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Artigo · Beleza · 10 min de leitura

Cuidados com a pele: guia de limpeza e proteção

Dra. Mirele FadelRaisLife13 de julho de 2020 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Protetor solar, chapéu de palha e óculos escuros sobre uma toalha

Em 2012, uma foto publicada no New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, correu o planeta. Mostrava um motorista americano de 69 anos que passou mais de 25 anos dirigindo caminhão de entregas. O lado direito do rosto parecia o de um homem da idade dele. O lado esquerdo, aquele que ficava virado para a janela, parecia muito mais velho, com rugas fundas, pele grossa e flácida.

O diagnóstico tinha nome: dermatoheliose unilateral, ou seja, envelhecimento da pele causado pelo sol de um lado só. Os médicos da Universidade Northwestern que descreveram o caso explicaram que a radiação UVA atravessa nuvens e o vidro das janelas e, com a exposição crônica, danifica as fibras elásticas da pele.

A foto virou um alerta silencioso: a pele registra tudo o que acontece com ela, dia após dia. Então, o que de fato faz diferença no cuidado diário, e o que é só promessa de rótulo?

Resposta rápida: o cuidado com a pele que tem mais respaldo é simples: limpar com delicadeza, hidratar e usar protetor solar todos os dias, com FPS 30 ou mais, reaplicando a cada duas horas quando estiver ao ar livre. Sombra, roupas e chapéu completam a proteção. Suplementos e cremes caros não substituem essa base.

Por que a pele precisa de cuidado todos os dias?

A pele é o maior órgão do corpo e trabalha sem parar. Ela protege contra micróbios e agressões do ambiente, ajuda a controlar a temperatura, segura a água dentro do organismo e é por ela que sentimos toque, calor e dor.

Para cumprir esse papel, ela fica exposta o tempo todo. Do lado de fora, recebe sol, poluição, vento, frio, ar-condicionado e a fumaça do cigarro. Por dentro, sofre a influência de hormônios, da alimentação, do estresse, do sono e de alguns remédios. Quando a barreira da pele perde o equilíbrio, aparecem ressecamento, irritação, manchas, cravos e um envelhecimento que chega antes da hora.

A boa notícia é que uma rotina curta, feita com constância, já protege boa parte dessa estrutura. Não é preciso ter uma prateleira cheia de produtos.

Como fazer a limpeza da pele do jeito certo?

A limpeza tira o suor, o excesso de oleosidade, a poeira e os resíduos de poluição e de maquiagem que se acumulam durante o dia. Dormir com a pele suja ou maquiada pode entupir os poros e favorecer cravos, espinhas e irritação.

Uma sequência prática, que serve para a maioria das pessoas:

  1. Remover a maquiagem com um demaquilante ou água micelar, quando você usou maquiagem ou protetor com cor. A lavagem comum nem sempre tira tudo.
  2. Lavar o rosto com um sabonete próprio para a face, em água fria ou morna, com massagem leve. Água muito quente e esfregar com força ressecam e irritam. Quem tem pele oleosa pode fazer essa etapa no banho, sem exagerar na frequência: duas vezes ao dia costuma bastar.
  3. Tônico, se quiser: ele é opcional. Pode deixar a sensação de limpeza mais completa e preparar a pele para o próximo passo, mas não é obrigatório para ter uma pele saudável.
  4. Hidratar logo depois, com a pele ainda levemente úmida.

O tipo de produto muda conforme a pele. Peles oleosas costumam se dar melhor com géis e texturas leves, sem óleo. Peles secas pedem cremes mais nutritivos. Peles sensíveis agradecem fórmulas sem perfume. Como cada pele reage de um jeito, a escolha pode ser feita junto com um médico, principalmente se você tem acne, manchas ou alergias.

Hidratante: pele oleosa também precisa?

Precisa. Hidratar não é colocar óleo na pele, e sim ajudar a camada mais externa a segurar água e manter a barreira de proteção funcionando. Pele oleosa e pele desidratada podem andar juntas, principalmente no inverno, quando algumas áreas do rosto ficam secas enquanto outras continuam brilhando. A diferença está na textura: um gel leve para quem tem oleosidade, um creme mais encorpado para quem tem pele seca.

Por dentro, a rotina também conta. Alimentação equilibrada, água ao longo do dia, sono regular e não fumar fazem parte do cuidado com a pele, tanto quanto o que se passa no rosto.

Como usar o protetor solar e se proteger do sol?

Se fosse para escolher um único passo da rotina, seria este. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) recomenda:

  • Usar protetor solar todos os dias, e não só no lazer, com FPS 30 ou mais, para qualquer tipo de pele.
  • Reaplicar a cada duas horas, ou antes disso, em atividades ao ar livre. Depois de entrar na água ou suar muito, vale reaplicar também, mesmo que o produto diga "resistente à água".
  • Evitar o sol entre 10h e 16h (horário de verão) e procurar a sombra nesse horário.
  • Completar com chapéu de aba larga, óculos de sol, camisetas e calças. Roupas e chapéu ajudam bastante, mas não substituem o protetor nas áreas que ficam de fora.
  • Proteger bebês e crianças do sol. Segundo a SBD, o protetor solar pode ser usado a partir dos seis meses. Antes disso, o caminho é sombra e roupa; em caso de dúvida, o pediatra orienta.

Em um país tropical como o Brasil, a proteção vale o ano todo. Dia frio ou nublado também conta, porque a radiação ultravioleta atravessa as nuvens. E, como lembra a foto do motorista, o UVA atravessa vidros comuns de janelas e carros.

Na hora de escolher, o rótulo ajuda. Pelas regras da Anvisa (RDC nº 629/2022), o protetor solar precisa ter FPS de pelo menos 6 e proteção contra UVA de no mínimo um terço do FPS declarado. A SBD também orienta conferir no rótulo a proteção contra UVA e se o produto é resistente à água.

A quantidade também importa. Segundo a SBD, a medida é de uma colher de chá rasa para o rosto e cerca de três colheres de sopa para o corpo, espalhadas por igual, sem deixar áreas desprotegidas. Pescoço, orelhas e mãos são lugares que muita gente esquece.

O sol, a pele e o câncer: qual é o risco?

O cuidado com o sol vai muito além da estética. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele não melanoma é o mais comum no Brasil. A SBD estima 177 mil novos casos por ano de carcinomas basocelulares e espinocelulares, e 8,4 mil de melanoma, que é mais raro, porém mais agressivo. Para a SBD, evitar o excesso de sol e proteger a pele da radiação ultravioleta são as melhores formas de prevenção.

Por isso, além de se proteger, observe a própria pele. Pinta que muda de cor, de tamanho ou de forma, mancha ou ferida que não cicatriza, que continua crescendo, coça, forma crosta ou sangra: tudo isso merece uma consulta.

A poluição também envelhece a pele?

Envelhece, e a ciência já mediu isso. Um estudo alemão publicado em 2010 no Journal of Investigative Dermatology acompanhou 400 mulheres de 70 a 80 anos e encontrou mais manchas no rosto entre as que viviam expostas a mais partículas do trânsito: um aumento de fuligem e partículas no ar se associou a cerca de 20% mais manchas na testa e nas bochechas. As rugas também apareceram, em menor grau.

Os autores concluíram que a poluição por partículas pode influenciar o envelhecimento da pele, como já se sabia do sol e do cigarro.

Na prática, a defesa é a mesma rotina: limpar bem a pele no fim do dia, manter a hidratação para preservar a barreira de proteção e usar o protetor solar.

Colágeno: o que ele faz e vale a pena tomar?

O colágeno é a proteína mais abundante do corpo. Forma uma espécie de rede de sustentação na pele, nos ossos, nas cartilagens, nos tendões e nos ligamentos. Com o passar dos anos, o corpo produz menos colágeno e a pele vai ficando mais fina e menos firme. O sol e o cigarro aceleram essa perda.

A pergunta que muita gente faz é se o colágeno em pó ou em cápsulas funciona. A resposta honesta, hoje, é que a evidência é incerta. Uma revisão de 2023, que reuniu 26 estudos, encontrou melhora na hidratação e na elasticidade da pele. Já uma revisão maior e mais rigorosa, publicada em 2025 no American Journal of Medicine, com 23 estudos e quase 1.500 participantes, mostrou que o benefício aparecia sobretudo nos estudos pagos pela indústria. Nos estudos independentes e nos de melhor qualidade, não houve diferença na hidratação, na elasticidade nem nas rugas.

Ou seja: colágeno oral não faz milagre e, sozinho, pode trazer pouco ou nenhum benefício. Suplemento também tem contraindicações e não deve ser tomado por conta própria. Quem quer cuidar do colágeno que já tem pode começar pelo que tem respaldo: proteção solar diária, não fumar, dormir bem e manter uma alimentação com proteínas, frutas e verduras. Procedimentos médicos devem ser discutidos com um médico.

Manchas escuras nas dobras: quando a pele avisa outra coisa

Nem toda mancha é só uma questão de pele. Áreas escuras, grossas e com textura aveludada no pescoço, nas axilas ou na virilha podem ser acantose nigricans. As manchas costumam surgir aos poucos e às vezes coçam.

Segundo o NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido, a causa mais comum é a obesidade; outras são o diabetes tipo 2, alterações hormonais e alguns remédios. Em geral é inofensiva, mas raramente pode ser sinal de algo mais sério, como câncer. Por isso o mais importante é investigar a causa com um médico.

Quando procurar um médico

Marque uma consulta se você notar:

  • pinta nova ou que mudou de cor, tamanho, forma ou bordas;
  • mancha ou ferida que não cicatriza, que cresce ou sangra;
  • manchas escuras e aveludadas nas dobras do corpo;
  • acne, coceira, vermelhidão ou descamação que não melhoram com os cuidados básicos;
  • reação a algum cosmético, como ardor, inchaço ou bolhas.

Para a pele, o especialista é o dermatologista. Manchas nas dobras podem envolver também o clínico geral ou o endocrinologista, que investigam causas como diabetes e alterações hormonais.

Conclusão: a pele guarda a conta dos anos

O motorista da foto não fez nada de extraordinário. Só dirigiu, todos os dias, com o mesmo lado do rosto virado para a janela. Foi a repetição que deixou a marca. Com o cuidado acontece o mesmo, só que a favor: limpar, hidratar e passar protetor parecem gestos pequenos, mas somados ao longo dos anos fazem diferença.

Não existe produto que substitua essa base, nem rotina perfeita que dispense o olhar de um médico quando algo muda. Constância vale mais do que quantidade de frascos.

Perguntas frequentes

Preciso usar protetor solar dentro de casa?

Se você fica perto de janelas ou sai algumas vezes durante o dia, sim, porque o UVA atravessa o vidro. Passar pela manhã já ajuda bastante.

Qual FPS devo usar?

A SBD recomenda FPS 30 ou mais para todos os tipos de pele, com reaplicação a cada duas horas ao ar livre.

Lavar o rosto várias vezes ao dia ajuda na oleosidade?

Não necessariamente. Lavar demais e com água quente pode ressecar e irritar a pele. Duas vezes ao dia costuma ser suficiente.

Colágeno em pó substitui o protetor solar?

Não. O benefício do colágeno oral ainda é incerto, enquanto o protetor solar tem proteção comprovada contra o envelhecimento e o câncer de pele.

Referências

  • Gordon JR, Brieva JC. Unilateral Dermatoheliosis. New England Journal of Medicine, 2012. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Northwestern University. Viral photo offers evidence of sun's aging effect on skin. news.feinberg.northwestern.edu
  • Sociedade Brasileira de Dermatologia. Câncer da pele: prevenção. sbd.org.br
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele não melanoma. gov.br/inca
  • Anvisa. Manual de protetores solares (RDC nº 629/2022). gov.br/anvisa
  • NHS. Acanthosis nigricans. nhs.uk
  • Vierkötter A. et al. Airborne particle exposure and extrinsic skin aging. Journal of Investigative Dermatology, 2010. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Pu SY et al. Effects of Oral Collagen for Skin Anti-Aging: a systematic review and meta-analysis. Nutrients, 2023. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Myung SK, Park Y. Effects of Collagen Supplements on Skin Aging: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. American Journal of Medicine, 2025. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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