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Artigo · Corpo · 7 min de leitura

Interstício: é mesmo um novo órgão do corpo?

RaiRaisLife29 de março de 2018 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Microscópio com lâminas de tecido corado sobre a bancada

No dia 27 de março de 2018, a revista científica Scientific Reports publicou um estudo de onze pesquisadores de instituições dos Estados Unidos, com Petros Benias como primeiro autor e o patologista Neil Theise, então na Mount Sinai e na Universidade de Nova York, como autor principal. O ponto de partida foi um exame de rotina. Durante endoscopias do ducto biliar (o canal que leva a bile do fígado ao intestino), os médicos usaram uma sonda com microscópio a laser que mostra o tecido vivo, em tempo real, alguns centésimos de milímetro abaixo da superfície.

Na tela, em vez de tecido compacto, apareceram espaços cheios de líquido sustentados por uma rede de feixes de colágeno, algo que ninguém tinha descrito daquele jeito.

A notícia correu o mundo, inclusive aqui no RaisLife: cientistas descobrem um novo órgão no corpo humano, o interstício. Oito anos depois: ele é mesmo um órgão? E o que se aprendeu desde então?

Resposta rápida: o estudo de 2018 descreveu de forma nova uma rede de espaços cheios de líquido dentro do tecido conjuntivo, e esse achado tem sido confirmado e ampliado pelo mesmo grupo. Mas o próprio artigo não chamou o interstício de órgão, e anatomistas contestaram o rótulo. Ele não ganhou, até hoje, o status oficial de órgão.

O que é o interstício?

O corpo tem células, vasos sanguíneos, vasos linfáticos e, entre tudo isso, um "recheio". Esse recheio é o tecido conjuntivo, formado por fibras (como o colágeno e a elastina) e por uma substância que retém água. O espaço entre as células, onde circula o líquido que banha os tecidos, é chamado de interstício. A palavra é antiga nos livros de fisiologia.

A novidade de 2018 não foi a palavra. Foi a forma. Os autores propuseram que, em várias partes do corpo, esse espaço é maior e mais organizado do que se imaginava: uma malha de feixes grossos de colágeno com canais de líquido entre eles, que se esvaziam e somem quando o tecido é preparado do jeito tradicional para o microscópio.

O que o estudo de 2018 mostrou de fato?

Segundo o resumo do artigo, a sonda de microscopia a laser mostrou um padrão em rede, preenchido pelo corante injetado, sem correspondência anatômica conhecida. Quando os pesquisadores congelaram as biópsias antes de fixá-las, em vez de passar pelo processo comum, a estrutura se manteve. Eles concluíram que se tratava de uma parte da submucosa (a camada logo abaixo do revestimento interno do órgão) e de um espaço cheio de líquido que drena para os linfonodos.

Depois, encontraram estruturas parecidas em vários lugares que sofrem compressão ritmada ou de vez em quando:

  • a submucosa de todo o tubo digestivo e da bexiga;
  • a derme, camada mais profunda da pele;
  • o tecido mole em volta dos brônquios e das artérias;
  • as fáscias, membranas que envolvem os músculos.

A hipótese do grupo era que esses espaços podem ter papel na disseminação do câncer (a metástase), no inchaço (edema), na fibrose e no funcionamento mecânico dos tecidos. Repare no verbo: podem. Era uma hipótese, não uma conclusão.

Um detalhe de transparência: na declaração de conflitos de interesse, alguns autores informaram patrocínio de viagem ou consultoria ligados a fabricantes de equipamentos de endoscopia. Em maio de 2018, a revista também publicou uma correção do artigo.

Então o interstício é ou não é um órgão?

Aqui começa a controvérsia. O título do artigo fala em "um interstício não reconhecido em tecidos humanos" e a conclusão o descreve como uma "nova expansão e especificação do conceito de interstício humano". A palavra órgão, como novo órgão, não está lá. Ela apareceu na divulgação e na imprensa.

Em maio de 2018, o anatomista Paul Neumann, da Universidade Dalhousie, no Canadá, publicou na revista Clinical Anatomy um comentário com um título irônico: "Mais um novo órgão! Estamos numa era de ouro da descoberta em anatomia?". Os argumentos dele foram três:

  • Pela definição clássica, um órgão é formado por dois ou mais tecidos e cumpre uma função especial. Para ele, o interstício, que é tecido conjuntivo com espaços de líquido, não preenche esses requisitos.
  • A alegação de "órgão" não estava no relatório científico original, só na repercussão.
  • O mesmo tinha acontecido pouco antes com o mesentério, a membrana que prende o intestino à parede do abdome, também anunciado como "novo órgão".

A conclusão dele foi direta: muito barulho por nada, ao menos quanto ao rótulo.

O achado em si seguiu respeitado: em 2019, dois autores comentaram o estudo na Hepatology sob o título "O espaço intersticial ganha forma". O nome é uma discussão; a observação dos tecidos é outra.

O que se descobriu sobre o interstício depois de 2018?

O grupo de Theise continuou a pesquisa, agora na Universidade de Nova York. Em 2021, publicou na revista Communications Biology um trabalho sobre a continuidade desses espaços. Os pesquisadores acompanharam partículas que não são do corpo, como pigmento de tatuagem e prata coloidal, dentro do intestino grosso e da pele, e viram que elas seguiam para as fáscias vizinhas. Também marcaram o ácido hialurônico, um componente natural desses espaços. Os dois métodos mostraram continuidade dentro dos órgãos e entre eles, inclusive pelas bainhas que envolvem nervos e vasos.

Os autores propõem uma rede de espaços cheios de líquido pelo corpo todo, com possível papel na sinalização entre moléculas, no trânsito de células e na disseminação de tumores e infecções.

Em 2025, na revista Human Pathology, o grupo estudou o pâncreas de nove pacientes operados. Os espaços cheios de ácido hialurônico envolviam todas as pequenas unidades do órgão, seguiam para o duodeno vizinho e acompanhavam vasos e nervos. Em amostras de câncer de pâncreas, o tumor aparecia se espalhando por esses espaços que já existiam.

São achados consistentes, mas vêm em boa parte da mesma equipe. Ainda não existe exame de rotina, tratamento ou recomendação ao paciente baseada no interstício.

Por que o título "novo órgão" pegou tanto?

Porque a história era irresistível, e a explicação técnica é menos chamativa: no preparo comum das lâminas, esses espaços de líquido se fecham e não aparecem; congelar o tecido antes preservou a estrutura. Ver o tecido vivo mostrou o que o método antigo apagava. O rótulo de órgão, porém, não foi aceito pelos anatomistas.

Quando procurar um médico

O interstício não é um diagnóstico nem algo que se examine numa consulta. Mas o inchaço, um dos fenômenos ligados a esses espaços, merece atenção. Procure um médico se o inchaço não melhora em alguns dias ou piora, se aparece em uma só perna sem causa conhecida, se surge de repente, dói, fica vermelho e quente ou vem com febre. Falta de ar ou dor e aperto no peito pedem atendimento de emergência (SAMU 192).

O que fica dessa história

Aquela imagem no ducto biliar, em 2018, mostrou algo real: o tecido conjuntivo tem espaços de líquido organizados que o microscópio comum escondia, e a pesquisa seguinte reforçou isso. O que não se sustentou foi a manchete. O interstício é um tema vivo da patologia, não um órgão novo nos livros de anatomia. Ciência boa costuma ser assim: o achado fica, o exagero vai embora.

Perguntas frequentes

O interstício foi reconhecido oficialmente como órgão?

Não. O artigo de 2018 não usou o termo e anatomistas contestaram o rótulo.

Ele tem relação com o câncer?

Estudos do mesmo grupo mostram tumores se espalhando por esses espaços em amostras de tecido. Ainda não há uso disso no tratamento.

Referências

  • Benias PC, Wells RG, Sackey-Aboagye B, et al. Structure and Distribution of an Unrecognized Interstitium in Human Tissues. Scientific Reports, 2018. nature.com
  • Benias PC et al. Author Correction: Structure and Distribution of an Unrecognized Interstitium in Human Tissues. Scientific Reports, 2018. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Neumann PE. Another new organ! Is this a golden age of discovery in anatomy? Clinical Anatomy, 2018. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • NHS. Oedema (swelling). nhs.uk
  • Hytiroglou P, Wanless IR. The Interstitial Space Takes Shape. Hepatology, 2019. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Cenaj O, Allison DHR, Imam R, et al. Evidence for continuity of interstitial spaces across tissue and organ boundaries in humans. Communications Biology, 2021. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  • Theise ND, Kohnehshahri MN, Chiriboga LA, et al. Evidence of interstitial continuity within and beyond the human pancreas. Human Pathology, 2025. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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