
Ana Bekoach: o que é essa oração e o que diz
A Mishná, a primeira grande compilação da lei judaica, guarda um costume curioso de um sábio dos primeiros séculos da Era Comum chamado Nechunia ben HaKana. Toda vez que entrava na casa de estudo, ele fazia uma oração curta. Na saída, outra. Os colegas perguntaram que oração era aquela. Ele explicou que, ao entrar, pedia que nenhum tropeço acontecesse por sua causa, e, ao sair, agradecia pela sua porção.
Duas orações de poucas palavras, ditas por alguém conhecido pela humildade. É a esse mesmo rabino que a tradição judaica atribui um texto bem mais famoso hoje, cantado em sinagogas e ouvido por muitas pessoas em vídeos na internet: o Ana Bekoach.
Se você chegou até aqui depois de ouvir essa melodia num canal como o Hill Radiance, a pergunta natural é: afinal, o que é o Ana Bekoach e o que dizem as suas palavras?
Resposta rápida: Ana Bekoach é uma oração judaica em hebraico, com sete versos de seis palavras cada, que a tradição atribui ao rabino Nechunia ben HaKana. Ela é recitada nas sextas-feiras à noite, na recepção do Shabat, e as iniciais das suas 42 palavras formam o chamado nome de 42 letras.
O que significa "Ana Bekoach"?
O nome vem das duas primeiras palavras do texto. Ana é um pedido intenso, algo como "por favor" ou "nós te pedimos". Bekoach quer dizer "com força". O primeiro verso, numa tradução simples, fica assim:
"Nós te pedimos: com a força da grandeza da tua mão direita, desata o que está preso."
Você vai encontrar grafias diferentes: Ana Bekoach, Ana B'koach, Ana Bechoach. Todas falam do mesmo texto, de versos curtos e simétricos, quase como um tecido de seis fios repetido sete vezes.
Quem foi Nechunia ben HaKana?
Nechunia ben HaKana foi um dos sábios da época da Mishná, que viveu nos primeiros séculos da Era Comum. O site My Jewish Learning o descreve como alguém conhecido pelo jeito manso e pelo perdão, e também pelo domínio da lei e da mística judaica.
Além da história das duas orações curtas, contada na Mishná (tratado Berachot 4:2), ele aparece na Ética dos Pais (Pirkei Avot 3:5) com uma frase lembrada até hoje: quem aceita sobre si o "jugo da Torá" fica livre do jugo do governo e das preocupações do mundo.
Vale um cuidado. A ligação do Ana Bekoach com Nechunia vem da tradição, e as próprias fontes judaicas falam em autoria "atribuída" ou "que se acredita" ser dele.
Por que se fala em "nome de 42 letras"?
Aqui está a parte que mais desperta curiosidade. O Ana Bekoach tem 42 palavras, distribuídas em sete versos de seis palavras. Se você pegar a primeira letra de cada palavra, linha por linha, forma sete grupos de seis letras. Na mística judaica, a Cabala, essas 42 letras compõem um nome divino.
O padrão de seis e sete não é por acaso, segundo essa leitura: são os seis dias da criação e o sétimo, o Shabat. O sábio Hai Gaon, que viveu entre 939 e 1038, já relacionava cada verso a um dia da semana.
Para quem não segue a Cabala, a estrutura continua bonita de olhar: um poema montado com a regularidade de um calendário.
Quando e onde o Ana Bekoach é recitado?
O momento mais conhecido é a Kabalat Shabat, a recepção do sábado na sexta-feira ao pôr do sol. Na ordem da oração, o Ana Bekoach vem depois de seis salmos (do 95 ao 99, e o 29), quase no instante em que o Shabat começa. Por isso ele é visto como uma ponte entre a semana de trabalho e o dia de descanso.
Nos livros de oração, logo depois dos sete versos, vem uma frase de encerramento que não faz parte do poema: "Bendito seja o nome da glória do seu reino para sempre". Ela funciona como um fecho.
O último verso volta ao tom do primeiro e termina como uma súplica pessoal:
"Aceita o nosso clamor e ouve o nosso grito, tu que conheces os segredos."
Fora da sinagoga, o texto ganhou muitas melodias e também aparece gravado em joias, quadros e objetos decorativos.
Como o canal Hill Radiance canta o Ana Bekoach?
O Hill Radiance publica música de oração hebraica em clima de meditação, com cantos, som ambiente e playlists longas. O Ana Bekoach aparece em várias dessas gravações.
Esta é uma delas, com ambientação de música de adoração:
Há também uma versão bem longa, de 11 horas, com som de chuva ao fundo e legendas:

E uma gravação que o canal apresenta para a hora de dormir:

Os títulos dos vídeos usam palavras fortes, comuns em canais de música espiritual. O que se pode dizer com segurança é o que está nas fontes: o Ana Bekoach é uma oração de pedido e de confiança, e muitas pessoas o ouvem em momentos de calma ou de oração. Os efeitos de cada escuta são pessoais e não há promessa a fazer sobre eles.
Conclusão
O rabino que rezava duas frases curtas na porta da casa de estudo ficou conhecido justamente pela humildade. Séculos depois, a tradição colocou o nome dele num poema de 42 palavras que abre o Shabat em muitas comunidades. O texto pede força, proteção e escuta, na voz de uma comunidade que reza junto. Ouvir o Ana Bekoach, numa sinagoga ou num vídeo, é se aproximar dessa história.
Para outras orações e salmos explicados, veja a seção Hill Radiance do RaisLife.
Perguntas frequentes
Ana Bekoach é uma oração judaica ou cristã?
Judaica. Faz parte da liturgia em hebraico, sobretudo na recepção do Shabat. Pessoas de outras tradições também a ouvem pela beleza do texto e das melodias.
Quantos versos tem o Ana Bekoach?
Sete versos, com seis palavras cada, num total de 42 palavras. A frase "Bendito seja o nome..." que vem depois é um encerramento, não um oitavo verso do poema.
Preciso saber hebraico para ouvir?
Não. Muitas gravações, como a versão longa do Hill Radiance, trazem legendas, e a tradução ajuda a acompanhar o sentido de cada verso.
Referências
- Gottlieb, D. Ana b'Koach: A Portal to Creation. My Jewish Learning. myjewishlearning.com
- Sidur Ashkenaz, Kabalat Shabat, Ana Bekoach (texto hebraico e tradução Metsudah). Sefaria. sefaria.org
- Mishná, Berachot 4:2. Sefaria. sefaria.org
- Pirkei Avot 3:5. Sefaria. sefaria.org
Conteúdo cultural e musical. Não substitui acompanhamento médico ou psicológico. Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.
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