não estiver respirando, ou só estiver "puxando o ar" de forma estranha, trate como parada cardíaca.
  3. Ligue 192 (SAMU), ou peça para alguém ligar, e no viva-voz. O atendente orienta você durante todo o socorro.
  4. Peça para alguém buscar o DEA, se houver um por perto. Aponte uma pessoa específica: "você, de camiseta azul, procure o desfibrilador".
  5. Comece a massagem no peito sem esperar o aparelho chegar.

Como fazer a RCP só com as mãos?

RCP é a sigla de ressuscitação cardiopulmonar, a massagem cardíaca. Para quem não é profissional de saúde, a diretriz da SBC recomenda compressões contínuas no peito, sem precisar fazer respiração boca a boca.

  • Deite a pessoa de barriga para cima, numa superfície firme.
  • Coloque a base de uma das mãos no centro do peito, sobre a metade de baixo do osso do meio (esterno), e a outra mão por cima, com os dedos entrelaçados.
  • Com os braços esticados, empurre o peito para baixo com o peso do corpo: pelo menos 5 cm de profundidade, sem passar de 6 cm.
  • Mantenha um ritmo de 100 a 120 compressões por minuto.
  • Deixe o peito voltar totalmente entre uma compressão e outra e pare o mínimo possível.

É cansativo. Se houver outra pessoa, revezem, sem deixar a massagem parar. Não tenha medo de machucar: sem a massagem, a pessoa não tem chance.

Como usar o DEA, passo a passo?

Quando o aparelho chegar, use-o assim que possível. Se houver duas pessoas, uma continua a massagem enquanto a outra prepara o DEA.

  1. Ligue o aparelho no botão de liga e desliga. Alguns ligam sozinhos ao abrir a tampa. A partir daí, ele vai falando cada etapa.
  2. Deixe o peito da pessoa descoberto. Afaste ou corte a roupa.
  3. Cole as pás no peito, na posição mostrada no desenho das próprias pás: em geral, uma abaixo da clavícula direita e outra na lateral esquerda, abaixo do mamilo. Há pás de adulto e pás infantis.
  4. Quando o DEA disser "analisando, não toque no paciente", peça a todos que se afastem.
  5. Se o choque for indicado, avise em voz alta para ninguém encostar e aperte o botão de choque.
  6. Volte à massagem logo depois do choque e siga as instruções até o SAMU chegar.

Algumas situações pedem um cuidado a mais, segundo a diretriz da SBC:

  • Peito molhado: seque bem antes de colar as pás.
  • Muitos pelos: retire o excesso só onde as pás vão ficar, para elas grudarem.
  • Marca-passo ou cardiodesfibrilador implantado: não cole a pá em cima dele; afaste a pá ou use outra posição.

Um leigo pode errar e dar choque em quem não precisa?

Esse é o medo mais comum, e o próprio desenho do aparelho responde a ele. O DEA analisa o ritmo antes de qualquer coisa e só recomenda o choque quando encontra um ritmo que precisa ser desfibrilado. Se o ritmo não for desse tipo, ele não libera o choque e orienta o que fazer em seguida.

Existe lei que obriga ter DEA em locais públicos?

No Brasil, até a data desta revisão, não há uma lei federal geral que obrigue estabelecimentos a manter um desfibrilador. Há vários projetos na Câmara dos Deputados, alguns de 2004, que não viraram lei.

A obrigação, hoje, costuma vir de leis estaduais e municipais. Um exemplo é a cidade de São Paulo: a Lei Municipal nº 13.945, de 2005, com as mudanças posteriores, exige DEA em aeroportos, shoppings, estádios, hotéis, supermercados, academias e outros locais de grande movimento, conforme limites de público definidos na própria lei. Outras cidades e estados têm regras próprias; vale consultar a do seu município.

Em nível federal existe a Lei nº 13.722, de 2018, conhecida como Lei Lucas. Ela não trata do aparelho, mas obriga escolas de educação básica, públicas e privadas, e estabelecimentos privados de recreação infantil a capacitar professores e funcionários em noções de primeiros socorros.

Quando procurar um médico?

Numa parada cardíaca, a regra é uma só: ligar 192 na hora. Mas muitas paradas dão sinais antes. Procure atendimento de urgência se houver dor ou aperto no peito, falta de ar intensa, desmaio sem explicação ou palpitações acompanhadas de tontura.

Fora da emergência, converse com um médico, de preferência um cardiologista, se você já desmaiou durante exercício, sente o coração disparar com frequência ou tem parentes próximos que morreram de forma súbita ainda jovens.

Conclusão: o socorro começa com quem está perto

Eriksen voltou a jogar porque, nos primeiros minutos, alguém fez a massagem e alguém trouxe o desfibrilador.

Fora dos estádios, essa pessoa pode ser você. Ligar 192, apertar o centro do peito com força e no ritmo certo e seguir a voz do DEA são coisas que qualquer um consegue fazer. Se puder, faça um curso de primeiros socorros: algumas horas de prática deixam a mão mais firme no dia em que for preciso.

Perguntas frequentes

Preciso de treinamento para usar o DEA?

O aparelho foi feito para leigos e orienta cada etapa por voz. O treinamento ajuda muito, mas a falta dele não deve impedir ninguém de usar.

Posso usar o DEA em criança?

Sim. Escolha as pás do tamanho certo para a idade, adulto ou infantil, como orienta a diretriz da SBC, e siga as instruções do aparelho.

Tenho que fazer respiração boca a boca?

Para leigos, a diretriz da SBC recomenda compressões contínuas no peito. A respiração fica para quem foi treinado e se sente seguro para fazê-la.

Referências

  • Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência, 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. scielo.br
  • Kleinman ME et al. Part 7: Adult Basic Life Support. 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, 2025. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Ministério da Saúde. SAMU 192. gov.br/saude
  • Prefeitura de São Paulo. Lei Municipal nº 13.945, de 7 de janeiro de 2005 (desfibrilador externo automático em locais de grande circulação). legislacao.prefeitura.sp.gov.br
  • Presidência da República. Lei nº 13.722, de 4 de outubro de 2018 (Lei Lucas). planalto.gov.br
  • Câmara dos Deputados. PL 4050/2004 (desfibriladores em locais e veículos de grande circulação), arquivado. camara.leg.br
  • Wikipedia. Christian Eriksen: parada cardíaca na Eurocopa 2020 (12 de junho de 2021). en.wikipedia.org

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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