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Artigo · Saúde de A-Z · 9 min de leitura

Tontura: o que pode ser? Vertigem e labirintite

RaiRaisLife3 de outubro de 2026
Escada em espiral vista de cima

Em 1958, Alfred Hitchcock lançou Vertigo, que no Brasil ganhou o nome de Um Corpo que Cai. O detetive vivido por James Stewart fica paralisado no alto de uma escada. Segundo o resumo do filme, ele sofre de duas coisas ao mesmo tempo: acrofobia, o medo extremo de alturas, e vertigem, a falsa sensação de que tudo gira. São problemas diferentes que aparecem juntos, e separar um do outro é justamente o primeiro passo quando o assunto é tontura.

No dia a dia, a troca de nomes é comum, e em português ela tem um nome preferido: "labirintite". Qualquer tontura vira labirintite. A confusão é tão comum que o Departamento de Otoneurologia da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) dedicou uma aula da sua Semana da Tontura a explicar por que não devemos chamar de labirintite todas as doenças do labirinto.

Então, quando a cabeça roda ou o chão parece sumir, o que pode ser?

Resposta rápida: tontura é um nome amplo, que inclui sentir-se fraco, prestes a desmaiar ou sem equilíbrio. Vertigem é um tipo específico: a sensação de que você ou o ambiente estão girando. Labirintite é só uma das causas de vertigem. Na maioria das vezes a tontura não é grave, mas, se vier com fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar ou perda de visão, ligue para o SAMU 192.

Tontura e vertigem são a mesma coisa?

Não. A enciclopédia médica MedlinePlus, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, explica que a palavra tontura costuma ser usada para dois sintomas diferentes.

O primeiro é a sensação de cabeça leve, de quem vai desmaiar. Ela aparece quando o cérebro recebe menos sangue do que precisa por um instante, como ao levantar rápido da cama.

O segundo é a vertigem: a impressão de que você está girando ou de que tudo ao redor gira. O serviço de saúde britânico (NHS) descreve a vertigem como algo além de uma simples tontura, forte o bastante para atrapalhar o equilíbrio. Uma crise pode durar segundos, horas ou, nos casos mais intensos, vários dias.

Saber descrever o que sente ajuda muito o médico. "Achei que ia apagar" aponta para um caminho; "o quarto girou quando virei na cama" aponta para outro.

Tontura: o que pode ser?

Muitas vezes a tontura acompanha outro problema e passa quando ele é tratado. O NHS cita como exemplos:

  • infecção no ouvido;
  • enxaqueca;
  • desidratação ou excesso de calor;
  • estresse e ansiedade;
  • açúcar baixo no sangue em quem tem diabetes;
  • anemia por falta de ferro;
  • enjoo de movimento, como em carro ou barco.

Outra causa frequente é a queda de pressão ao ficar de pé, chamada hipotensão postural. Ela aparece quando você se levanta rápido depois de estar sentado ou deitado. A MedlinePlus lembra que isso é mais comum em pessoas mais velhas e também pode ser efeito de remédios que baixam a pressão. Se você quer entender melhor os números da pressão, temos um texto sobre a tabela de pressão arterial.

Remédio novo também entra na lista. Tontura que começa depois de iniciar um medicamento receitado pode ser efeito colateral, e quem avalia se é preciso mudar algo é o médico que fez a receita. Não pare o remédio por conta própria.

A própria MedlinePlus resume: a maioria das causas de tontura não é grave, e muitas melhoram sozinhas ou têm tratamento simples. A exceção são os casos que chegam junto com outros sintomas, que veremos mais adiante.

O que causa vertigem?

Segundo o NHS, os problemas do ouvido interno, a parte do ouvido que cuida do equilíbrio, são as causas mais comuns de vertigem. Os principais são estes.

Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB)

É o tipo mais comum de vertigem, de acordo com a MedlinePlus. Dentro do ouvido interno há pequenos canais com líquido que informam ao cérebro a posição da cabeça. Na VPPB, pequenos cristais de cálcio se soltam e passam a flutuar nesses canais, mandando mensagens confusas ao cérebro.

O resultado é uma vertigem que começa de repente com certos movimentos, como virar na cama ou olhar para cima, e dura de segundos a minutos. O médico costuma confirmar o diagnóstico com uma manobra simples no consultório, observando os movimentos dos olhos.

Labirintite e neurite vestibular

Aqui está a labirintite de verdade. O NHS explica que ela é uma inflamação do labirinto, um conjunto de canais cheios de líquido no ouvido interno, em geral causada por um vírus, como o de um resfriado ou gripe. A neurite vestibular é muito parecida, mas a inflamação fica no nervo que leva as informações de equilíbrio ao cérebro.

Os sintomas da labirintite incluem vertigem, desequilíbrio, enjoo ou vômitos, perda de audição e zumbido. A neurite vestibular causa quase tudo isso, menos a alteração da audição. É justamente a audição que ajuda a separar uma da outra.

Os sintomas podem começar de repente, às vezes já ao acordar, e costumam aliviar em poucos dias. Segundo o NHS, o equilíbrio geralmente volta em duas a seis semanas, embora possa demorar mais. Quando o desequilíbrio se arrasta por meses, existe a reabilitação vestibular, uma série de exercícios feita com acompanhamento de um profissional, como fisioterapeuta ou fonoaudiólogo.

Doença de Ménière

É uma condição rara do ouvido interno. As crises vêm e vão: começam de repente e podem durar de alguns minutos a 24 horas, com vertigem, zumbido, perda de audição e sensação de pressão dentro do ouvido. Com o tempo, a audição pode piorar. O NHS informa que a doença não tem cura, mas o tratamento ajuda a controlar os sintomas.

Outras causas

A enxaqueca também pode provocar vertigem, assim como alguns medicamentos. E, às vezes, a causa não é encontrada.

Por que nem toda tontura é labirintite?

Porque labirintite é um diagnóstico específico: uma inflamação do labirinto, quase sempre ligada a uma infecção viral recente. Chamar qualquer tontura por esse nome pode levar a dois erros.

O primeiro é tratar a coisa errada. Quem tem VPPB, por exemplo, precisa de uma conduta diferente de quem tem uma inflamação. Quem fica tonto por pressão baixa ou anemia precisa investigar outra coisa.

O segundo erro é mais sério: deixar passar um problema que não está no ouvido. A tontura pode ser um dos sinais de um acidente vascular cerebral (AVC). Achar que "é só a labirintite de novo" atrasa o socorro justamente quando cada minuto conta.

Tontura pode ser AVC?

Pode. Não é o mais comum, já que a maioria das causas de tontura não é grave, mas é preciso conhecer os sinais. O Ministério da Saúde lista entre os principais sinais de alerta do AVC:

  • alteração da fala ou da compreensão;
  • alteração do equilíbrio, da coordenação, tontura ou mudança no jeito de andar;
  • fraqueza ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna).

O NHS acrescenta visão borrada ou perda da visão em um ou nos dois olhos, confusão, dor de cabeça muito forte e enjoo ou vômitos. Para lembrar dos sinais principais, o NHS sugere observar três pontos: o rosto (um lado pode cair e ficar difícil sorrir), os braços (a pessoa pode não conseguir levantar e manter os dois no alto) e a fala (as palavras saem enroladas ou confusas).

Diante de qualquer um desses sinais, o Ministério da Saúde orienta ligar para o SAMU 192 ou levar a pessoa imediatamente a um hospital. Quanto mais rápido o atendimento, maiores as chances de sobrevivência e de recuperação. Saber a hora em que os sintomas começaram também ajuda a equipe de saúde. E mesmo que os sintomas desapareçam em pouco tempo, procure socorro: o NHS alerta que sinais de AVC podem sumir rápido e dar a falsa impressão de que está tudo bem.

O que fazer durante uma crise de tontura?

Enquanto a tontura passa, algumas atitudes recomendadas pelo NHS e pela MedlinePlus reduzem o risco de queda:

  • sente-se ou deite-se assim que sentir a tontura, e levante-se devagar quando ela passar;
  • na vertigem, fique quieto em um lugar calmo e com pouca luz;
  • evite se abaixar de repente e prefira agachar para pegar algo no chão;
  • beba água, sobretudo se estiver vomitando, em pequenos goles;
  • evite álcool;
  • ao se levantar, sente-se antes na beira da cama por alguns instantes;
  • não dirija, não suba em escadas e não opere máquinas enquanto estiver tonto.

Quando procurar um médico

Ligue para o SAMU 192 ou vá ao pronto-socorro se a tontura ou a vertigem vier com:

  • fraqueza, dormência ou formigamento em um lado do corpo, rosto caído ou dificuldade para falar;
  • visão dupla ou perda da visão;
  • perda de audição repentina;
  • dor no peito, coração disparado ou falta de ar;
  • desmaio;
  • pancada na cabeça, convulsão, febre alta com dor de cabeça forte ou pescoço duro.

Marque uma consulta se a tontura não passa, volta com frequência, começou depois de um remédio novo ou vem com zumbido, alteração na audição ou dor de cabeça. Perder a audição de um ouvido de repente, mesmo sem outros sinais, pede atendimento com urgência.

O primeiro passo pode ser o clínico geral ou o médico de família, na unidade básica de saúde. Para os problemas do ouvido interno, o especialista é o otorrinolaringologista, e alguns se dedicam à otoneurologia, a área que estuda o equilíbrio. Quando há suspeita de causa no cérebro, entra o neurologista.

Conclusão: dar o nome certo ao que se sente

O detetive de Hitchcock tinha medo de altura e vertigem, duas coisas diferentes que se confundem. Com a tontura do dia a dia acontece algo parecido: tudo vira "labirintite", quando por trás pode estar uma queda de pressão, cristais soltos no ouvido, uma inflamação viral ou, raramente, um AVC.

Descrever bem o que sente, observar o que vem junto e não ignorar os sinais de alerta é o que ajuda o médico a chegar à causa. E, se a tontura vier com fraqueza, fala enrolada ou perda de visão, não espere: SAMU 192.

Perguntas frequentes

Labirintite tem cura?

Segundo o NHS, a labirintite costuma melhorar sozinha em algumas semanas. Quem define se há necessidade de algum tratamento é o médico.

Ansiedade pode dar tontura?

Pode. Estresse e ansiedade estão entre as causas citadas pelo NHS, e a ansiedade também pode piorar uma vertigem. Mesmo assim, vale a avaliação para afastar outras causas.

Qual médico trata labirintite?

O otorrinolaringologista. O clínico geral pode fazer a primeira avaliação e encaminhar.

Referências

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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