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Artigo · Notícias · 8 min de leitura

Shigeaki Hinohara: o médico japonês de 105 anos

RaiRaisLife19 de março de 2018 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Jogo de chá japonês e bonsai sobre uma mesa de madeira

Em 1970, um médico japonês estava num voo da Japan Airlines de Tóquio para Fukuoka quando integrantes do grupo militante Exército Vermelho Japonês, armados com espadas e bombas, tomaram o avião. Anos depois, ele contaria que mediu o próprio pulso quando um dos sequestradores sacou a espada, e que pensou: "sou médico até o osso".

O médico era Shigeaki Hinohara. Os reféns foram libertados em Fukuoka e em Seul, e o avião seguiu para a Coreia do Norte. Ele viveu mais 47 anos, continuou atendendo depois dos 100 e se tornou um dos rostos da longevidade japonesa.

Quem foi esse médico japonês que viveu 105 anos? E o que, das ideias que ele defendia, a ciência confirma hoje?

Resposta rápida: Shigeaki Hinohara (1911–2017) foi um médico do Hospital Internacional St. Luke, em Tóquio, pioneiro dos check-ups preventivos no Japão. Morreu aos 105 anos, ainda ativo. Os conselhos que dava, como continuar trabalhando, se divertir e subir escadas, eram a experiência pessoal dele, não recomendações médicas para todos.

Quem foi Shigeaki Hinohara?

Hinohara nasceu em 4 de outubro de 1911, na província de Yamaguchi, no oeste do Japão. Formou-se em medicina pela Universidade Imperial de Kyoto em 1937 e, em 1941, começou a trabalhar como médico no Hospital St. Luke, em Tóquio. Também estudou nos Estados Unidos, na Universidade Emory. Em 1992 assumiu a direção do hospital e, em 2005, recebeu do governo japonês a Ordem da Cultura.

A carreira dele atravessou momentos duros da história do país. Em 1945, durante os bombardeios de Tóquio, o St. Luke recebeu feridos em caminhões, um atrás do outro. Faltava remédio, faltava espaço, e muitos pacientes não cabiam no prédio.

Cinquenta anos depois, a memória virou preparação. Quando o novo prédio do hospital foi construído, ele insistiu em instalar saídas de oxigênio nos corredores e em outros espaços, para atender muitas vítimas de uma vez numa emergência. Muita gente achou exagero. Em 20 de março de 1995, membros da seita Aum Shinrikyo espalharam gás sarin no metrô de Tóquio. Hinohara suspendeu o atendimento normal e mandou receber todas as vítimas. Segundo o relato dele ao jornal Japan Times, o hospital acolheu cerca de 740 pessoas naquele dia.

O que ele fez pela saúde dos japoneses?

A contribuição mais duradoura de Hinohara foi na medicina preventiva. Em 1954, ele ajudou a introduzir no Japão o check-up anual completo, apelidado de "doca seca humana", uma bateria de exames para encontrar problemas antes que eles causem sintomas. O modelo virou rotina para muitos japoneses de meia-idade e é apontado como um dos fatores que ajudaram o país a se tornar referência em longevidade.

Ele também ajudou a popularizar a ideia de "doenças do estilo de vida", para mostrar que problemas como pressão alta e diabetes têm relação com hábitos, e não só com a idade. E defendia um atendimento centrado no paciente, com atenção à qualidade de vida também na fase final de doenças graves.

Quais eram os conselhos de Hinohara para viver mais?

Em 2000, Hinohara criou um movimento que incentivava as pessoas mais velhas a seguirem ativas e participando da sociedade. Em 2009, aos 97 anos, deu uma entrevista à jornalista Judit Kawaguchi, do Japan Times, com as ideias que guiavam a vida dele. Algumas delas:

  • Não se aposentar, ou se aposentar bem depois dos 65. Ele lembrava que a idade de aposentadoria de 65 anos tinha sido fixada meio século antes, quando a expectativa de vida no Japão era de 68 anos. Aos 97, dava cerca de 150 palestras por ano, quase sempre em pé, e dizia trabalhar 18 horas por dia, sete dias por semana, como voluntário.
  • A energia vem de se sentir bem. "Todos nos lembramos de como, quando crianças, ao nos divertirmos, esquecíamos de comer ou dormir", disse. Para ele, era melhor não cansar o corpo com regras rígidas de horário.
  • Comer pouco e não ganhar peso. Contava que no café da manhã tomava café, leite e suco de laranja com uma colher de azeite; no almoço, leite e alguns biscoitos; no jantar, legumes, um pouco de peixe e arroz, e carne magra duas vezes por semana.
  • Perguntar ao médico. Sugeria que, diante da indicação de um exame ou cirurgia, o paciente perguntasse se o médico recomendaria aquilo ao próprio cônjuge ou filho.
  • Diversão contra a dor. Defendia que hospitais oferecessem música, arte e terapia com animais, como o St. Luke fazia.
  • Subir escadas e carregar as próprias coisas. Dizia subir os degraus de dois em dois para manter os músculos ativos.

O que a ciência diz sobre essas ideias hoje?

Aqui é preciso separar a história de um homem notável de uma receita para todos. Hinohara falava da própria experiência, e um caso isolado, por mais inspirador que seja, não serve de prova. Muita coisa influencia quanto alguém vive, inclusive a genética e o acesso a cuidados de saúde.

Algumas ideias dele combinam com o que as diretrizes atuais recomendam. A Organização Mundial da Saúde orienta que adultos e idosos façam de 150 a 300 minutos de atividade física moderada por semana, com exercícios de força pelo menos duas vezes por semana, e que reduzam o tempo parado. Subir escadas e carregar sacolas são formas de movimento que contam. O Guia de Atividade Física do Ministério da Saúde também cita subir escadas no lugar do elevador como opção no dia a dia. Manter vida social e propósito é outro ponto que costuma aparecer associado a um envelhecimento saudável.

Outras ideias pedem cautela. O cardápio que ele descrevia era muito enxuto e não deve ser copiado: a alimentação de cada pessoa, ainda mais na velhice, precisa garantir proteína e nutrientes suficientes, e isso depende de avaliação individual. "Esquecer de comer e dormir" também não é conselho de saúde: sono regular e refeições adequadas fazem parte das recomendações oficiais. Quanto ao azeite, ele é parte de padrões alimentares saudáveis, mas não existe uma colher mágica no suco.

E a pergunta que ele sugeria fazer ao médico pode ser lida de um jeito útil: é sempre válido perguntar para que serve um exame ou cirurgia, quais são os riscos e quais as alternativas. Isso é diferente de recusar tratamento por conta própria. Decisões assim se tomam em conversa com o médico, nunca sozinho.

Para outros hábitos ligados a uma vida longa, vale ler também o desafio do bem em segredos para uma vida longa. E, se a ideia de se mexer mais animou você, há dicas para quem corre em como melhorar o desempenho na corrida.

Como foram os últimos anos dele?

Hinohara continuou atendendo depois dos 100 anos. A jornalista Judit Kawaguchi, que o conhecia bem, contou, em homenagem citada pela BBC, que ele sempre tinha objetivos para hoje, para amanhã e para os próximos cinco anos. O próximo grande sonho era assistir aos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Em março de 2017, internado com problemas ligados à idade, que afetavam o coração e o aparelho digestivo, ele recusou de forma clara medidas para prolongar a vida e voltou para casa. Morreu em Tóquio em 18 de julho de 2017, de insuficiência respiratória, aos 105 anos.

O Japão segue entre os países com maior expectativa de vida do mundo. Pela tábua de vida de 2024 do Ministério da Saúde japonês, os homens vivem em média 81,1 anos e as mulheres, 87,1.

Quando procurar um médico

Se você quer mudar a rotina para envelhecer melhor, um bom começo é uma consulta com um clínico geral ou geriatra, principalmente se tem doença crônica, usa vários remédios, está parado há muito tempo ou pensa em mudar muito a alimentação. Mudanças grandes na dieta devem ser orientadas por médico ou nutricionista. E procure atendimento se sentir dor no peito, falta de ar ou tontura ao fazer esforço.

Conclusão: a lição está na história, não na receita

O médico que mediu o próprio pulso no meio de um sequestro passou o resto da vida tentando ser útil aos outros. Preparou um hospital para uma tragédia que ninguém esperava, ajudou o Japão a levar a prevenção a sério e mostrou que é possível seguir ativo por muito tempo.

O que fica de Shigeaki Hinohara não é um cardápio nem uma regra de horário. É o exemplo de propósito, movimento e convivência, que combina com o que a ciência recomenda hoje. O resto, cada pessoa ajusta com o próprio médico.

Perguntas frequentes

Quantos anos Shigeaki Hinohara viveu?

Ele nasceu em 4 de outubro de 1911 e morreu em 18 de julho de 2017, aos 105 anos.

Os conselhos dele valem para todo mundo?

Não como regra. Eram a experiência pessoal dele. Atividade física e vida social têm respaldo científico; dieta e sono devem seguir as recomendações oficiais e a orientação do seu médico.

Referências

  • BBC News. Shigeaki Hinohara: Japan's centenarian doctor dies at 105, 2017. bbc.com
  • The Mainichi (Kyodo). Shigeaki Hinohara, Japan's centenarian doctor, dies at 105, 2017. mainichi.jp (arquivo)
  • The Mainichi. Yoroku: Dr. Hinohara's lifelong mission was to treat patients, 2017. mainichi.jp
  • Kawaguchi J. Author/physician Shigeaki Hinohara. The Japan Times, 29 jan. 2009. japantimes.co.jp (arquivo)
  • Organização Mundial da Saúde. Physical activity (nota descritiva). who.int
  • Ministério da Saúde. Guia de Atividade Física para a População Brasileira, 2021. bvsms.saude.gov.br
  • Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão. Tábua de vida abreviada de 2024. mhlw.go.jp

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas acima · Última revisão: outubro de 2026.

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