Rais LifeVida | Saúde | Negócios
☰
Artigo · Corpo · 11 min de leitura

Álcool, drogas e energéticos: efeitos no cérebro

RaiRaisLife25 de fevereiro de 2018 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Taça de vinho vazia, lata de energético sem rótulo e um copo de água

Em 26 de abril de 2017, Davis Allen Cripe, um estudante de 16 anos da Carolina do Sul (Estados Unidos), tomou um café com leite, um refrigerante diet grande com cafeína e uma bebida energética, tudo em cerca de duas horas. Pouco depois, desmaiou na escola e não resistiu.

O médico-legista do condado concluiu que a causa foi um evento cardíaco induzido pela cafeína, com provável arritmia, uma alteração no ritmo do coração. A autópsia não encontrou doença cardíaca escondida, e a quantidade de cafeína, somada em pouco tempo, passou do que era seguro para o peso dele. O legista fez questão de lembrar que tudo aquilo era vendido livremente.

A história de Davis é rara, mas ajuda a entender uma ideia que vale para todo este guia: substâncias legais e comuns, como cafeína e álcool, também mexem com o cérebro e com o coração. Então o que exatamente o álcool, as drogas e os energéticos fazem com o corpo? E onde procurar ajuda quando o consumo sai do controle?

Resposta rápida: álcool e outras drogas alteram a química do cérebro, sobretudo o circuito de recompensa, e o uso repetido pode levar à dependência e a danos no cérebro, no fígado e no coração. Energéticos têm muita cafeína e podem acelerar o coração e tirar o sono. Misturar energético com álcool aumenta os riscos. Ajuda gratuita existe no SUS, nos CAPS AD, e no CVV, pelo telefone 188.

Como álcool e drogas agem no cérebro?

O cérebro tem um sistema natural de recompensa. Quando comemos, conversamos com quem gostamos ou cumprimos uma tarefa, ele libera dopamina, uma substância química que dá a sensação de prazer e ensina o cérebro a repetir aquilo.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos (NIDA) explica que as drogas provocam picos de dopamina muito maiores que os das atividades do dia a dia. O cérebro aprende rápido que aquela substância é prioridade. Com o uso repetido, ele se adapta e diminui a própria resposta, e as coisas que antes davam prazer passam a parecer sem graça. É por isso que a pessoa precisa de quantidades maiores para sentir o mesmo efeito.

Ao mesmo tempo, perde força a região da frente do cérebro, o córtex pré-frontal, que cuida do planejamento, do julgamento e do controle dos impulsos. A dependência, que os médicos chamam de transtorno por uso de substâncias, nasce desse desequilíbrio: a vontade fica mais forte e o freio, mais fraco. Não é falta de caráter. É uma condição de saúde, com tratamento e acompanhamento.

Por que adolescentes e jovens correm mais risco?

O córtex pré-frontal é a última parte do cérebro a amadurecer, o que acontece por volta dos 25 anos. Segundo o NIDA, isso deixa adolescentes e jovens adultos numa fase especialmente vulnerável: o circuito de recompensa responde com força, mas o controle dos impulsos ainda está em construção. Começar a beber ou a usar drogas cedo aumenta a chance de problemas no futuro.

O álcool faz mal ao cérebro?

Faz, e o efeito vai além da ressaca. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que o álcool é tóxico, psicoativo (age no cérebro e muda o comportamento) e causa dependência. Ele também é classificado como cancerígeno do grupo 1, o mesmo do tabaco, e está ligado a pelo menos sete tipos de câncer, entre eles o de intestino e o de mama.

Em 2023, a OMS publicou na revista The Lancet Public Health um posicionamento claro: não existe quantidade de álcool considerada segura para a saúde. Os estudos não mostram um limite abaixo do qual o risco de câncer desaparece. No relatório de 2024, a organização estimou 2,6 milhões de mortes por ano atribuídas ao álcool no mundo, dados de 2019, quase 5% de todas as mortes. Parte delas vem de doenças do coração e de câncer, e uma parte grande vem de acidentes de trânsito, violência e lesões autoprovocadas.

No cérebro, um estudo norte-americano publicado em 2017 na revista Addiction analisou exames de imagem de 853 adultos e 439 adolescentes. Quanto mais grave o uso de álcool, menor o volume de massa cinzenta, onde ficam os corpos dos neurônios, com associação forte nos adultos e menor nos adolescentes. No mesmo estudo, o uso de maconha nos últimos 30 dias não se associou a mudanças de estrutura.

É preciso cuidado com a leitura desse resultado. Não ter alteração de estrutura visível na imagem não quer dizer que a maconha seja inofensiva: ela também age no circuito de recompensa e pode causar dependência, como explica o NIDA.

E a história de que cerveja alivia a dor?

Ela tem uma base real, mas foi exagerada. Em 2017, pesquisadores britânicos reuniram 18 experimentos controlados com 404 voluntários saudáveis no Journal of Pain. Com cerca de 0,08% de álcool no sangue, o equivalente a três ou quatro doses, a intensidade da dor sentida caiu em média 1,25 ponto numa escala de 0 a 10. O estudo, porém, não comparou cerveja com remédio para dor, e não autoriza dizer que cerveja substitui analgésico. Usar álcool para lidar com a dor é um caminho conhecido para beber mais e mais, e misturar álcool com medicamentos pode ser perigoso. Dor que se repete merece consulta, não copo.

Energético faz mal?

Bebidas energéticas são refrigerantes com muita cafeína, quase sempre com açúcar e outras substâncias, como taurina. A cafeína estimula o sistema nervoso e o coração: deixa mais alerta, mas em excesso pode acelerar os batimentos, causar tremor, ansiedade e insônia.

No Brasil, a Anvisa limita a cafeína dessas bebidas a 35 mg a cada 100 mL e obriga dois avisos em destaque no rótulo: "Crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto" e "Não é recomendado o consumo com bebida alcoólica". Vale ler o rótulo, porque latas maiores somam mais cafeína, e o café, o chá e o refrigerante do mesmo dia também entram na conta.

Um levantamento da Universidade de Waterloo, no Canadá, publicado em 2018 na revista CMAJ Open, ouviu 2.055 jovens de 12 a 24 anos. Entre os que já tinham tomado energético, 55,4% contaram ter tido algum efeito ruim. Os mais citados foram:

  • coração acelerado (24,7%);
  • dificuldade para dormir (24,1%);
  • dor de cabeça (18,3%);
  • náusea, vômito ou diarreia (5,1%);
  • dor no peito (3,6%);
  • convulsão (0,2%).

Cerca de 3% procuraram ou pensaram em procurar atendimento médico por causa desses efeitos. Todos esses efeitos foram relatados com mais frequência após energéticos do que após café. Por ser uma pesquisa por questionário, ela mostra o que os jovens relataram, não prova sozinha que cada sintoma veio da bebida. Mesmo assim, os autores pediram mais atenção ao consumo por crianças e adolescentes.

Por que misturar álcool com energético é arriscado?

A combinação é comum em festas e no carnaval, justamente porque "dá gás" para ficar mais tempo acordado. É aí que mora o problema. O álcool deprime o sistema nervoso e a cafeína o estimula. A cafeína não diminui o álcool no sangue nem a perda de reflexos, mas disfarça o cansaço e a sensação de embriaguez. A pessoa se sente menos bêbada do que está, um estado que muitos chamam de "bêbado acordado".

O resultado costuma ser beber mais, por mais tempo, e tomar decisões arriscadas, como dirigir. O sabor doce do energético também esconde o gosto forte da bebida, o que facilita o exagero. No coração, as duas substâncias podem mexer com o ritmo dos batimentos: a cafeína em excesso pode acelerá-lo, e o álcool em grande quantidade também pode provocar arritmias. Em quem tem um problema cardíaco ainda não descoberto, a soma pode ser perigosa. Não por acaso, a Anvisa exige o aviso contra a mistura no rótulo de todo energético vendido no Brasil.

O cansaço é um sinal de que o corpo precisa de descanso. Mascarar esse sinal com estimulante, e ainda somar álcool, cobra a conta depois.

Como saber se o consumo virou um problema?

Não existe um número mágico, e cada caso é diferente. Alguns sinais, porém, merecem atenção, em você ou em alguém próximo:

  • precisar de mais quantidade para sentir o mesmo efeito;
  • tentar diminuir ou parar e não conseguir;
  • sentir mal-estar, tremor, ansiedade ou irritação quando fica sem a substância;
  • deixar de lado trabalho, estudo, família ou atividades de que gostava;
  • continuar usando mesmo depois de brigas, acidentes, problemas de saúde ou com a lei;
  • beber ou usar escondido, ou sentir culpa com frequência.

Se você se reconheceu em algum desses pontos, não precisa esperar "chegar ao fundo do poço" para pedir ajuda. Quanto antes, melhor.

Onde buscar ajuda?

No Brasil, há atendimento gratuito e sem julgamento:

  • CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas): serviço do SUS com equipe de médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais. Atende pessoas com problemas ligados ao uso de álcool e outras drogas, e também as famílias. Em geral, é possível ir direto, sem encaminhamento. Algumas unidades funcionam 24 horas. A Unidade Básica de Saúde (UBS) do seu bairro também pode orientar e encaminhar.
  • CVV (Centro de Valorização da Vida), 188: apoio emocional gratuito, sigiloso e 24 horas, pelo telefone 188, por chat e por e-mail no site cvv.org.br. É para qualquer pessoa que precise conversar.
  • Emergência: em caso de intoxicação, convulsão, dor no peito, desmaio ou risco de vida, ligue para o SAMU, no 192, ou procure um pronto-socorro.

Para quem quer ajudar alguém: ouvir sem sermão costuma abrir mais portas do que brigar. Informar onde fica o CAPS AD mais próximo e se oferecer para ir junto pode fazer diferença.

Quando procurar um médico

Procure atendimento se você tem palpitações, dor no peito, falta de ar ou desmaio depois de tomar energético ou bebida alcoólica; se não consegue diminuir o consumo de álcool ou de outra droga; se sente sintomas físicos ao ficar sem a substância; ou se percebe tristeza persistente, ansiedade ou pensamentos de se machucar. O clínico geral ou o médico de família da UBS é uma boa porta de entrada. Para dependência, o acompanhamento costuma envolver psiquiatra e equipe multiprofissional, como a do CAPS AD. Sintomas no coração devem ser avaliados por um médico, de preferência um cardiologista.

Davis Cripe tomou bebidas que qualquer pessoa compra na padaria. O caso dele é raro, mas resume o que este guia quis mostrar: o que é comum e permitido também age sobre o cérebro e o coração, e a forma de consumir importa tanto quanto a quantidade.

Isso vale para a cafeína somada em pouco tempo, para o álcool que a OMS não considera seguro em nenhuma dose e para as drogas que sequestram o sistema de recompensa. Informação ajuda a escolher melhor. E, se o consumo já saiu do controle, pedir ajuda é um passo de cuidado, não de fraqueza.

Curiosidade de quem gosta de séries: muitas cenas de bebida e drogas na TV usam substitutos inofensivos. Veja quais são em 10 substâncias usadas para simular drogas e bebidas em séries.

Perguntas frequentes

Beber pouco faz bem ao coração?

A OMS afirma que não há estudos mostrando que um possível benefício de beber pouco supere o aumento do risco de câncer. Por isso, não se recomenda começar a beber por saúde.

Adolescente pode tomar energético?

O rótulo exigido pela Anvisa orienta crianças a consultar o médico antes de consumir. Estudos com jovens mostram efeitos como coração acelerado e insônia, e a recomendação é evitar.

Café e energético são a mesma coisa?

Os dois têm cafeína, mas o energético é tomado gelado, em grande volume e rápido, muitas vezes com açúcar e álcool, o que facilita o excesso.

O CAPS AD é só para quem usa drogas ilegais?

Não. Ele atende quem tem problemas com álcool e com outras drogas, e também orienta as famílias.

Referências

  • OMS. Over 3 million annual deaths due to alcohol and drug use, majority among men (2024). who.int
  • OMS Europa. No level of alcohol consumption is safe for our health (2023). who.int
  • NIDA. Drugs, Brains, and Behavior: The Science of Addiction. Drugs and the Brain. nida.nih.gov
  • Anvisa. RDC nº 273/2005 (compostos líquidos prontos para consumo, incluindo bebidas energéticas). bvsms.saude.gov.br
  • Ministério da Saúde. Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). gov.br/saude
  • CVV: Centro de Valorização da Vida, 188. cvv.org.br
  • Thayer RE et al. Structural neuroimaging correlates of alcohol and cannabis use in adolescents and adults. Addiction, 2017. doi.org
  • Thompson T et al. Analgesic effects of alcohol: a systematic review and meta-analysis of controlled experimental studies in healthy participants. Journal of Pain, 2017. doi.org
  • Hammond D et al. Adverse effects of caffeinated energy drinks among youth and young adults in Canada. CMAJ Open, 2018. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  • NBC News. Caffeine overdose killed South Carolina teen, coroner rules (2017). nbcnews.com

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

Compartilhar:WhatsAppFacebook

Comentários

Participe da conversa: conte o que achou ou deixe sua pergunta.

Os comentários passam por revisão antes de aparecer.

Leia também

Vamos falar sobre o COLÁGENO ? O que os pacientes mais me perguntam sobre o colágeno é se realmente ele FUNCIONA, qual a DOSE e qual o TIPO DE COLÁGENO tomar.
Artigo · Beleza

Vamos falar sobre o COLÁGENO?

Oi pessoal, tudo bem? Vamos falar sobre o COLÁGENO? O que os pacientes mais me perguntam sobre o colágeno é se realmente…

Sua privacidade, suas escolhas

O RaisLife usa cookies de estatística e de anúncios do Google para se manter gratuito. Você pode recusar ou escolher o que permite, a qualquer momento. Política de Privacidade