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Artigo · AIDS · 11 min de leitura

Guia das doenças infecciosas: aids, ISTs e dengue

RaiRaisLife7 de dezembro de 2015 · atualizado em 3 de outubro de 2026
Laço vermelho, caixa de preservativos e tubo de ensaio

Em 1986, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, descobriu que tinha o vírus da aids. Ele e os irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, tinham hemofilia e dependiam de transfusões de sangue, e os três foram infectados por essa via. Henfil e Chico Mário morreram em 1988. Betinho transformou o diagnóstico em causa: fundou a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), falou do assunto em público quando quase ninguém falava e, nos anos 1990, liderou a campanha nacional contra a fome.

Betinho morreu em 1997. Um ano antes, uma lei federal havia garantido a distribuição gratuita do tratamento contra o HIV pelo SUS. O cenário que ele viu de perto, de medo, desinformação e preconceito, mudou muito desde então. Hoje há testes rápidos no posto de saúde, remédios que impedem a infecção antes e depois de uma exposição e a certeza científica de que quem trata o HIV e mantém o vírus indetectável não o transmite pelo sexo.

Este guia reúne o que você precisa saber sobre algumas das doenças infecciosas mais comuns no Brasil: HIV e aids, as outras infecções sexualmente transmissíveis, a dengue e seus "primos" transmitidos pelo mesmo mosquito, e a hanseníase. O que elas têm em comum? Todas têm prevenção, diagnóstico e acompanhamento gratuitos no SUS.

Resposta rápida: HIV e outras ISTs se previnem com camisinha, vacinas, testagem e, no caso do HIV, PrEP e PEP, todas gratuitas no SUS. A dengue se evita cortando os criadouros do mosquito e com a vacina para os grupos indicados. A hanseníase tem tratamento gratuito e cura.

HIV e aids são a mesma coisa?

Não. O HIV é o vírus. A aids é a fase avançada da infecção, quando o vírus já enfraqueceu bastante as defesas do corpo e aparecem as chamadas doenças oportunistas. Entre uma coisa e outra podem passar anos sem nenhum sintoma, e é por isso que muita gente vive com o HIV sem saber.

Com o tratamento antirretroviral, que o SUS oferece de graça desde 1996, a maioria das pessoas nunca chega à fase de aids. O tratamento controla o vírus, protege o sistema de defesa e permite levar a vida com estudo, trabalho, família e filhos.

O HIV passa pelo sexo sem camisinha, pelo compartilhamento de seringas e agulhas, de mãe para filho na gestação, no parto ou na amamentação, quando não há acompanhamento, e pelo sangue contaminado. Ele não passa por abraço, beijo no rosto, aperto de mão, talheres, copos, assento de ônibus ou piscina.

Outra ideia que ficou para trás é a de "grupo de risco". O vírus não escolhe idade, orientação sexual nem classe social: atinge jovens, pessoas casadas e também quem tem mais de 50 anos. O que existe são situações de risco, como transar sem preservativo, e é sobre elas que vale pensar.

O que quer dizer "indetectável = intransmissível"?

Quando a pessoa que vive com HIV toma o tratamento direitinho, a quantidade de vírus no sangue, chamada carga viral, cai tanto que os exames não conseguem mais encontrá-la. Ela fica indetectável. O Ministério da Saúde reconhece que quem segue bem o tratamento e mantém a carga viral indetectável tem risco zero de transmitir o HIV pelo sexo.

A sigla I=I (indetectável = intransmissível) mudou a forma de enxergar o HIV. Ela dá autonomia a quem vive com o vírus, ajuda a diminuir o preconceito e mostra que tratar é também uma forma de prevenir. A camisinha continua importante porque protege de outras ISTs.

Como prevenir o HIV hoje?

O Ministério da Saúde chama de prevenção combinada o conjunto de ferramentas que podem ser usadas juntas, de acordo com a vida de cada pessoa. Todas estão disponíveis de graça no SUS:

  • Camisinha externa e interna e gel lubrificante, distribuídos nas unidades de saúde.
  • Testagem regular para HIV, sífilis e hepatites B e C. O teste rápido é feito nos postos e nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA).
  • PrEP (profilaxia pré-exposição): um medicamento tomado antes de uma possível exposição, que impede o vírus de se instalar no organismo. É indicada para quem tem maior chance de contato com o HIV e exige acompanhamento com exames.
  • PEP (profilaxia pós-exposição): um tratamento de emergência para depois de uma situação de risco, como camisinha que estourou, relação sem preservativo, violência sexual ou acidente com material contaminado. Precisa começar o quanto antes, de preferência nas duas primeiras horas e no máximo em 72 horas, e dura 28 dias.
  • Tratamento de quem vive com HIV, que leva ao indetectável e interrompe a transmissão sexual.
  • Pré-natal com teste, que permite evitar a transmissão do HIV e da sífilis para o bebê.

A escolha de PrEP ou PEP, e de como usar cada uma, é feita junto com a equipe de saúde. Se você passou por uma situação de risco agora, procure no mesmo dia um serviço de urgência, um CTA ou a unidade de saúde. Não espere o dia seguinte para decidir.

Quais são as outras ISTs e como elas aparecem?

As infecções sexualmente transmissíveis são causadas por vírus, bactérias e outros microrganismos. As mais conhecidas são a sífilis, a gonorreia, a clamídia, o herpes genital, o HPV e as hepatites B e C, além do próprio HIV. Segundo o Ministério da Saúde, elas costumam aparecer de três jeitos:

  • Corrimentos no pênis, na vagina ou no ânus, às vezes com dor, ardência ao urinar ou cheiro diferente.
  • Feridas na região genital, anal ou na boca. Algumas não doem, como a ferida inicial da sífilis, e por isso passam despercebidas.
  • Verrugas genitais e anais, causadas pelo HPV, geralmente sem dor.

O ponto mais importante é que muitas ISTs não dão sintoma nenhum. A maioria das mulheres com gonorreia, por exemplo, não percebe nada, segundo a Organização Mundial da Saúde. Sem diagnóstico, essas infecções podem causar infertilidade, dor pélvica crônica, câncer e problemas graves na gestação. Por isso o teste depois de uma relação sem preservativo é tão útil quanto ficar de olho nos sinais.

O que é a "supergonorreia"?

A bactéria da gonorreia aprendeu a resistir a vários antibióticos ao longo das décadas. A OMS considera a resistência um problema sério e crescente, com risco de algumas infecções ficarem muito difíceis de tratar. Daí o apelido de "supergonorreia". A resposta passa por usar camisinha, testar, tratar só com orientação médica e nunca por conta própria com antibiótico guardado em casa, e avisar as parcerias sexuais para que também sejam avaliadas.

Vírus no sêmen: o que a ciência já sabe?

Uma revisão publicada em 2017 na revista Emerging Infectious Diseases, do CDC americano, analisou mais de 3.800 artigos e encontrou registros de 27 vírus capazes de circular no sangue que também já foram detectados no sêmen, entre eles o zika e o ebola. Os próprios autores alertam: encontrar o vírus no sêmen não prova que ele passe pelo sexo, e para a maioria deles ainda faltam dados. Para o dia a dia, a mensagem continua a mesma: camisinha protege.

Existe vacina contra IST?

Sim, para duas delas. A vacina contra o HPV e a vacina contra a hepatite B estão no calendário do SUS. A do HPV protege contra os tipos do vírus ligados a verrugas e a cânceres, como o de colo do útero. As faixas de idade e os grupos atendidos são definidos pelo Ministério da Saúde e podem mudar, então vale confirmar na sua unidade.

Dengue, zika e chikungunya: qual a diferença?

As três são causadas por vírus diferentes, transmitidos pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti, que se cria em água parada e limpa. Os sintomas se parecem no começo, com febre, dor no corpo e manchas na pele, mas cada uma tem sua marca:

  • Dengue: febre alta, dor atrás dos olhos e muita dor no corpo. É a que mais mata das três, porque algumas pessoas evoluem para a forma grave, com sangramentos e queda de pressão.
  • Chikungunya: dor forte e inchaço nas articulações, que em parte das pessoas dura meses.
  • Zika: costuma ser mais leve, com manchas e coceira, mas na gestação pode causar microcefalia e outras alterações no bebê, e em adultos está associada à síndrome de Guillain-Barré, que afeta os nervos.

Um post antigo deste blog dizia que não havia vacina para nenhuma delas. Isso mudou: o SUS já oferece vacina contra a dengue para os grupos definidos pelo Ministério da Saúde, e a oferta vem sendo ampliada. Os detalhes, os sinais de alarme e o que fazer em casa estão no nosso guia completo sobre dengue.

Mesmo com vacina, combater o mosquito continua sendo a principal proteção. Dez minutos por semana resolvem boa parte do problema: virar garrafas e baldes, colocar areia nos pratinhos de plantas, tampar caixas-d'água, limpar calhas e não deixar lixo acumulado. Foco de mosquito em terreno vizinho ou na rua pode ser comunicado à prefeitura. E diante de febre, evite se automedicar: alguns anti-inflamatórios aumentam o risco de sangramento na dengue.

Hanseníase tem cura?

Tem. A hanseníase é uma das doenças mais antigas de que se tem registro, causada pela bactéria Mycobacterium leprae, também chamada de bacilo de Hansen. Ela atinge principalmente a pele e os nervos das mãos, dos pés e do rosto. O tratamento é gratuito no SUS, dura seis meses na forma paucibacilar e doze meses na multibacilar, e leva à cura.

A transmissão acontece pelas gotículas da respiração, ao tossir, espirrar ou falar, de uma pessoa doente sem tratamento para alguém com quem ela convive de perto e por muito tempo. A doença não passa por abraço, roupas de cama, pratos ou talheres, e quem está em tratamento não é a fonte da transmissão.

Os sinais que merecem atenção são:

  • manchas mais claras, rosadas ou avermelhadas na pele, com perda ou diminuição da sensibilidade ao calor, ao frio, à dor ou ao toque;
  • áreas da pele sem pelos ou sem suor;
  • formigamento, dormência ou perda de força nas mãos e nos pés;
  • caroços no corpo.

O diagnóstico é feito principalmente pelo exame clínico da pele e dos nervos, por profissional treinado. Quanto mais cedo ele vem, menor a chance de sequelas, como deformidades e perda de movimento. Por isso as pessoas que moram com quem recebeu o diagnóstico também são chamadas para avaliação. O preconceito contra a doença atrapalha justamente o que mais ajuda: procurar o posto ao notar uma mancha diferente.

Quando procurar um médico

Procure atendimento no mesmo dia se teve uma relação sem preservativo, a camisinha rompeu, sofreu violência sexual ou se feriu com material que pode estar contaminado: a PEP funciona melhor nas primeiras horas. Na dengue, busque um pronto atendimento imediatamente diante de dor forte na barriga, vômitos que não param, sangramento, tontura ao levantar ou sonolência.

Marque uma consulta na unidade de saúde se notar corrimento, ferida ou verruga na região genital, se quiser fazer os testes de HIV, sífilis e hepatites, ou se tiver uma mancha na pele com sensibilidade alterada. O clínico ou o médico de família faz a primeira avaliação; dependendo do caso, o acompanhamento segue com infectologista, dermatologista, ginecologista ou urologista. O post sobre varicela e herpes-zóster trata de outra infecção viral comum.

Conclusão: informação no lugar do medo

Quando Betinho contou ao país que tinha o vírus da aids, quase não havia tratamento e sobrava preconceito. Ele escolheu falar, e falar ajudou a construir uma política de saúde que hoje oferece de graça o teste, a prevenção e o tratamento. A mesma lição serve para as outras doenças deste guia: a gonorreia que se esconde sem sintomas, a dengue que volta todo verão, a hanseníase que ainda carrega um estigma de séculos.

Nenhuma delas é motivo de vergonha. Todas ficam mais fáceis de enfrentar quando o diagnóstico vem cedo. Fazer o teste, usar a camisinha, cuidar do quintal e mostrar aquela mancha ao médico são atitudes simples que protegem você e as pessoas à sua volta.

Perguntas frequentes

O teste de HIV no SUS é gratuito?

Sim. O teste é gratuito no SUS, feito nas unidades de saúde e nos CTAs.

Quem vive com HIV pode ter filhos sem passar o vírus?

Sim. Com tratamento, carga viral controlada e acompanhamento no pré-natal, o risco de transmissão para o bebê fica muito baixo.

Quem já teve dengue pode ter de novo?

Pode. Existem quatro tipos de vírus da dengue, e uma segunda infecção por um tipo diferente pode ser mais grave.

Quem convive com uma pessoa com hanseníase precisa se afastar dela?

Não. A transmissão vem de quem tem a doença e está sem tratamento. O recomendado é que quem mora junto passe por avaliação na unidade de saúde.

Referências

  • Ministério da Saúde. PrEP: profilaxia pré-exposição ao HIV. gov.br/aids
  • Ministério da Saúde. PEP: profilaxia pós-exposição ao HIV. gov.br/aids
  • Ministério da Saúde. Prevenção combinada (I=I). gov.br/aids
  • Ministério da Saúde. Infecções sexualmente transmissíveis (IST). gov.br/aids
  • Ministério da Saúde. Hanseníase. gov.br/saude
  • Ministério da Saúde. Dengue. gov.br/saude
  • Ministério da Saúde. Zika vírus. gov.br/saude
  • Ministério da Saúde. Chikungunya. gov.br/saude
  • Organização Mundial da Saúde. Gonorrhoea (Neisseria gonorrhoeae infection). who.int
  • Salam AP, Horby PW. The Breadth of Viruses in Human Semen. Emerging Infectious Diseases, 2017. cdc.gov
  • Brasil. Lei nº 9.313, de 13 de novembro de 1996 (distribuição gratuita de medicamentos às pessoas que vivem com HIV). camara.leg.br

Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para avaliar o seu caso, converse com um médico, de preferência um especialista na área.

Informações conferidas com as fontes citadas · Última revisão: outubro de 2026.

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