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Artigo · Pele · 8 min de leitura

Pinta suspeita: quando procurar médico?

RaiRaisLife15 de maio de 2021 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Dermatoscópio e lupa sobre a mesa de exame

Em julho de 1977, o cantor jamaicano Bob Marley recebeu um diagnóstico que pouca gente associaria a ele: um melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele. A lesão não estava no rosto nem nas costas, lugares que costumamos vigiar. Era uma mancha escura embaixo da unha do dedão do pé direito.

Marley tinha pele negra, grupo em que o melanoma é menos comum, e a mancha estava num lugar que quase ninguém olha com atenção. Ele morreu em maio de 1981, aos 36 anos, com a doença espalhada pelo corpo. Desde então, a história dele é lembrada por médicos do mundo todo como um alerta: o melanoma pode aparecer em qualquer pessoa e em qualquer parte da pele.

A maioria das pintas é inofensiva e vai acompanhar você a vida inteira sem causar problema. Mas algumas mudam, e essas merecem um olhar de perto. Como saber se a sua pinta é uma delas, e quando é hora de procurar um médico?

Resposta rápida: procure um médico quando uma pinta mudar de tamanho, forma ou cor, tiver bordas irregulares ou várias cores, sangrar, coçar ou formar crosta, ou quando surgir uma mancha nova e diferente das outras que não some em algumas semanas. Só o exame médico confirma se a pinta é benigna.

O que é uma pinta, afinal?

O nome médico da pinta comum é nevo melanocítico. Ela se forma quando os melanócitos, as células que produzem a melanina (o pigmento que dá cor à pele), se agrupam num ponto só. Algumas pessoas já nascem com pintas, chamadas de congênitas. Outras aparecem ao longo da vida, principalmente na infância e na adolescência.

Segundo o serviço de saúde britânico (NHS), é normal que novas pintas surjam em crianças e adolescentes, que algumas clareiem ou desapareçam com a idade e que fiquem um pouco mais escuras na gravidez. Uma pinta comum costuma ser redonda ou oval, com contorno liso, pode ser plana ou elevada e às vezes tem pelos. Em peles negras e pardas, elas tendem a ser mais escuras.

Pintas normais costumam ficar do mesmo jeito por anos. É a mudança que acende o alerta.

Como reconhecer uma pinta suspeita pela regra ABCDE?

Para ajudar a separar a pinta comum da que precisa de avaliação, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) divulgam a regra do ABCDE, adotada internacionalmente. Cada letra é um sinal a observar:

  • A de Assimetria: se você imaginar uma linha no meio da pinta, uma metade é diferente da outra.
  • B de Bordas: o contorno é irregular, recortado ou mal definido, em vez de liso.
  • C de Cor: há várias cores na mesma pinta, como preto, castanho, branco, vermelho ou azul. A pinta comum costuma ter um tom só.
  • D de Diâmetro: mede mais de 6 milímetros. Segundo o NHS, a pinta comum costuma ter o tamanho da ponta de um lápis ou menos.
  • E de Evolução: a pinta muda de tamanho, forma ou cor com o tempo.

Dois cuidados. A regra não é um diagnóstico. O próprio INCA lembra que, na maior parte das vezes, alterações como essas não são causadas por câncer, mas precisam ser investigadas por um médico. E um melanoma no começo pode ser pequeno, com menos de 6 milímetros, como alerta o NHS. Por isso, uma pinta que está mudando merece consulta mesmo que pareça "pequena demais para ser algo".

Que outros sinais pedem atenção?

Além do ABCDE, o NHS e a SBD apontam outros sinais que justificam procurar um médico:

  • pinta que dói, coça, inflama, sangra ou forma crosta sem motivo;
  • mancha ou ferida nova que não cicatriza e continua crescendo;
  • marca nova ou diferente das outras na pele que não some depois de algumas semanas, inclusive na palma da mão ou na sola do pé;
  • área escura embaixo de uma unha que não foi causada por uma pancada.

Esse último item é exatamente o caso de Bob Marley. Em pessoas de pele negra ou parda o melanoma é menos frequente, mas, quando aparece, costuma surgir na sola dos pés, na palma das mãos ou embaixo das unhas, segundo o NHS. São lugares fáceis de esquecer no dia a dia.

Como fazer o autoexame da pele?

O autoexame é olhar a própria pele com calma, de tempos em tempos, para perceber o que é novo ou o que mudou. O NHS recomenda checar a pele em busca de qualquer alteração fora do comum e usar um espelho, ou pedir ajuda a alguém de confiança, para ver as áreas que você não alcança sozinho, como as costas e a nuca.

Na prática, vale percorrer o corpo inteiro com boa luz: rosto, orelhas, pescoço, tronco, braços, pernas, couro cabeludo e região genital. Não deixe de fora as palmas das mãos, as solas dos pés, o espaço entre os dedos e as unhas, que são justamente os lugares onde o melanoma de pessoas de pele negra ou parda costuma aparecer. O INCA também orienta quem trabalha ao ar livre a observar a pele regularmente para identificar alterações cedo.

O INCA explica que não há evidência de que fazer exames de rastreamento do melanoma em pessoas sem sintomas traga mais benefícios do que riscos. O que faz diferença é o diagnóstico precoce: perceber o sinal cedo e procurar um médico assim que ele aparece. É para isso que o autoexame serve.

Quem tem mais risco de ter melanoma?

Qualquer pessoa pode ter melanoma, mas alguns fatores aumentam a chance. Segundo o INCA, o NHS e a SBD, os principais são:

  • Exposição ao sol: a radiação ultravioleta (UV) é a causa mais comum, sobretudo exposições prolongadas e repetidas na infância e na adolescência, e queimaduras de sol frequentes.
  • Bronzeamento artificial: as câmaras de bronzeamento também emitem radiação UV.
  • Pele clara: quem se queima com facilidade e não consegue se bronzear, com cabelos ruivos ou loiros, olhos claros ou sardas.
  • Muitas pintas ou sardas espalhadas pelo corpo.
  • Histórico pessoal ou familiar de câncer de pele.
  • Trabalho ao ar livre: o INCA cita agricultores, trabalhadores da construção civil, pescadores e garis, além de bombeiros, pela exposição a substâncias tóxicas.

No Brasil, o INCA estima cerca de 9.360 casos novos de melanoma por ano entre 2026 e 2028. É bem menos comum que outros cânceres de pele, mas é o mais agressivo, porque tem maior chance de se espalhar para outros órgãos. Daí a importância de encontrá-lo cedo.

Na prevenção, as orientações oficiais são conhecidas e valem para todos: evitar o sol das 10h às 16h, procurar sombra, usar chapéu de aba larga, roupas que cubram a pele, óculos com proteção UV e protetor solar (o INCA indica fator 15 no mínimo; a SBD e o NHS recomendam fator 30 ou mais), reaplicado ao longo do dia. E não usar câmaras de bronzeamento.

Quando procurar um médico

Marque uma consulta, sem esperar a próxima revisão de rotina, se uma pinta mostrar dois ou mais sinais do ABCDE, estiver mudando ou tiver qualquer um dos sinais da lista acima, como sangramento, crosta ou uma mancha escura embaixo da unha sem pancada que a explique.

O médico indicado é o dermatologista. Você também pode começar pela unidade básica de saúde ou pelo seu clínico, que encaminha quando necessário. Na consulta, conte desde quando percebeu a mudança e se há câncer de pele na família. O INCA explica que o diagnóstico é feito pelo exame clínico, muitas vezes com a ajuda da dermatoscopia, um aparelho que permite ver camadas da pele que o olho nu não vê. Alguns casos pedem um exame complementar, a biópsia, analisada em laboratório.

O que fazer com cada pinta é uma conduta decidida pelo médico depois do exame. Não se decide pela aparência nem pela internet.

Conclusão: olhar a própria pele é um hábito que vale a pena

A mancha de Bob Marley estava num lugar onde quase ninguém procura um câncer de pele. A história dele ajudou a mudar isso: hoje os serviços de saúde ensinam a olhar também a sola dos pés, as palmas e as unhas, em todos os tons de pele.

O recado é de equilíbrio. A grande maioria das pintas é inofensiva, e não há motivo para viver com medo delas. Mas uma pinta que muda, ou que destoa das outras, merece ser vista por um médico logo. Descobrir o problema cedo é o que dá ao tratamento mais chance de dar certo.

Perguntas frequentes

Pinta que coça é câncer?

Nem sempre. Coceira pode ter muitas causas. Mas uma pinta que passou a coçar, doer ou sangrar sem motivo deve ser avaliada por um médico.

Pinta com pelo é perigosa?

Ter pelo, por si só, não indica problema: o NHS descreve pintas com pelos entre as comuns. O que importa são os sinais do ABCDE e as mudanças.

Referências

  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele melanoma: versão para a população. gov.br/inca
  • Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Câncer da pele. sbd.org.br
  • NHS. Moles. nhs.uk
  • NHS. Symptoms of melanoma skin cancer. nhs.uk
  • NHS. Causes of melanoma skin cancer. nhs.uk
  • Kyriakou G. et al. Don't worry about a thing… every little thing gonna be all right (except for acral lentiginous melanoma). Clinics in Dermatology, 2022. PubMed

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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